China usa Peru e Chile para driblar tarifas antidumping do Brasil
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Produtos prontos vindos da China e de outros países também geram apreensão aos empresários brasileiros
Volta Redonda – Mesmo com a entrada em vigor da Resolução nº 941 do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), que prorrogou por mais um ano a tarifa de importação de 25% para sete produtos de aço, a indústria brasileira já identifica uma nova ameaça à competitividade do setor. Segundo a Associação dos Processadores de Aço (Aproaço), fabricantes chineses passaram a utilizar países intermediários para contornar as medidas de defesa comercial e continuar abastecendo o mercado brasileiro.
A prática, conhecida como circunvenção, tem preocupado empresas instaladas no Sul Fluminense, região que abriga uma das principais cadeias produtivas do aço do país. O movimento afeta diretamente a CSN, em Volta Redonda, a ArcelorMittal, em Resende, e dezenas de indústrias processadoras responsáveis pela fabricação de telas, arames, estruturas metálicas e outros produtos destinados à construção civil e à indústria.
Segundo o presidente da Aproaço, Haroldo Filho, a estratégia consiste em enviar o aço chinês para países que não sofrem as restrições comerciais impostas ao produto originário da China.
“A China está sendo taxada. Então ela leva sua produção para países como Indonésia, Índia, Tailândia, Paraguai, Peru e Chile e, desses locais, o produto entra no Brasil sem sofrer as mesmas restrições. Isso é o que chamamos de circunvenção”, explicou.
Estratégia ameaça indústria nacional
De acordo com Haroldo Filho, o objetivo é neutralizar os efeitos das medidas antidumping adotadas pelo governo brasileiro e manter a competitividade do aço chinês no mercado nacional.
A preocupação do setor é que, mesmo com a manutenção da tarifa de 25% para determinados produtos, a utilização desses países como intermediários reduza a eficácia da política de proteção da indústria brasileira.
“A manutenção da tarifa foi uma vitória importante para o setor, mas a luta continua. Se não combatermos a circunvenção, o problema continuará existindo por outro caminho”, afirmou.
Produtos prontos também preocupam
Segundo a Aproaço, a estratégia não se limita ao aço semielaborado. Haroldo Filho afirma que produtos industrializados também começam a chegar ao Brasil utilizando essa mesma lógica comercial.
“Hoje já estamos vendo entrar produtos como latas vazias vindas desses países. Amanhã poderão chegar as latas já prontas e cheias. Isso reduz a atividade das empresas brasileiras que processam o aço e enfraquece toda a cadeia produtiva.”
Ele explica que esse movimento afeta diretamente as empresas instaladas no Sul Fluminense.
Quando uma indústria deixa de comprar aço produzido pela CSN ou pela ArcelorMittal para importar produtos já industrializados, toda a cadeia perde mercado.
“Se a empresa deixa de comprar de quem fabrica aqui para importar o produto pronto, o processador reduz sua produção e também diminui as compras de aço das siderúrgicas brasileiras. É um efeito em cadeia.”
Pedido ao Governo Federal
Diante desse cenário, a Aproaço e a Abimetal-Sicetel iniciaram um trabalho conjunto para solicitar ao Governo Federal o acompanhamento das operações comerciais envolvendo países que passaram a registrar aumento nas exportações de produtos siderúrgicos ao Brasil.
Segundo Haroldo Filho, a intenção não é impedir o comércio internacional, mas garantir condições equilibradas de concorrência para a indústria nacional.
“Estamos pedindo que o governo observe esses países e identifique quando houver tentativa de burlar as medidas de defesa comercial. O objetivo é evitar que produtos chineses continuem entrando no Brasil por rotas alternativas.”
Sul Fluminense pode perder investimentos
A entidade alerta que, caso o problema não seja enfrentado, o impacto poderá atingir diretamente a economia regional. Segundo Haroldo Filho, algumas empresas processadoras já estudam transferir parte de suas operações para o Paraguai, acompanhando o movimento de grupos internacionais que passaram a produzir fora da China para manter acesso ao mercado brasileiro.
“Se nada for feito, poderemos perder investimentos, arrecadação e empregos. Algumas empresas do próprio Sul Fluminense já avaliam instalar unidades no Paraguai para enfrentar esse novo cenário.”
Defesa comercial continua
Na avaliação da Aproaço, a Resolução nº 941 representa uma conquista importante ao manter a tarifa de importação de 25% para sete produtos processados de aço até julho de 2027. A medida atende a um pleito da entidade e da Abimetal-Sicetel e beneficia diretamente empresas que integram a cadeia produtiva do aço no Sul Fluminense.
Para Haroldo Filho, no entanto, a política de defesa comercial precisará evoluir para acompanhar as novas estratégias adotadas pelo mercado internacional.
“A tarifa protege a indústria brasileira, mas será necessário ampliar a fiscalização e combater a circunvenção. Caso contrário, continuaremos enfrentando concorrência desleal, colocando em risco uma cadeia que movimenta bilhões de reais, gera milhares de empregos e tem papel estratégico para a economia do Sul Fluminense e do Brasil.”
Foto: Reprodução/Redes Sociais
Produtos prontos vindos da China e de outros países também geram apreensão aos empresários brasileiros
Carol Berg
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