Aos 84 anos, Benedita da Silva diz que sua luta começou muito antes da política
Foto: Samuel Cenari
Deputada Benedita da Silva é a convidada de Renata Pançardes no novo episódio do Papo Delas
Diário Delas – Antes de ocupar uma cadeira na Câmara dos Deputados, governar o Estado do Rio de Janeiro ou se tornar uma das principais vozes da política brasileira, Benedita da Silva já carregava postes, madeira e caixas d’água em mutirões organizados dentro da comunidade onde vivia. Foi ali, muito antes dos mandatos, que ela descobriu a força da mobilização coletiva.
Aos 84 anos, a deputada federal esteve nesta quinta-feira (6) no DIÁRIO DELAS, em Volta Redonda, para participar do podcast Papo Delas, apresentado por Renata Pançardes. Durante a conversa, ela relembrou passagens da infância, falou sobre o racismo que enfrentou desde menina e explicou como essas experiências moldaram sua atuação política.
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Para Renata, ouvir Benedita é ouvir uma parte da história recente do Brasil. “A história da deputada Benedita da Silva é, ao mesmo tempo, uma história de resistência e de construção de direitos. Ela abriu caminhos para mulheres, para a população negra, para as trabalhadoras domésticas e para tantas pessoas que, durante muito tempo, permaneceram invisíveis para o poder público. Recebê-la no Papo Delas é uma honra”, afirmou.
Durante o bate-papo, Benedita contou que sua primeira experiência de liderança não aconteceu dentro de um partido, mas na associação de moradores da comunidade em que vivia. “Na comunidade, sempre trabalhei coletivamente. Percebi que eu poderia ter um papel político, mas não partidário, e que poderia ocupar lugares. O interessante é que o primeiro lugar que ocupei foi fora de partido; foi ser presidente da Associação de Moradores. Foi uma conquista, porque as mulheres não podiam ser candidatas”, recordou.
Ela relembrou, ainda, que participou diretamente dos mutirões organizados pelos moradores para levar infraestrutura à comunidade. Carregava madeira, ajudava na instalação de postes e trabalhava para que as famílias tivessem acesso à água. Aos poucos, passou a ser reconhecida pela atuação comunitária. “Fui convidada e cheguei a ser candidata, mas achando que não teria nenhuma possibilidade, confesso”, disse.
Ao revisitar a infância, Benedita também falou sobre as marcas deixadas pelo racismo. “Cheguei a um tempo, quando criança, que eu não queria ser eu. Porque era tanto sofrimento, as pessoas riam, as pessoas debochavam… Aí fui me levantando…”, afirmou, acrescentando que foi justamente a compreensão dessas experiências que transformou sua indignação em militância. “Me envolvi com a política e falei: ‘vou lutar contra a discriminação racial, vou lutar contra essa violência e discriminação à mulher’”.
Ao longo da entrevista, a parlamentar também defendeu a igualdade salarial entre homens e mulheres e chamou atenção para o trabalho invisível realizado diariamente dentro das casas. “A mulher não pode ganhar menos porque é mulher. Pelo contrário, deveria ganhar mais, porque elas não contabilizam o tempo dos afazeres de casa”, pontuou.
Para Renata Pançardes, a permanência de Benedita na vida pública ajuda a compreender que muitas conquistas das mulheres nasceram da insistência de quem enfrentou resistência quando esses temas ainda eram ignorados.
“A Benedita nos lembra que direitos não surgem por acaso. Eles existem porque muitas mulheres enfrentaram preconceitos, ocuparam espaços onde não eram esperadas e insistiram em permanecer. A trajetória dela inspira justamente por mostrar que transformação social é resultado de trabalho, coragem e compromisso com quem mais precisa”, comentou.
Renata também agradeceu à parlamentar pela contribuição construída ao longo de décadas de vida pública. “Quero agradecer por tudo o que a senhora fez e continua fazendo. Muitas mulheres tiveram a vida transformada pelo seu trabalho, mesmo sem conhecer a sua história. O Papo Delas também existe para preservar trajetórias como a sua e fazer com que elas cheguem às novas gerações”, concluiu.
O episódio com Benedita da Silva está disponível no canal do DIÁRIO DELAS no YouTube.
Mayra Gomes
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