Aço, carro e pneu: importação ameaça indústria do Sul Fluminense

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Foto – Divulgação
Odair Mariano alerta que o avanço das importações de aço, veículos e pneus ameaça empregos, investimentos e a cadeia industrial da região

Sul Fluminense – Não é uma ameaça. São três. E todas chegam ao mesmo tempo, pelo mesmo caminho: a importação de produtos chineses a preços que a indústria instalada no Brasil não consegue competir. Aço, carros e pneus — exatamente os três pilares da economia do Sul Fluminense — estão sob pressão simultânea de um fluxo crescente de importações que já eliminou empregos, fechou fábricas e cancelou bilhões em investimentos. Para uma região que abriga CSN, ArcelorMittal, Stellantis, Volkswagen, Nissan e Michelin, o cenário não é abstrato. É o cotidiano de quem trabalha no chão de fábrica.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, Odair Mariano, resume a gravidade do momento. “Nossa região depende fortemente da indústria siderúrgica e automotiva. Quando um veículo deixa de ser produzido aqui para ser importado pronto ou semimontado, quando o aço que deveria sair de Volta Redonda ou de Resende é substituído por produto chinês com preço artificial, estamos falando de empregos que deixam de ser gerados, renda que deixa de circular no comércio local e oportunidades que desaparecem para milhares de famílias do Sul Fluminense”, afirma. “Não somos contra a modernização nem contra novas tecnologias. O que questionamos é a concorrência desigual.”

O aço que virou alvo

A siderurgia brasileira chegou a 2026 com as cicatrizes abertas de dois anos de pressão intensa. Em 2025, o Brasil importou 5,7 milhões de toneladas de aço laminado — o maior volume desde 2010 e um aumento de 20,5% em relação a 2024. O impacto foi direto: parte das siderúrgicas cancelaram R$ 2,5 bilhões em investimentos no país e demitiram 5.100 trabalhadores. Para a CSN, que tem em Volta Redonda o maior complexo siderúrgico integrado da América Latina e é um dos maiores empregadores da região, a pressão é constante. Mas, mesmo sobre pressão, a empresa segue acreditando no país e investindo na modernização e melhoria dos seus processos.

O governo federal reagiu em janeiro de 2026, aprovando direitos antidumping definitivos sobre aços pré-pintados da China e da Índia e uma tarifa provisória de 25% sobre nove categorias de produtos siderúrgicos — medida considerada especialmente relevante para a CSN, onde o aço pré-pintado representa cerca de 10% do volume total de embarques. Com isso, o Instituto Aço Brasil revisou a projeção de importações para 2026 de 6,7 milhões para 6,3 milhões de toneladas.

Mas o setor não comemora. Para o presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço, Carlos Loureiro, a alíquota de 25% é insuficiente para segurar a China. “Se não vier nada mais em relação a dumping, nós vamos ter de novo mais um ano perdido. 25% não segura nada da China. Da China tem que vir muito mais que 25%”, declarou. Enquanto a batalha tarifária segue em Brasília, o CEO da Aperam South America, Rodrigo Villela, revelou que a empresa tem investimentos importantes previstos para o Brasil — mas que os planos estão “absolutamente suspensos” por causa do cenário de importações.

O pneu que tomou o mercado

Se no aço a invasão foi gradual, no setor de pneus ela foi uma virada histórica. Em 2019, os fabricantes instalados no Brasil detinham 69% do mercado de reposição. Hoje, respondem por apenas 31% — o menor índice já registrado pela Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos. A inversão completa aconteceu em menos de seis anos.

Hoje, seis em cada dez pneus trocados no Brasil vêm do exterior. A China é a origem de 78% dos pneus de passeio importados, mesmo com a vigência de tarifas antidumping. Em 2025, o Brasil importou 692,4 mil toneladas de pneus, movimentando US$ 2 bilhões. E 2026 começou em forte aceleração: nos dois primeiros meses do ano, o volume importado cresceu 38,8% na comparação com o mesmo período de 2025.

O impacto já chegou ao Sul Fluminense de forma concreta. A Michelin, que mantém fábricas em Resende e Campo Grande, fechou sua unidade de Guarulhos em 2025 — e apontou a entrada massiva de importados asiáticos abaixo do custo de produção local como a principal razão. A empresa afirmou que a decisão foi resultado de “supercapacidade de produção gerada a partir da entrada expressiva de produtos importados da Ásia, que chegam muitas vezes abaixo do custo de produção local.”

A indústria pede aumento da tarifa de importação para 35%. O governo manteve em 25% tanto em 2025 quanto em 2026. A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos alerta que, enquanto os importados continuarem dominando o mercado de reposição e as fábricas operarem com ociosidade, o risco de novas decisões como a da Michelin de Guarulhos é real.

O carro elétrico que ameaça 191 mil empregos

A mais recente — e talvez a mais grave — das três ameaças chegou em 23 de junho de 2026. O governo federal reabriu a isenção de impostos para a importação de kits de carros elétricos e híbridos desmontados, criando uma cota de US$ 463 milhões com alíquota zero, válida por seis meses a partir de 1º de julho. A medida foi aprovada sem consulta à indústria.

Os números do setor mostram a dimensão da transformação em curso. Em 2023, os carros chineses representavam 3% das vendas de zero-quilômetro no Brasil. Hoje, um em cada cinco carros vendidos é chinês. Dos 15 modelos eletrificados mais vendidos no país, 12 são de marcas chinesas. Os emplacamentos de elétricos importados cresceram 214% entre 2023 e 2025.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores estima que apostar na montagem de kits importados em larga escala pode custar R$ 96,8 bilhões em vendas ao setor de autopeças, reduzir R$ 24,3 bilhões na arrecadação federal e eliminar 68 mil empregos diretos — 191 mil vagas em toda a cadeia produtiva. A entidade anunciou que vai acionar a Justiça contra a medida.

Stellantis, Volkswagen, General Motors e Toyota assinaram carta conjunta ao presidente Lula pedindo que a prorrogação não fosse concedida. O documento alertou que a decisão representa “um legado de desemprego, desequilíbrio da balança comercial e dependência tecnológica.” Para o Sul Fluminense, onde a Stellantis acaba de abrir 100 novas vagas em Porto Real para produção do Jeep Avenger, o alerta é direto: a cada kit montado no Brasil com peças importadas, uma vaga que poderia ser gerada na cadeia regional deixa de existir.

Uma região, três frentes de batalha

O Sul Fluminense é hoje o único polo industrial do Brasil onde os três setores mais pressionados pela importação predatória convivem no mesmo território. CSN e ArcelorMittal no aço. Michelin nos pneus. Stellantis, Volkswagen, Nissan no setor automotivo. Mais de 30 mil empregos diretos, uma cadeia de fornecedores e de empresas beneficiadoras que emprega outros tantos milhares e um comércio local que depende do poder de compra de quem trabalha nessas fábricas.

Para Odair Mariano, do Sindicato dos Metalúrgicos, a coincidência das três ameaças não pode ser tratada como assunto apenas de empresas ou de Brasília. “O Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense defende que qualquer avanço — seja na eletrificação da frota, seja na modernização da siderurgia — aconteça com garantia de produção nacional, geração de empregos e fortalecimento da cadeia industrial brasileira. O que não podemos aceitar é que a modernização do país seja feita às custas dos trabalhadores desta região.”

 

 

Mayra Gomes

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