Tubarões: Baía da Ilha Grande vira refúgio de tubarões tigre e galha-preta
Fotos: Instituto PROSHARK
Região passou a concentrar descobertas inéditas, registros históricos e um dos mais importantes programas de monitoramento de tubarões do país, conduzido pelo Instituto PROSHARK
Angra Dos Reis – Poucos lugares no litoral brasileiro vêm mudando tanto o conhecimento científico sobre tubarões quanto a Baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis. O que até poucos anos atrás era considerado um ambiente pouco estudado para grandes predadores marinhos tornou-se um dos principais laboratórios naturais do Atlântico Sul. A região passou a concentrar descobertas inéditas, registros históricos e um dos mais importantes programas de monitoramento de tubarões do país, conduzido pelo Instituto PROSHARK. E o DIÁRIO DO VALE publica nesta terça-feira (18), a primeira de duas reportagens especiais sobre os mais temidos predadores do mar com pesquisadores do Instituto ProShark.
As pesquisas realizadas na baía vêm demonstrando que Angra dos Reis abriga uma biodiversidade muito mais rica do que se imaginava. Além da presença constante de tubarões-galha-preta e tubarões-tigre, os estudos revelam que a região desempenha papel fundamental para alimentação, reprodução, deslocamento e permanência dessas espécies, produzindo informações estratégicas para a conservação dos animais e para o planejamento do uso sustentável do mar.

Segundo Vanessa Bettcher Brito, pesquisadora do Projeto Important Shark and Ray Areas (ISRA) e integrante do Grupo de Especialistas em Tubarões da Comissão de Sobrevivência de Espécies da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a proteção desses animais tornou-se uma prioridade mundial.
Uma avaliação global da Lista Vermelha da IUCN mostra que mais de um terço das espécies de tubarões, raias e quimeras encontra-se ameaçado de extinção. A principal causa é a pressão exercida pela pesca, aliada à degradação dos habitats e à insuficiência de medidas de conservação.
No Brasil, onde existe uma enorme diversidade dessas espécies tanto em ambientes marinhos quanto continentais, a necessidade de ampliar o conhecimento científico tornou-se essencial.
Foi justamente para responder a essa demanda que surgiu o projeto Important Shark and Ray Areas (ISRAs), iniciativa internacional que identifica áreas consideradas fundamentais para a sobrevivência de tubarões e raias.
Ao contrário do que muitas vezes se imagina, a definição dessas áreas não sofre influência política. Todo o processo ocorre exclusivamente com base em critérios científicos e nas melhores evidências disponíveis, permitindo identificar habitats críticos para alimentação, reprodução, crescimento e permanência dessas espécies.
As ISRAs servem como ferramenta para orientar políticas públicas, criação de áreas protegidas, planejamento espacial marinho, avaliações ambientais e estratégias de pesca sustentável.
No Brasil já foram reconhecidas 42 Áreas Importantes para Tubarões e Raias e outras 23 áreas classificadas como Áreas de Interesse, onde ainda são necessárias pesquisas adicionais para confirmar sua relevância ecológica. É justamente nesse contexto que a Baía da Ilha Grande vem ganhando destaque nacional.

Um laboratório natural no Sul do Estado do Rio
À frente das pesquisas de campo está o Instituto PROSHARK, primeira instituição brasileira dedicada exclusivamente ao estudo de tubarões e raias. Sem fins lucrativos, o instituto atua nas áreas de pesquisa aplicada, conservação, inovação tecnológica, ciência cidadã, educação ambiental e apoio à formulação de políticas públicas voltadas à proteção dos ecossistemas marinhos. Muito mais do que produzir conhecimento acadêmico, o trabalho desenvolvido transforma informações científicas em instrumentos para orientar a gestão costeira, fortalecer a economia azul e incentivar o turismo sustentável. Em poucos anos, a instituição alcançou resultados que modificaram profundamente o entendimento sobre os grandes tubarões do Atlântico Sul. Entre as descobertas mais importantes está o registro da primeira agregação de centenas de tubarões-galha-preta documentada no Brasil. Imagens captadas por drones revelaram aproximadamente 200 indivíduos reunidos em uma única área da Baía da Ilha Grande. Outro feito histórico foi o registro da primeira agregação de centenas de tubarões-tigre em águas brasileiras. A pesquisa também documentou aquele que é considerado o maior tubarão-tigre já registrado por drones no país. Batizada de “Big Mama”, a enorme fêmea mede mais de 4,5 metros de comprimento e apresenta indícios de gestação.

Tecnologia revela segredos dos tubarões
As pesquisas utilizam um conjunto de tecnologias consideradas de ponta para o monitoramento da fauna marinha. Entre elas estão telemetria satelital, telemetria acústica, drones, monitoramento ambiental, ciência cidadã e pesquisa aplicada. Os transmissores instalados nos animais permitem acompanhar seus deslocamentos praticamente em tempo real, revelando áreas utilizadas para alimentação, reprodução, permanência e migração.
Cada marca instalada representa milhares de quilômetros de informações sobre comportamento, conectividade entre ecossistemas e resposta dos animais às mudanças ambientais. Esse banco de dados vem consolidando o maior programa de monitoramento de tubarões do Sudeste brasileiro e um dos mais relevantes da América do Sul.

A história das marcações
A trajetória começou em julho de 2025 com Beth, primeira fêmea de tubarão-galha-preta monitorada via satélite pelo programa. Pouco tempo depois, em agosto, foi a vez de Aurora ampliar esse monitoramento. Em janeiro de 2026, os pesquisadores alcançaram outro marco importante com Gaspar e Baltazar, os primeiros tubarões-tigre do Sudeste monitorados simultaneamente por telemetria satelital e acústica. Os dados revelaram que cada indivíduo utiliza áreas completamente diferentes da baía e apresenta estratégias próprias de deslocamento. Em maio foi marcada Belchior, ampliando ainda mais o conhecimento sobre essa espécie. Mas foi em julho deste ano que a pesquisa atingiu um novo patamar. Durante uma única expedição, o Instituto PROSHARK realizou duas marcações consideradas históricas para a ciência brasileira. A primeira delas foi Caiçara, uma fêmea de tubarão-tigre de 2,40 metros de comprimento.
Ela tornou-se a primeira fêmea da espécie monitorada por telemetria satelital no Sudeste brasileiro. Seu nome homenageia as comunidades caiçaras, que há gerações convivem com o oceano e colaboraram diretamente com os pesquisadores na identificação das áreas frequentadas pelos animais. No mesmo dia foi marcada Badjeca, uma fêmea de tubarão-galha-preta com aproximadamente 2,30 metros de comprimento e possivelmente grávida. A marcação fortalece o programa de monitoramento dessa espécie e também presta homenagem à cultura tradicional da Ilha Grande.

Conhecimento que atravessa séculos
As descobertas vão além da tecnologia. Pesquisas arqueológicas desenvolvidas pelo instituto demonstraram que tubarões fazem parte da história da Baía da Ilha Grande há milhares de anos. Registros encontrados em sambaquis revelam que esses animais sempre estiveram presentes na região. Ou seja, não se trata de espécies que passaram a frequentar recentemente o litoral sul-fluminense. Na realidade, são habitantes naturais desse ecossistema muito antes da ocupação humana. Outro estudo também identificou, pela primeira vez, múltiplos registros de fêmeas grávidas de diferentes espécies utilizando a Baía da Ilha Grande e a Baía de Sepetiba. As evidências reforçam a importância dessas áreas para o ciclo reprodutivo dos tubarões.

Ciência e comunidades tradicionais
Uma das características mais marcantes do trabalho desenvolvido pelo Instituto PROSHARK é a integração entre ciência e conhecimento tradicional. Pescadores artesanais e moradores caiçaras tiveram papel decisivo na localização das áreas utilizadas pelos tubarões. Essas informações, transmitidas por gerações, foram fundamentais para direcionar as pesquisas de campo. O resultado demonstra que ciência e saber popular podem caminhar juntos na proteção da biodiversidade.

Muito além da pesquisa
Todo esse conhecimento vem sendo convertido em ações práticas. O Instituto atua na elaboração de protocolos de convivência entre pessoas e tubarões, subsidiando políticas públicas, planejamento de áreas protegidas, ordenamento do uso do mar, educação ambiental e fortalecimento do turismo sustentável baseado na observação responsável da vida marinha. Ao mesmo tempo, busca modificar a forma como a sociedade enxerga esses animais. Em vez do medo alimentado por mitos e desinformação, a instituição aposta na divulgação científica baseada em evidências para mostrar que os tubarões desempenham papel essencial no equilíbrio dos oceanos. Mais do que acompanhar grandes predadores marinhos, a pesquisa realizada em Angra dos Reis ajuda a construir um novo modelo de conservação, em que biodiversidade, desenvolvimento sustentável, cultura caiçara e economia do mar caminham lado a lado. A Baía da Ilha Grande deixa, assim, de ser apenas um importante destino turístico do litoral fluminense para se consolidar como um dos principais centros brasileiros de produção de conhecimento sobre tubarões, revelando que proteger esses gigantes do mar significa também preservar o futuro dos oceanos.
Tubarões monitorados pelo Instituto PROSHARK na Baía da Ilha Grande
- Beth – Tubarão-galha-preta (fêmea) – marcada em 16 de julho de 2025. Primeira fêmea da espécie monitorada via satélite pelo programa.
- Aurora – Tubarão-galha-preta (fêmea) – marcada em 15 de agosto de 2025.
- Gaspar – Tubarão-tigre – marcado em 16 de janeiro de 2026. Primeiro tubarão-tigre do Sudeste monitorado simultaneamente por telemetria satelital e acústica.
- Baltazar – Tubarão-tigre – marcado em 16 de janeiro de 2026.
- Belchior – Tubarão-tigre – marcado em 9 de maio de 2026.
- Caiçara – Tubarão-tigre (fêmea) – 2,40 metros de comprimento, marcada em 17 de julho de 2026. Primeira fêmea de tubarão-tigre monitorada por telemetria satelital no Sudeste brasileiro.
- Badjeca – Tubarão-galha-preta (fêmea) – 2,30 metros de comprimento, possivelmente grávida, marcada em 17 de julho de 2026.

Carol Berg
Tubarões: Baía da Ilha Grande vira refúgio de tubarões tigre e galha-preta





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