Tecnologia e novas formas de renda transformam o mercado de trabalho

Foto: divulgação
Renata Alarcão traça o perfil do novo mercado de trabalho em momento da forte presença de IA, tecnologia e valorização do trabalhador

Sul Fluminense – A carteira assinada continua importante, o emprego formal segue abrindo oportunidades e empresas continuam procurando profissionais. Mas o trabalhador que chega ao mercado em 2026 já não é necessariamente o mesmo de dez ou 20 anos atrás. Aplicativos, redes sociais, comércio eletrônico, trabalho autônomo e, mais recentemente, a inteligência artificial ampliaram as possibilidades de geração de renda. Ao mesmo tempo, salário e estabilidade deixaram de ser os únicos fatores considerados na escolha de um emprego. Flexibilidade, ambiente de trabalho, reconhecimento e qualidade de vida passaram a pesar nessa decisão. Essa transformação ajuda a explicar um cenário aparentemente contraditório: empresas que precisam contratar convivem com profissionais que encontram outras maneiras de trabalhar e ganhar dinheiro. Para a especialista em mercado de trabalho e Recursos Humanos Renata Alarcão, o fenômeno exige adaptação dos dois lados. Em entrevista exclusiva ao Diário do Vale, ela avalia que o trabalhador precisa se preparar para novas competências, enquanto o empresário terá de compreender que contratar e manter profissionais envolve mais do que oferecer uma vaga. “O mercado de trabalho vai precisar se adaptar porque hoje as pessoas estão investindo muito no microempreendedorismo”, afirma Renata. Segundo ela, um motorista de aplicativo, por exemplo, pode optar pela atividade porque consegue administrar o próprio horário e conciliar trabalho e vida familiar. A mudança não significa o desaparecimento do emprego  7 formal. Pelo contrário. O Brasil encerrou julho com 48,08 milhões de vínculos formais, segundo o Novo Caged. De janeiro a julho foram criados 972 mil postos com carteira assinada. O dado mostra que o emprego tradicional continua relevante, mas agora divide espaço com outras formas de ocupação e renda. 

UM TRABALHADOR  COM OUTRAS PRIORIDADES 

Na avaliação de Renata, compreender as gerações que estão chegando às empresas é um dos principais desafios dos departamentos de Recursos Humanos. O profissional mais jovem tende a avaliar não apenas quanto vai receber, mas o que aquela atividade representa para sua vida. “Eles não são apegados a cargo, nem a títulos. São capazes de fazer o dinheiro deles, de se virar de outras formas, de ir para a internet, fazer marketing digital”, explica. Isso não significa que jovens tenham deixado de procurar carteira assinada. Os próprios números mostram o contrário. Em junho, trabalhadores com até 24 anos responderam por 86,4% do saldo das vagas formais criadas no país. O que mudou é que essa geração entra no mercado conhecendo alternativas que não existiam, ou tinham alcance muito menor, para seus pais. Hoje é possível trabalhar em uma empresa e paralelamente administrar uma loja virtual; prestar serviços pela internet; produzir conteúdo; vender alimentos; trabalhar com estética; dirigir por aplicativo; atuar como social media; operar tráfego pago ou desenvolver pequenos serviços utilizando ferramentas de inteligência artificial. Renata observa que muitas pessoas passaram inclusive a combinar diferentes fontes de renda. “Muitos deles estão unindo todas essas esferas e, ao mesmo tempo, não precisam ter aquele vínculo. Uma hora ele trabalha como Uber, outra hora faz um programa e vende.” Os números ajudam a dimensionar a mudança. No primeiro trimestre deste ano, 25,5% dos ocupados brasileiros trabalhavam por conta própria, segundo o IBGE. A informalidade atingia 37,3%. Os conceitos, porém, não são iguais: um trabalhador por conta própria que possui CNPJ, por exemplo, não é classificado da mesma maneira que um trabalhador informal sem registro. 

ONDE ESTÃO AS OPORTUNIDADES 

Para quem está procurando emprego, entender essa transformação é tão importante quanto distribuir currículos. O mercado está sinalizando onde existe demanda. No emprego formal, Serviços é atualmente o principal gerador de oportunidades no país. De janeiro a julho, o setor abriu 591,5 mil postos. Construção veio em seguida, com 180,4 mil; Indústria, com 154 mil; e Agropecuária, com 54,1 mil. O Comércio acumulou retração de aproximadamente 7,9 mil vínculos no período. Para uma região com forte presença industrial como o Sul Fluminense, isso significa que a formação técnica continua tendo importância, mas precisa caminhar junto com novas competências. Indústria, construção, logística, manutenção, serviços, saúde, educação, vendas e atividades administrativas convivem cada vez mais com funções que exigem algum grau de domínio tecnológico. E não é necessário tornar-se programador. Letramento digital passa a significar saber utilizar ferramentas, pesquisar, trabalhar com sistemas, organizar informações, comunicar-se no ambiente digital e entender como a inteligência artificial pode auxiliar determinada profissão.

IA NÃO DEVE SER VISTA APENAS COMO SUBSTITUIÇÃO 

A inteligência artificial acrescentou velocidade a essa transformação. Em escritórios, lojas, indústrias e pequenos negócios, ferramentas de IA começam a ser usadas para organizar dados, produzir análises, automatizar tarefas, atender clientes, apoiar vendas e reduzir atividades repetitivas. Dados levantados pelo Diário do Vale no site do Sebrae apontam que a IA já deixou de ser uma tecnologia restrita às grandes corporações e passou a ser utilizada também por pequenos negócios para personalização do atendimento, otimização de processos e apoio às decisões. O desafio seguinte é redesenhar processos e capacitar as equipes para utilizar essas ferramentas. Por isso, a pergunta para o profissional deixa de ser apenas “a inteligência artificial vai tomar meu emprego?” e passa a ser “como posso utilizar essa tecnologia para fazer melhor o meu trabalho?”

COMO SE PREPARAR PARA O NOVO EMPREGO 

O primeiro passo é identificar quais competências estão sendo exigidas na área pretendida. Ler anúncios de vagas antes mesmo de procurar emprego ajuda a descobrir quais cursos, sistemas, certificações e conhecimentos aparecem repetidamente nas seleções. Depois vem a qualificação. Ensino técnico, cursos profissionalizantes e capacitações de curta duração podem ser mais eficientes do que acumular formações sem relação com a vaga desejada. O dado do Caged é revelador: em junho, o maior saldo de contratação ocorreu justamente entre trabalhadores com ensino médio completo, com 109,2 mil postos. Também mudou a forma de procurar emprego. Currículo continua necessário, mas precisa ser objetivo e adaptado à vaga. Plataformas profissionais, bancos de emprego, páginas das próprias empresas, serviços públicos de intermediação de mão de obra e networking ampliam as portas de entrada. Dependendo da profissão, um portfólio digital demonstrando aquilo que o candidato sabe fazer pode valer tanto quanto uma longa descrição de experiências. Outra competência ganha importância: aprender continuamente. O conhecimento técnico permanece essencial, mas ferramentas e processos mudam rapidamente. Quem consegue aprender um novo sistema, utilizar IA de maneira responsável, interpretar informações e resolver problemas aumenta sua capacidade de migrar entre funções.

EMPRESAS TAMBÉM PRECISAM MUDAR 

A transformação, porém, não pode ser cobrada apenas do trabalhador. Para Renata, parte das empresas demorou a perceber que passou a disputar profissionais não somente com outras empresas, mas também com o trabalho autônomo e as novas possibilidades oferecidas pelo ambiente digital. É nesse ponto que remuneração, benefícios, jornada, liderança e ambiente organizacional ganham peso. “Muitas vezes é o reconhecimento, é um elogio, é uma postura mais cordial nos relacionamentos, é a compreensão de que aquela pessoa tem vida”, afirma. Segundo a especialista, especialmente entre os mais jovens, medidas que proporcionem qualidade de vida ao funcionário e à família podem ter impacto direto na permanência dentro da empresa. Renata cita comércio varejista, bares e restaurantes entre os setores que sentem essa transformação com maior intensidade. Parte dos profissionais dessas atividades consegue hoje comercializar diretamente produtos e serviços. Quem trabalhava vendendo roupas pode abrir uma operação pela internet. Um profissional de cozinha pode produzir em casa. Outros migram para estética, alimentação artesanal, comércio eletrônico ou serviços digitais. Para a especialista, empresas que enfrentam elevada rotatividade precisam analisar não apenas por que não encontram candidatos, mas também por que os profissionais que encontram não permanecem. “Para que você tenha funcionários mais satisfeitos, é preciso uma remuneração mais justa e benefícios para que aqueles colaboradores tenham vontade de ficar naquela empresa”, afirma.

CAPACITAR PARA RETER 

A resposta também passa pela capacitação interna. Renata defende que empresas reorganizem funções, desenvolvam competências digitais entre os empregados e utilizem tecnologia para melhorar processos. Em vez de procurar indefinidamente um profissional que chegue pronto, uma alternativa é identificar pessoas com capacidade de aprendizado e investir na formação necessária para a função. A inteligência artificial pode fazer parte desse processo, desde que utilizada como ferramenta de produtividade e acompanhada de treinamento. Para Renata, investir em letramento digital, instalações adequadas, relações profissionais mais saudáveis e valorização dos colaboradores pode resultar em maior produtividade e menor rotatividade. “Investir em ações de valorização do colaborador se reflete numa melhor qualidade de vida dentro do trabalho e, consequentemente, num índice menor de rotatividade”, destaca.

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Carol Berg

Tecnologia e novas formas de renda transformam o mercado de trabalho


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