M&A ganha rigor e exige foco em capital, integração e geração de caixa

O mercado brasileiro de fusões e aquisições (M&A) atravessa um período de recalibragem. Depois de anos marcados por ampla liquidez e valuations mais elevados, a alta das taxas de juros e a volatilidade macroeconômica passaram a exigir uma postura mais criteriosa de empresas e investidores. Nesse novo ambiente, operações motivadas exclusivamente pela expansão de participação de mercado dão espaço a negociações nas quais as premissas de valor precisam ser sustentadas por fundamentos financeiros e operacionais.

Com a taxa básica de juros em patamares elevados, a renda fixa estabelece uma referência de retorno mais exigente para projetos de expansão inorgânica. Na prática, uma aquisição precisa apresentar perspectivas de retorno capazes de superar o custo de oportunidade do capital. O movimento influencia não apenas o volume das transações, mas também o perfil dos compradores e os critérios utilizados para aprovar novos negócios.

 

Marcelo Baldassare (Foto: Arquivo Pessoal)

Para Marcelo Baldassare, executivo de finanças e CFO com mais de três décadas de experiência, o cenário atual exige maior disciplina na análise de investimentos.

“O atual cenário macroeconômico acabou com o espaço para apostas baseadas apenas na expectativa de crescimento futuro. Hoje, o custo do capital impõe que a taxa mínima de atratividade seja tratada com absoluta disciplina. Uma aquisição precisa demonstrar com clareza como vai superar a rentabilidade do caixa livre antes mesmo de ir para o comitê. Isso força uma revisão profunda dos valuations e exige análises de riscos operacionais e tributários muito mais detalhadas durante o processo de due diligence.”

Ao longo da carreira, Baldassare participou da estruturação e condução de mais de dez operações complexas de fusão, aquisição e cisão. A experiência, segundo ele, reforça a importância de decisões estratégicas que vão além da busca por crescimento e passam também pela revisão do portfólio de negócios.

Nesse contexto, o desinvestimento de unidades consideradas não essenciais pode se tornar uma ferramenta de gestão de capital. Em uma de suas experiências profissionais, durante um período de retração setorial e incerteza econômica, Baldassare liderou a reestruturação da operação brasileira de uma multinacional cuja permanência no país chegou a ser questionada pela matriz.

A estratégia adotada não se concentrou apenas na redução de despesas. Parte do processo envolveu a alienação de unidades que, apesar de contribuírem para o faturamento, consumiam recursos sem apresentar retorno compatível ou sinergia suficiente com o negócio principal.

“A decisão de desinvestir uma operação que ainda apresenta faturamento costuma encontrar grande resistência interna, pois é comum confundir receita com valor real. Contudo, manter ativos que exigem atenção contínua da gestão e capital constante sem entregar sinergia com o core business é uma fonte silenciosa de ineficiência. Ao alienar unidades periféricas, conseguimos liberar caixa e concentrar toda a energia nas linhas mais rentáveis. Desinvestir estrategicamente não significa retrocesso, mas sim fortalecer a estrutura para garantir o crescimento de longo prazo.”

Private equity e o horizonte de longo prazo

Enquanto parte das empresas adota uma postura mais defensiva diante do custo elevado do capital, os fundos de private equity mantêm uma perspectiva diferente sobre os ciclos econômicos. A capacidade de investir com horizonte de longo prazo permite que esses investidores avaliem oportunidades em momentos de maior pressão sobre valuations, buscando capturar valor em eventuais ciclos de recuperação.

A diferença está, em parte, no horizonte de investimento. Enquanto companhias abertas e estruturas corporativas tradicionais convivem com uma pressão maior por resultados periódicos, investidores institucionais podem analisar ativos considerando perspectivas de médio e longo prazo.

Ainda assim, a assinatura de um contrato representa apenas o início de uma operação de M&A. A geração efetiva de valor depende da capacidade de executar o plano de integração e materializar as sinergias projetadas durante a negociação.

É justamente nessa etapa que, segundo Baldassare, muitos negócios enfrentam seus maiores desafios. Com experiência na implementação global de sistemas de gestão ERP em ambientes complexos, o executivo destaca que a integração de processos, sistemas e equipes pode determinar o sucesso ou o fracasso de uma aquisição.

“As premissas de sinergia apresentadas durante a negociação costumam ser generosas no papel, mas enfrentam grandes desafios na implementação real. O valor projetado se perde quando a empresa tenta impor modelos globais sem observar as particularidades regulatórias e fiscais locais, ou quando ignora o impacto cultural sobre as equipes. Sem uma governança clara e uma liderança dedicada a alinhar sistemas, processos e pessoas nos primeiros meses, a integração atrasa, os custos aumentam e os ganhos esperados escorrem pelo ralo.”

Crescimento precisa se transformar em caixa

A discussão sobre sustentabilidade empresarial também passa, na avaliação do executivo, por uma revisão das métricas tradicionalmente utilizadas para medir o desempenho das companhias. O crescimento do faturamento e o ganho de participação de mercado continuam relevantes, mas podem esconder problemas quando não são acompanhados de rentabilidade e geração consistente de caixa.

Em ambientes de maior incerteza, a capacidade de transformar resultado contábil em fluxo de caixa livre ganha peso nas decisões estratégicas. Para Baldassare, esse indicador permite avaliar com maior precisão a qualidade do crescimento e a capacidade de uma companhia financiar seus próprios investimentos.

“Existe uma fixação histórica no crescimento contínuo de faturamento e no ganho de market share, mas essas métricas podem ser enganosas se o crescimento for obtido à custa da erosão das margens ou do comprometimento do capital de giro. O indicador crucial, especialmente em momentos de incerteza, é a capacidade demonstrada da operação em converter o resultado contábil em caixa livre e sustentável. No final das contas, é a liquidez gerada pela operação que garante a independência financeira e a capacidade de investimento da companhia.”

Nesse cenário, o mercado de M&A passa a operar sob uma lógica mais seletiva, na qual preço, estrutura de capital, riscos, integração e capacidade de geração de caixa precisam estar conectados. Mais do que ampliar o tamanho de uma empresa, uma aquisição precisa demonstrar como pode contribuir efetivamente para a criação de valor.

Sobre Marcelo Baldassare

Marcelo Baldassare é executivo com mais de 30 anos de atuação como CFO em multinacionais de grande porte. Possui experiência em reestruturação financeira, governança corporativa, condução estratégica de operações de M&A, incluindo fusões, aquisições e cisões, e liderança na implementação global de sistemas de gestão ERP.

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emiliano macedo

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