Quando o ERP aprende a pensar: IA redesenha a automação empresarial

Durante décadas, o ERP cumpriu um papel bem definido dentro das empresas: registrar, organizar e consolidar informações. Estoque, folha de pagamento e contas a pagar e a receber: tudo passava por ali, mas de forma essencialmente reativa. O sistema mostrava o que já havia acontecido. A demora entre o dado gerado e a decisão tomada era considerada normal, e esse intervalo era pouco questionado porque as alternativas tecnológicas eram limitadas.
Esse cenário mudou. Pesquisas recentes indicam a velocidade dessa transformação. O ERP Report 2025, elaborado pela Panorama Consulting Group, mostra que a proporção de organizações que utilizam inteligência artificial de forma significativa ou moderada em seus projetos de ERP saltou de 53,4% para 72,6% em apenas um ano. A McKinsey apresenta números semelhantes ao apontar que, em 2024, 72% das empresas já haviam incorporado IA em alguma área de suas operações. Os dados confirmam o que profissionais que atuam na linha de frente da transformação digital já observam na prática todos os dias.
Um desses profissionais é Alceu Pereira da Silva, gestor de TI especializado em sistemas ERP, com MBA em Gestão de Negócios: Tecnologia e Transformação Digital. Ao longo da carreira, Silva liderou projetos de integração entre inteligência artificial, automação e plataformas de gestão em setores tão distintos quanto varejo, siderurgia e corretagem de seguros e sintetiza a mudança de paradigma que observa no mercado:
“O ERP deixou de ser um repositório de dados para se tornar um agente ativo na tomada de decisão. Isso muda completamente a forma como pensamos no processo, porque o sistema passa a antecipar cenários, não apenas registrar o que já aconteceu.”
Essa mudança se manifesta de formas concretas dentro das empresas. Um exemplo é o setor varejista, historicamente pressionado por sazonalidade, giro de estoque e margens apertadas. Silva conduziu a implantação de um ERP em uma rede varejista de grande porte, unificando processos que antes eram tratados de forma fragmentada entre lojas, centros de distribuição e áreas administrativas. Com a IA incorporada às rotinas de reposição e previsão de demanda, o tempo de resposta às variações de consumo caiu drasticamente, e decisões que antes dependiam de análise manual passaram a ser sugeridas automaticamente pelo próprio sistema.
Na indústria pesada, o desafio costuma ser outro: sistemas legados, operações complexas e integração entre áreas que nem sempre falam a mesma linguagem tecnológica. Silva liderou um projeto de integração de sistemas para uma grande empresa do setor de aço no Brasil, conectando processos produtivos e administrativos que operavam de forma isolada havia anos.
“Cada ramo de atividade tem sua própria lógica operacional, e é aí que entra a experiência de quem já passou por diferentes setores. Não existe fórmula pronta, existe entendimento profundo do processo antes de qualquer automação.”
Já no setor financeiro, especificamente em uma das maiores corretoras de seguros do país, o trabalho de Silva se concentrou na automatização de processos que consumiam tempo excessivo das equipes, como conciliações, apurações e fluxos de aprovação.
A substituição de rotinas manuais por processos automatizados, apoiados por inteligência artificial, resultou em ganho expressivo de tempo e redução de erros operacionais, permitindo que as equipes direcionassem maior atenção às análises estratégicas.
O fio condutor entre esses três projetos, segundo Silva, não é a tecnologia em si, mas a forma como ela é aplicada.
“A inteligência artificial só gera valor quando entende o contexto do negócio. Um algoritmo aplicado sem entendimento do processo pode até funcionar tecnicamente, mas não resolve o problema real da empresa.”
É essa combinação entre conhecimento técnico e visão estratégica que, segundo especialistas do setor, separa projetos de automação bem-sucedidos de iniciativas que não saem do papel.
Estudos setoriais reforçam esse ponto. Uma revisão acadêmica publicada na plataforma ScienceDirect aponta que a integração entre ERP e tecnologias associadas à Indústria 4.0, como IoT, análise de dados e computação em nuvem, tende a melhorar a eficiência operacional, a automação e a visibilidade em tempo real das cadeias produtivas, mas apenas quando essa integração é conduzida com planejamento e conhecimento aprofundado dos processos internos de cada empresa.
Para Silva, essa é justamente a fronteira em que as empresas brasileiras se encontram agora: não mais discutir se vale a pena adotar inteligência artificial integrada a sistemas de gestão, mas como fazer essa adoção de forma que gere resultados concretos.
“O diferencial não está em ter a tecnologia mais avançada, está em saber onde aplicá-la para que ela realmente resolva o problema da empresa.”
À medida que o ERP se consolida como plataforma central de decisão dentro das organizações, profissionais capazes de transitar entre diferentes setores e de unir conhecimento técnico à leitura estratégica do negócio tornam-se cada vez mais decisivos. Não se trata mais apenas de gerenciar sistemas, mas de traduzir tecnologia em resultados, e é exatamente nesse ponto de encontro entre dados, processos e decisão que Silva constrói sua trajetória profissional.
Por: Priscilla Moura
Fontes: Panorama Consulting Group – ERP Report 2025; McKinsey (2024); revisão acadêmica publicada na plataforma ScienceDirect sobre integração entre ERP e Indústria 4.0.
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emiliano macedo
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