Governo pede investigação de 13 aplicativos de IA que simulam amizade e romance
Foto: Criação IA
Brasília – O Ministério da Justiça e Segurança Pública encaminhou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) uma nota técnica sobre 13 plataformas de “companheiros de IA”, que simulam conversas de amizade e relacionamentos. O levantamento aponta riscos relacionados ao uso por crianças e adolescentes, incluindo apego excessivo, uso compulsivo, exposição a conteúdos inadequados e coleta de dados íntimos.
Segundo o documento, a identificação desses riscos é preliminar e não significa que tenham sido comprovadas irregularidades em cada uma das plataformas analisadas.
Os aplicativos oferecem conversas personalizadas, podem lembrar informações compartilhadas pelos usuários e ficam disponíveis a qualquer hora. Para adolescentes, porém, especialistas alertam que o uso intenso pode reduzir oportunidades de convivência e aprendizado nas relações com outras pessoas.
É no contato com amigos e familiares que o jovem aprende a lidar com opiniões diferentes, discordâncias, limites, frustrações e expectativas. Já uma interação com um personagem criado para manter a conversa e se adaptar ao usuário apresenta uma dinâmica diferente da encontrada nos relacionamentos humanos.
A psicóloga Solange Ramounoulou explica que a procura por esse tipo de aplicativo pode estar relacionada à solidão ou à dificuldade de estabelecer relações satisfatórias.
“A conversa com uma IA pode, sim, produzir um alívio momentâneo da sensação de solidão. Isso, porém, é diferente de resolver as causas da solidão”, afirma.
Segundo a psicóloga, a sensação de acolhimento proporcionada pela ferramenta não deve ser confundida com a construção de um vínculo entre duas pessoas. Em uma amizade, existem desejos, opiniões, limites e reações dos dois lados. Na interação com a IA, essa reciprocidade humana não existe, mesmo quando o usuário tem a sensação de estar acompanhado.
Solange chama essa percepção de “uma espécie de ilusão relacional”.
Na adolescência, a questão ganha importância porque as relações sociais também fazem parte do desenvolvimento emocional. “Quando a interação é excessivamente adaptada ao usuário, existe o risco de que ele tenha menos oportunidades de experimentar justamente a reciprocidade, a diferença e a frustração que fazem parte dos vínculos humanos”, afirma.
A Associação Americana de Psicologia também aponta que vínculos intensos com personagens de IA podem interferir no desenvolvimento de habilidades sociais. As pesquisas sobre os efeitos de longo prazo, no entanto, ainda são iniciais.
A psicóloga ressalta que isso não significa que toda conversa com um personagem virtual seja prejudicial. Em alguns casos, a ferramenta pode funcionar como uma espécie de ensaio para pequenas interações sociais. A principal questão, segundo ela, é observar se o aplicativo ajuda o adolescente a se aproximar de outras pessoas ou passa a substituir esses encontros.
Entre os sinais que merecem atenção estão perda de sono, queda no rendimento escolar, irritabilidade, abandono de atividades, isolamento e dificuldade para interromper o uso. Também é motivo de preocupação quando o adolescente passa a preferir quase exclusivamente a companhia virtual ao convívio com amigos e familiares.
Quando já existe um vínculo intenso com um personagem, a orientação é conversar com o adolescente antes de fazer julgamentos ou simplesmente proibir o uso.
“Ainda que o personagem seja artificial, a experiência emocional que aquele jovem está vivendo pode ser significativa para ele”, afirma Solange.
A recomendação é que a família procure compreender o que o adolescente busca naquela interação e estabeleça limites adequados. Em situações de sofrimento, isolamento ou prejuízos importantes na escola, no sono ou na convivência, a psicóloga orienta buscar avaliação profissional.
Acompanhar a vida digital dos adolescentes e preservar espaços de convivência com outras pessoas são medidas apontadas como formas de manter a tecnologia como uma ferramenta de interação, sem permitir que ela se torne a principal experiência de companhia.
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luciano junior
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