Crime organizado amplia atuação e fatura bilhões além do tráfico de drogas

delegado marcelo russo

Foto: Divulgação
Constatação é reforçada por dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e analisada pelo delegado Marcelo Russo, titular da Delegacia de Porto Real

Porto Real – O crime organizado brasileiro passou por uma transformação silenciosa, mas profunda, nos últimos anos. Se antes o tráfico de drogas era considerado o principal pilar financeiro das facções, hoje ele representa apenas uma parte de um sistema muito mais amplo e diversificado. A avaliação é do delegado Marcelo Russo, titular da Delegacia de Porto Real, com base em dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com o levantamento, entre 2022 e 2023, as organizações criminosas movimentaram cerca de R$ 146 bilhões por ano no país. Desse total, aproximadamente R$ 15 bilhões — cerca de 10% — tiveram origem direta no tráfico de drogas. A maior parte da receita, cerca de 90%, vem de outras atividades ilícitas.

Para o delegado, os números revelam uma mudança estrutural no perfil dessas organizações.

“O tráfico de drogas, que sempre foi visto como o centro das atividades, hoje é apenas uma das fontes de renda. Estamos diante de grupos muito mais organizados, com atuação diversificada e estratégia econômica bem definida”, explicou.

Entre as principais fontes de faturamento apontadas pelo estudo estão o comércio de combustíveis adulterados, a venda de bebidas falsificadas, o contrabando de cigarros e a exploração ilegal do ouro. Também fazem parte desse portfólio crimes como roubos de cargas e veículos, além da comercialização de produtos ilícitos em diferentes mercados paralelos.

Outra prática recorrente é a criação de mecanismos próprios de arrecadação em áreas dominadas, como cobrança de taxas, aluguel de armas e controle de atividades econômicas locais. Em muitos casos, essas ações funcionam como verdadeiras “concessões criminosas”, sustentando financeiramente as facções.

No Estado do Rio de Janeiro, o cenário apresenta características ainda mais específicas. Segundo Russo, atividades como a oferta clandestina de internet, conhecida como “gatonet”, o controle da distribuição de gás e a exploração do transporte alternativo por vans se tornaram fontes relevantes de receita.

Essas práticas, historicamente associadas às milícias, passaram a ser adotadas também por facções como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro, indicando uma aproximação nos métodos de atuação.

“Hoje há uma espécie de convergência operacional entre esses grupos. As diferenças ficaram menos evidentes, e as estratégias se tornaram semelhantes”, analisou o delegado.

O avanço das organizações criminosas também atinge setores antes pouco associados a esse tipo de atuação. O mercado imobiliário irregular, por exemplo, já apresenta casos de loteamentos e venda de imóveis em áreas sob domínio de facções. Além disso, o roubo de cargas em rodovias estratégicas, como a Via Dutra e a BR-393, segue como um problema recorrente e altamente lucrativo.

Apesar do cenário nacional, Russo destaca que o funcionamento dessas organizações varia conforme o território. “Cada região tem sua própria dinâmica. Não é possível comparar cidades menores com grandes complexos urbanos. Mas em todas elas existe um ponto em comum: o tráfico de drogas, isoladamente, já não explica o poder econômico dessas organizações”, afirmou.

Em algumas localidades, inclusive, as atividades paralelas já superam o tráfico em termos de faturamento. Serviços clandestinos e mercados ilegais passaram a ocupar papel central na economia dessas áreas.

Diante desse cenário, o delegado reforça a necessidade de mudança na forma como o poder público enfrenta o problema.

“Quando tratamos essas estruturas apenas como quadrilhas de tráfico, subestimamos sua capacidade. Estamos lidando com organizações complexas, com divisão de funções, controle territorial e atuação em diversos setores. O combate precisa ser mais amplo e estratégico”, concluiu.

A análise indica que o enfrentamento ao crime organizado exige não apenas ações repressivas, mas também políticas integradas, baseadas em inteligência e no acompanhamento das novas formas de atuação dessas organizações, que continuam em constante adaptação.

Ana Carolina Garcia Berg de Marco

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