Calçar os próprios sapatos também é independência: a rotina na vida dos idosos

Por Emiliano Macedo

 

Calçar os sapatos, levantar de uma cadeira ou sair para fazer compras são gestos simples, realizados quase automaticamente ao longo da vida. Com o avanço da idade, entretanto, essas tarefas podem se tornar mais difíceis, comprometendo a liberdade de realizar atividades cotidianas sem auxílio. Nesse contexto, o exercício físico assume uma função que ultrapassa os benefícios estéticos, tornando-se um importante aliado na preservação da capacidade funcional e da independência.

Essa realidade faz parte da experiência profissional de André Pasi Guelfi, personal trainer formado em Educação Física em 2009, cuja atuação abrange desde atletas até pessoas com mais de 70 anos. Ao acompanhar diferentes perfis, ele passou a reconhecer nas pequenas conquistas cotidianas uma das expressões mais significativas dos resultados de seu trabalho. “Uma das minhas maiores recompensas é ouvir um cliente dizer: ‘agora eu consigo colocar meus sapatos sozinho’”, relata. Para o profissional, avanços dessa natureza demonstram como o condicionamento físico pode influenciar diretamente a maneira como uma pessoa vivencia o envelhecimento.

A relação de André com a atividade física começou aos 15 anos, por meio da musculação, e se desenvolveu em uma trajetória que reúne treinamento individualizado e fisiculturismo competitivo. Entre 2013 e 2017, enquanto atuava como personal trainer em Ribeirão Preto, participou de nove competições, conquistando o Campeonato Paulista de Estreantes da NABBA e o segundo lugar no Arnold Classic South America de 2017. A preparação para os campeonatos contribuiu para aprofundar seus conhecimentos em treinamento e fisiologia, posteriormente aplicados ao acompanhamento de alunos com necessidades e objetivos distintos.

Se no fisiculturismo os resultados são avaliados principalmente pelo desenvolvimento muscular e pela apresentação física, no atendimento à população idosa os avanços podem ser percebidos de outras maneiras. Recuperar a facilidade para se movimentar, executar tarefas domésticas ou realizar atividades pessoais sem depender constantemente de terceiros representa uma conquista importante. Essa percepção ampliou a perspectiva de André sobre o exercício, aproximando sua experiência técnica das necessidades práticas de quem deseja envelhecer com maior autonomia.

A relevância desse cuidado acompanha as transformações demográficas do Brasil. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, a população com 60 anos ou mais alcançou 34,1 milhões de pessoas em 2024, diante dos 22 milhões registrados em 2012. O crescimento desse grupo reforça a necessidade de discutir estratégias que favoreçam um envelhecimento ativo, especialmente diante das limitações físicas que podem surgir ao longo do tempo.

Pesquisas científicas também demonstram os benefícios de programas estruturados de atividade física para a manutenção da mobilidade. O estudo LIFE, realizado nos Estados Unidos, acompanhou 1.635 pessoas sedentárias entre 70 e 89 anos, consideradas em risco de desenvolver limitações, mas ainda capazes de caminhar 400 metros. Conforme informações do Instituto Nacional do Envelhecimento norte-americano, os participantes submetidos a um programa que reunia caminhada, exercícios de força, equilíbrio e flexibilidade apresentaram uma redução de 18% no risco de perder essa capacidade, em comparação com aqueles que participaram de atividades de educação em saúde, durante um acompanhamento médio de 2,6 anos. Embora os resultados não representem uma garantia individual, oferecem evidências sobre a importância da prática regular e orientada.

A abordagem também está presente nas diretrizes de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomendam às pessoas com 65 anos ou mais a realização de atividades físicas variadas, com ênfase no equilíbrio funcional e no fortalecimento muscular, em pelo menos três dias da semana, além dos exercícios aeróbicos. As orientações buscam favorecer a capacidade funcional e reduzir o risco de quedas, aspectos diretamente relacionados à segurança e à participação nas atividades cotidianas.

Na prática profissional de André, os conhecimentos em biomecânica e cinesiologia contribuem para compreender os movimentos corporais e adequar os exercícios às características de cada aluno. Essa atenção permite considerar não apenas o desempenho durante o treinamento, mas também as demandas que cada pessoa enfrenta fora dele. Para quem busca preservar a independência, melhorar a execução de um movimento cotidiano pode representar um resultado tão relevante quanto alcançar metas tradicionais de condicionamento físico.

A manutenção de uma rotina ativa, contudo, não depende exclusivamente da iniciativa individual. A própria OMS reconhece que condições sociais, econômicas e ambientais influenciam as oportunidades de praticar exercícios, destacando que qualquer quantidade de atividade física é preferível à inatividade. Nesse cenário, o acesso a espaços apropriados e à orientação profissional pode favorecer a adoção de hábitos compatíveis com as possibilidades e necessidades de cada pessoa.

Ao refletir sobre sua trajetória, André encontra nas conquistas dos alunos uma dimensão do trabalho que não pode ser medida apenas por indicadores de desempenho. “Esses momentos me lembram que força e mobilidade podem realmente transformar a vida de alguém”, afirma. Para uma pessoa idosa, voltar a calçar os próprios sapatos sem ajuda pode parecer uma mudança discreta, mas representa algo maior: a possibilidade de continuar realizando escolhas e conduzindo a própria rotina com liberdade.

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