Aço importado: Odair defende empregos em audiência na Câmara

Brasília/Volta Redonda – O avanço do aço importado sobre o mercado brasileiro acendeu um alerta para milhares de empregos ligados à siderurgia no Sul Fluminense. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, Odair Mariano, levou nesta terça-feira (1º), à Câmara dos Deputados, em Brasília, a preocupação dos trabalhadores com os efeitos do crescimento das importações sobre a produção nacional, os investimentos e a manutenção dos postos de trabalho.

Odair participou como convidado da audiência pública “Impacto da Importação de Aço na Siderurgia Nacional”, que reuniu representantes do Governo Federal, Ministério Público do Trabalho (MPT), sindicatos, indústria e entidades ligadas à cadeia do aço.

O debate ocorre em um momento de pressão sobre a siderurgia brasileira. Segundo o Instituto Aço Brasil, as importações de produtos laminados alcançaram 5,7 milhões de toneladas em 2025, crescimento de 20,5% e maior volume em 15 anos. A participação dos importados no mercado nacional chegou a 21%, contra uma média histórica de 9,7%. A China respondeu por 64% das importações brasileiras de aço.

Para 2026, o cenário projetado pelo setor continua desfavorável. O Instituto Aço Brasil estimou que as importações podem avançar outros 10%, alcançando 6,3 milhões de toneladas, enquanto a produção brasileira pode recuar 2,2%, para 32,4 milhões de toneladas. As vendas internas também foram projetadas em queda de 1,7%.

Importações já atingiram empregos e investimentos

O efeito sobre o mercado de trabalho foi um dos principais pontos levantados durante a discussão. O Instituto Aço Brasil estima que o cenário de aumento das importações e perda de espaço da produção doméstica já tenha contribuído para a eliminação de 5 mil postos de trabalho e para o corte de aproximadamente R$ 2,5 bilhões em investimentos no setor. Os números são apresentados pela entidade representativa das siderúrgicas brasileiras.

É justamente esse efeito que preocupa o Sindicato dos Metalúrgicos quando o debate é trazido para o Sul Fluminense.

A região possui uma das mais tradicionais concentrações siderúrgicas e metalmecânicas do país, tendo como principal referência a Usina Presidente Vargas (UPV), da CSN, em Volta Redonda, além da presença da ArcelorMittal em Resende e de uma extensa cadeia formada por processadores de aço, empresas metalúrgicas, fornecedores, transportadoras e prestadores de serviços.

Para Odair Mariano, portanto, discutir a entrada de aço estrangeiro não significa tratar apenas da disputa comercial entre siderúrgicas brasileiras e produtores internacionais.

“Se a indústria nacional perde competitividade, o primeiro impacto chega ao emprego. E quando um trabalhador perde o emprego, não é apenas ele que sofre. Toda a família sente, o comércio sente, os municípios sentem e toda a economia da região é afetada. Não podemos aceitar que decisões que favoreçam o aço importado acabem provocando desemprego, fechamento de postos de trabalho e enfraquecimento da nossa região”, afirmou Odair.

Efeito pode ultrapassar os portões das siderúrgicas

No Sul Fluminense, os possíveis efeitos de uma retração da siderurgia ultrapassam os empregos diretamente mantidos pelas grandes usinas. A atividade movimenta uma cadeia econômica que envolve empresas de transformação e processamento de aço, manutenção industrial, engenharia, logística, transporte, construção, alimentação e diferentes segmentos de serviços.

Volta Redonda ocupa posição central nessa estrutura pela presença da CSN e da Usina Presidente Vargas, enquanto Resende possui produção siderúrgica da ArcelorMittal. Ao redor das grandes unidades existe uma cadeia de empresas distribuída também por municípios como Barra Mansa, Porto Real e outras cidades do Médio Paraíba.

Por isso, uma eventual redução da produção nacional pode produzir um efeito em sequência: menor atividade das siderúrgicas significa menor demanda por fornecedores e prestadores de serviços, com possíveis consequências sobre emprego, renda, consumo e arrecadação dos municípios.

A preocupação com a competitividade da cadeia regional já vinha sendo levantada por representantes empresariais. Empresas processadoras de aço do Sul Fluminense chegaram a avaliar alternativas de produção no Paraguai diante da combinação de carga tributária, juros e concorrência dos produtos importados, segundo manifestação recente da Associação dos Processadores de Aço (Aproaço).

Brasil tenta reforçar defesa comercial

A pressão das importações também chegou ao Governo Federal. Em documentos técnicos de 2026, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) analisou pedidos do Instituto Aço Brasil para elevar tarifas de determinados produtos siderúrgicos.

Em um desses processos, a entidade pediu aumento de 10,8% para 35% do Imposto de Importação incidente sobre determinado tipo de fio de aço. Na justificativa apresentada ao governo, o Instituto Aço Brasil sustentou que as importações de laminados vêm crescendo desde 2023 e ocupando espaço anteriormente atendido pela produção nacional.

A disputa ocorre também em um ambiente internacional de aumento das barreiras comerciais. Países e blocos econômicos vêm adotando mecanismos de proteção para suas indústrias siderúrgicas, enquanto o setor brasileiro reivindica instrumentos mais abrangentes para evitar o redirecionamento de excedentes de aço para o mercado nacional.

Segundo o Instituto Aço Brasil, o mecanismo brasileiro de cota-tarifa alcançava 16 classificações de produtos de aço dentro de um universo de 273 classificações do setor. A entidade argumenta que as medidas ainda são insuficientes para conter o crescimento das importações.

Trabalhadores cobram proteção à indústria

Durante a audiência em Brasília, Odair defendeu medidas que permitam à siderurgia instalada no Brasil competir com os produtos estrangeiros sem colocar os empregos em risco.

“Precisamos de uma política que proteja a indústria brasileira, garanta investimentos e, acima de tudo, preserve o emprego e a dignidade dos trabalhadores. Defender a siderurgia nacional é defender o trabalhador, as famílias e o desenvolvimento do Sul Fluminense”, afirmou.

Além de Odair, participaram do debate representantes do Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Ministério da Fazenda e Ministério Público do Trabalho.

Também estiveram representados sindicatos de trabalhadores e entidades empresariais, entre eles o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico do Sul Fluminense e a Associação dos Processadores de Aço.

Para o Sindicato dos Metalúrgicos do Sul Fluminense, a discussão continuará sendo acompanhada em Brasília. A entidade pretende defender medidas de fortalecimento da produção nacional e manutenção dos investimentos, com atenção especial às regiões cuja economia possui forte ligação com a indústria siderúrgica.

 

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Vinicius

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