Violência silenciosa: abuso sexual infantil precisa de atenção

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Foto: Divulgação
Brasil já ocupa a quinta posição mundial em denúncias de abuso sexual infantil online

Estado do Rio – O agressor, na maioria das vezes, não é um estranho. É alguém de dentro de casa, da família, do círculo de confiança. Esse é um dos dados mais perturbadores levantados pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) no contexto do Maio Laranja — mês dedicado ao combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. Segundo o Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP-RJ), em aproximadamente 40% dos casos de violência sexual, os autores são familiares, conhecidos ou pessoas próximas da vítima.
Os números assustam. Entre 2018 e 2024, os registros de crimes sexuais online aumentaram mais de 1.200% no estado do Rio de Janeiro. O Brasil já ocupa a quinta posição mundial em denúncias de abuso sexual infantil online. E as denúncias cresceram 195% nos últimos quatro anos — o que, segundo a Alerj, não significa que o crime aumentou na mesma proporção, mas que mais casos estão sendo reportados. Entre janeiro e abril de 2025, 612 foragidos por crimes sexuais contra menores foram presos no estado.
“Existe o abuso infantil como a gente sempre conheceu e também tem um novo tipo de crime que já não é nem tão novo assim, que são os crimes cibernéticos”, alertou Cristiano Maia, delegado titular da Delegacia de Crimes contra a Criança e ao Adolescente Vítima (Decav).

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A violência que acontece dentro de casa
A conselheira tutelar Nailá Cristina é direta ao falar sobre o que vê no dia a dia. “Nós, enquanto conselheiros tutelares, temos a ciência de que a maioria das violências acontece intrafamiliar”, afirmou. É exatamente por isso que os sinais de alerta muitas vezes passam despercebidos — o agressor é quem está mais perto da criança, e a vítima, por medo ou vergonha, raramente fala.
Profissionais de saúde e proteção infantil apontam mudanças de comportamento que podem indicar que uma criança está sofrendo abuso. Isolamento repentino e afastamento de pessoas próximas, choro frequente sem causa aparente, pesadelos e dificuldade para dormir, queda no rendimento escolar, comportamento sexualizado inadequado para a idade, medo excessivo de determinadas pessoas ou lugares, e agressividade ou passividade fora do comum são sinais que merecem atenção imediata de pais, responsáveis e educadores. Esses comportamentos, quando aparecem juntos ou de forma persistente, pedem escuta e acolhimento — nunca interrogatório ou pressão sobre a criança.

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O ECA digital e a proteção na internet
A violência migrou para as telas. O celular se tornou uma nova porta de entrada para predadores sexuais, que usam redes sociais, aplicativos de jogos e plataformas de mensagens para se aproximar de crianças e adolescentes. O chamado ECA digital — conjunto de normas e interpretações do Estatuto da Criança e do Adolescente aplicadas ao ambiente virtual — busca ampliar a proteção nesse novo cenário, responsabilizando plataformas e criadores de conteúdo pelo que circula online.
A Alerj aprovou leis que reforçam essa proteção no estado do Rio. A Lei Estadual número 10.108 institui a Política Estadual de Apoio a Crianças e Adolescentes Vítimas de Violência e Abuso Parental. Já a Lei Estadual número 9.286 garante prioridade e agilidade nos procedimentos investigatórios que apurem crimes hediondos ou crimes contra a vida cometidos contra crianças e adolescentes.
O deputado estadual Munir Neto, um dos parlamentares engajados na pauta, resume a responsabilidade que a sociedade carrega. “Proteger nossas crianças e adolescentes contra qualquer forma de abuso e exploração sexual é um dever do Estado, da sociedade e de cada cidadão. Precisamos romper o silêncio, fortalecer a rede de proteção e garantir que toda criança tenha o direito de crescer com segurança, dignidade e respeito”, declarou.

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Foto: Congresso em foco

O que fazer diante de uma suspeita
A primeira orientação é não questionar a criança de forma direta ou insistente — isso pode causar mais trauma. O passo correto é acionar imediatamente o Conselho Tutelar do município, a delegacia mais próxima ou o Ministério Público. Não é necessário ter certeza absoluta para denunciar. A suspeita já é suficiente.
O Disque 100 é o canal nacional de denúncias contra violência e abuso infantil, funciona 24 horas por dia, pode ser anônimo, e encaminha os casos para o Conselho Tutelar, delegacias, Ministério Público e Assistência Social. Uma ligação pode mudar — ou salvar — uma vida.

Ana Carolina Garcia Berg de Marco

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