Rio cede água do Paraíba do Sul para salvar abastecimento de SP
Sistema Cantareira
Foto: Divulgação
Sul Fluminense – O Rio de Janeiro autorizou que São Paulo retire mais água da Bacia do Rio Paraíba do Sul para socorrer o Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. O acordo foi assinado em Brasília na sede da Agência Nacional de Águas entre representantes dos três estados envolvidos — Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais — e tem validade até 31 de dezembro de 2026.
O Sistema Cantareira opera atualmente na Faixa 2 — Atenção, com volume útil de 38,9%, próximo do limite de 40% que, se ultrapassado para baixo, o levaria à Faixa 3 — Alerta. Nessa condição, a autorização de captação da Sabesp cai de 31 para 27 metros cúbicos por segundo. O sistema abastece cerca de 9 milhões de pessoas da Grande São Paulo.
Onde acontece a transposição e como funciona
O ponto exato da operação é a Usina Hidrelétrica Jaguari, localizada no município de Vargem, no interior de São Paulo, às margens do Rio Jaguari — afluente do Rio Paraíba do Sul. Desde 2018, existe uma interligação física entre o reservatório da UHE Jaguari e o reservatório Atibainha, que integra o Sistema Cantareira. Essa estrutura permite captar água da bacia do Paraíba do Sul e bombeá-la para o sistema que abastece São Paulo, com vazão máxima de 8,5 metros cúbicos por segundo.
Na prática, a água que naturalmente seguiria pelo Rio Jaguari em direção ao Paraíba do Sul é desviada por meio de bombeamento e transferida para a bacia do Sistema Cantareira — uma operação de transposição de bacias que inverte o fluxo natural da água.
Com a nova autorização, o volume anual máximo de transposição passa de 162 hm³ para até 268,28 hm³ em 2026 — um acréscimo de 106,28 hm³, com vazão máxima de captação de 8,5 m³/s. A medida tem validade até 31 de dezembro deste ano e será automaticamente suspensa caso o Cantareira supere 60% do volume útil.
O que muda para o Paraíba do Sul
A retirada adicional de água tem consequências diretas para os reservatórios e para o nível do rio ao longo de todo o seu percurso. As usinas hidrelétricas de Jaguari, Santa Branca, Paraibuna e Funil — todas na bacia do Paraíba do Sul — terão redução nos níveis dos reservatórios em função da captação suplementar.
A Sabesp assumiu a responsabilidade de adotar todas as medidas necessárias para mitigar esses impactos. O acordo prevê ainda que a defluência mínima instantânea a jusante da Barragem de Santa Cecília — ponto estratégico de onde a água é bombeada para o Rio Guandu, que abastece a Região Metropolitana do Rio de Janeiro — seja mantida em pelo menos 71 m³/s, com 119 m³/s de bombeamento garantido para o Guandu.
O que representa o Paraíba do Sul para as duas regiões
O Rio Paraíba do Sul é a espinha dorsal hídrica de toda a região entre o Vale Paulista e o Vale Fluminense. Nasce na Serra da Bocaina, percorre cerca de 1.150 quilômetros e deságua no litoral norte fluminense, em São João da Barra. Ao longo desse trajeto, abastece direta ou indiretamente mais de 14 milhões de pessoas, além de ser fonte de água para irrigação, indústria e geração de energia.
No trecho fluminense — que inclui os municípios do Sul Fluminense como Resende, Barra Mansa, Volta Redonda, Barra do Piraí e Três Rios — o rio é a principal fonte de abastecimento de água tratada. A Companhia Estadual de Águas e Esgotos, a Cedae, e municípios como Volta Redonda, que opera sistema próprio, dependem diretamente das vazões do Paraíba do Sul para garantir o fornecimento às suas populações.
No Vale Paulista, cidades como São José dos Campos, Jacareí, Taubaté e Guaratinguetá também têm no Paraíba do Sul sua fonte hídrica principal. Qualquer redução significativa na vazão do rio tem efeito imediato sobre o abastecimento dessas populações — o que explica a cautela dos técnicos ao estabelecer os limites mínimos de defluência no acordo.
O monitoramento contínuo ficará a cargo do Grupo de Assessoramento à Operação do Sistema Hidráulico Paraíba do Sul, o GAOPS, que acompanhará diariamente os níveis e poderá acionar medidas adicionais caso o sistema se aproxime de situação crítica.
Mayra Gomes
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