Problemas financeiros afetam a saúde mental de 89% dos brasileiros

Foto: Geração IA

Brasília – As dificuldades financeiras já afetaram a saúde mental de 89% dos brasileiros, segundo pesquisa da Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box. O levantamento foi realizado entre 19 e 26 de agosto de 2026, com 1.140 pessoas de todas as regiões do país, e tem margem de erro de 2,9 pontos percentuais. Os dados foram divulgados pelo UOL.

A falta de dinheiro e a dificuldade para pagar as contas estão entre as principais preocupações de 80% dos entrevistados. Os efeitos também aparecem na saúde e no cotidiano. Segundo a pesquisa, 71% relataram piora na qualidade do sono, contra 54% em 2025. Alterações de humor foram citadas por 53%, problemas de autoestima por 50% e instabilidade emocional por 47%.

Para o psicólogo Rafael Ambrosio de Lima, especialista em saúde mental, a exposição prolongada à insegurança econômica pode manter a pessoa em um estado permanente de alerta.

“Quando a pessoa vivencia dificuldades econômicas de forma prolongada, é comum que permaneça em um estado de alerta, direcionando grande parte de sua atenção para incerteza em relação ao futuro”, explica.

De acordo com Lima, esse cenário pode favorecer ou intensificar ansiedade, estresse, irritabilidade, culpa, insegurança e sensação de impotência. A preocupação constante também pode prejudicar a concentração, o desempenho profissional e as relações pessoais.

Sono prejudicado

O sono aparece como um dos principais pontos de atenção da pesquisa. Para o psicólogo, a insegurança financeira pode fazer com que o cérebro interprete a situação como uma ameaça, mantendo pensamentos sobre contas, dívidas, desemprego e sustento mesmo durante os períodos de descanso.

“A pessoa pode ficar pensando repetidamente em possíveis soluções, antecipando problemas ou revivendo situações financeiras, o que aumenta a tensão, o estresse e a ansiedade”, afirma.

Esse estado pode dificultar o sono e provocar insônia, sono fragmentado, cansaço durante o dia, irritabilidade e queda de concentração.

O problema pode se transformar em um ciclo. A preocupação interfere no sono, o descanso insuficiente reduz a capacidade de resolver problemas e tomar decisões, e essa dificuldade aumenta a sensação de incapacidade diante das finanças.

“A ansiedade causada pelas dificuldades financeiras atrapalha a qualidade do sono, enquanto a falta de sono aumenta a ansiedade e as preocupações”, diz Lima.

Quando procurar ajuda

A preocupação com dívidas ou queda de renda é uma reação esperada diante de dificuldades econômicas. O sinal de alerta aparece quando o sofrimento se torna persistente e começa a interferir na rotina, nos relacionamentos e na capacidade de tomar decisões.

Entre os sinais citados pelo psicólogo estão preocupação excessiva e difícil de controlar, irritabilidade frequente, ansiedade constante, insônia, dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas.

Isolamento social, conflitos familiares, queda no desempenho profissional, dificuldade para tomar decisões e sentimentos recorrentes de fracasso ou culpa também podem indicar a necessidade de acompanhamento psicológico.

O acesso ao tratamento, no entanto, é um desafio para quem enfrenta justamente problemas financeiros. Segundo a pesquisa, 83% dos entrevistados gostariam de investir mais na própria saúde mental, mas 62% já deixaram de procurar ajuda psicológica por não conseguirem pagar. Em 2025, esse índice era de 49%.

Entre as pessoas que gastam com esse tipo de atendimento, 36% comprometem aproximadamente 10% da renda mensal.

Onde buscar atendimento gratuito

Para quem não consegue pagar por uma consulta particular, existem alternativas gratuitas ou de baixo custo.

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Clínicas-escola de universidades também podem oferecer atendimento gratuito ou a preço reduzido, geralmente realizado por estudantes de psicologia sob supervisão profissional.

Também existem plataformas que oferecem atendimento psicológico a preço social.

Organização financeira pode ajudar

A pesquisa mostra ainda que 76% dos brasileiros acreditam que a educação financeira pode contribuir para a saúde mental. Para 53%, aprender a organizar melhor as finanças ajudaria nessa relação, enquanto 63% consideram que o apoio psicológico pode contribuir para decisões financeiras.

Segundo Lima, organizar despesas, prioridades, dívidas e possibilidades de negociação pode aumentar a previsibilidade e diminuir a sensação de descontrole.

Ele ressalta, porém, que o planejamento não deve se transformar em mais uma fonte de culpa. Ansiedade, impulsividade, vergonha, desesperança e baixa autoestima podem influenciar a forma como uma pessoa lida com o dinheiro, levando tanto a decisões impulsivas quanto à tentativa de evitar o problema.

“O acompanhamento psicológico pode contribuir para compreender esses padrões, desenvolver estratégias de enfrentamento mais saudáveis e diminuir comportamentos impulsivos ou de evitação”, afirma.

O psicólogo também destaca que nem toda dificuldade financeira está relacionada à falta de planejamento. Desemprego, baixos salários, inflação, endividamento, desigualdade social e condições precárias de trabalho fazem parte da realidade econômica de muitas pessoas.

Por isso, segundo ele, a educação financeira deve ser vista como uma ferramenta de proteção e autonomia, mas não como uma solução isolada para problemas que ultrapassam a capacidade individual.

“É importante ajudar a pessoa a identificar aquilo que pode modificar e, ao mesmo tempo, reconhecer os fatores externos que estão fora de seu controle. Essa combinação evita a culpabilização e permite que o planejamento financeiro seja utilizado como um recurso para lidar melhor com a realidade”, conclui Lima.

Fonte: pesquisa Serasa e Instituto Opinion Box, divulgada pelo UOL em setembro de 2026.

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luciano junior

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