O poder passa. O estrago nas instituições pode ficar.
Na disputa pelo Planalto, o compromisso com a democracia deve ser cobrado com o mesmo rigor que as promessas para o bolso do eleitor.
O vencedor da eleição receberá o direito de governar, não de tratar o país como propriedade sua. Em uma campanha dominada pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro, essa diferença precisa ocupar o centro do debate.
Discussões sobre renda, segurança e programas sociais são indispensáveis. Mas a execução de qualquer projeto deve estar submetida à fiscalização, à lei e ao direito de contestação. Sem essas garantias, promessas deixam de ser compromissos que a sociedade pode cobrar.
No comentário que motivou este debate, a jornalista Milly Lacombe recomenda atenção ao que Flávio diz e ao que sua trajetória representa. Suas acusações exigem checagem, mas a questão levantada merece exame: declarações de candidatos ajudam a revelar como pretendem exercer o poder. Não devem ser descartadas como exageros de campanha quando envolvem direitos e limites institucionais.
Defender reformas, criticar decisões judiciais e propor mudanças no Estado faz parte da democracia. Intimidar adversários, justificar violência política ou desacreditar eleições sem provas compromete as condições que permitem essa disputa. O critério precisa valer também quando a ameaça vem de quem recebe o nosso voto.
A defesa das instituições tampouco significa blindá-las contra críticas. Tribunais, Congresso e governo devem prestar contas. Corrigir seus erros exige transparência e controles — não a concentração de poder nas mãos de um líder.
Lula deve responder pelos resultados de seu governo e pela viabilidade de suas promessas. Flávio, por suas posições e pelas consequências do projeto que apresenta. Nenhum deles merece que o eleitor suspenda o senso crítico em nome da fidelidade partidária.
O teste decisivo será preservar, depois das urnas, a liberdade de investigar o presidente, contestar suas decisões e organizar sua derrota na eleição seguinte. Quem pede o voto precisa aceitar também os limites do cargo.
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André Aquino
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