Navio com 7.216 BYDs chega ao Brasil no dia em que governo renova isenção

navio byd

Foto: Porto de Itajaí
Chegada do navio Changsha representa a segunda grande operação da BYD em Itajaí em menos de um mês

Brasília/Itajaí – A cena do dia 23 de junho de 2026 resume o tamanho do embate que divide a indústria automotiva brasileira. Enquanto o navio BYD Changsha atracava no Porto de Itajaí, em Santa Catarina, com 7.216 carros elétricos e híbridos chineses a bordo — a maior operação automotiva do terminal em 2026 —, o governo federal anunciava a prorrogação por mais seis meses da cota de importação com alíquota zero para veículos desmontados e semimontados. O volume autorizado é de US$ 463 milhões, equivalente a cerca de R$ 2,4 bilhões, com vigência a partir de 1º de julho.
A chegada do navio Changsha representa a segunda grande operação da BYD em Itajaí em menos de um mês. Em 28 de maio, o terminal recebeu 4.585 veículos a bordo do navio Grande Shanghai. Com a nova escala, o porto acumula 15.496 veículos desembarcados apenas no primeiro semestre de 2026 — quase o dobro do volume de todo o ano de 2025.

CUT e metalúrgicos contra a medida

O que torna o debate ainda mais revelador é quem está do lado da indústria nacional. Não apenas as montadoras instaladas no Brasil — Volkswagen, Stellantis, GM e Toyota assinaram carta conjunta ao presidente Lula pedindo que o benefício não fosse concedido —, mas também os trabalhadores. Em fevereiro, antes da renovação, 19 centrais e sindicatos enviaram cartas ao presidente da República e aos ministérios pedindo o fim das cotas de importação de kits desmontados.
Assinaram a carta a Central Única dos Trabalhadores, a Força Sindical, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, a Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil e outros 14 sindicatos regionais, entre eles o histórico Sindicato dos Metalúrgicos do ABC.
“A adesão inequívoca de todos os sindicatos e centrais que representam o chão de fábrica é uma sinalização do quanto a simples montagem de veículos importados pode afetar os empregos em toda a cadeia automotiva brasileira, com enormes impactos econômicos e sociais para o país”, afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet.
R$ 140 bilhões em risco
A Anfavea argumenta que, ao prolongar benefícios que haviam sido criados como temporários, o governo coloca em xeque a confiança de empresas que ajustaram seus planos de investimento contando com as regras pactuadas. As fabricantes anunciaram R$ 140 bilhões em investimentos no Brasil até 2033, destinados à eletrificação, pesquisa, engenharia e modernização industrial.
“O que está em debate não é a transição energética, que já está em curso e não vai parar. O que está em debate é qual modelo de desenvolvimento o país pretende incentivar para a nova mobilidade e qual espaço será reservado à produção nacional nesse processo”, afirmou a associação em nota. A Anfavea prometeu acionar a Justiça contra a prorrogação.

O argumento da qualidade do emprego

A Anfavea levantou um dado estrutural que distingue o emprego na montagem de kits do emprego na produção nacional plena. O setor automotivo remunera, em média, o dobro do restante da indústria de transformação, tem mais que o dobro de tempo de permanência no emprego e demanda grau de escolaridade significativamente maior do que outros setores industriais.
“Todas essas características se perderiam num modelo de fabricação que envolvesse apenas a montagem de kits em larga escala”, alertou Calvet.

O que diz o governo

O Ministério do Desenvolvimento justificou a renovação afirmando que “a medida converge com outras iniciativas voltadas à renovação da frota e ao fortalecimento da inovação e da descarbonização no ecossistema automotivo brasileiro”. A alíquota cheia de 35% para elétricos e híbridos importados só será aplicada integralmente a partir de janeiro de 2027.

O impacto no Sul Fluminense

Para a região Sul Fluminense, o debate é concreto. A Stellantis, uma das signatárias da carta contra a prorrogação, opera a fábrica de Porto Real, onde acabou de abrir 100 novas vagas para a produção do Jeep Avenger. A Volkswagen mantém em Resende uma das maiores fábricas de caminhões e ônibus do mundo. A Nissan também opera na região. Qualquer redução nos incentivos à produção nacional e ampliação das importações afeta diretamente a cadeia de fornecedores e empregos do polo automotivo do Sul Fluminense, que reúne mais de 20 mil trabalhadores diretos e indiretos.

Ana Carolina Garcia Berg de Marco

Navio com 7.216 BYDs chega ao Brasil no dia em que governo renova isenção


Translate »