Jogo do Tigrinho: 57% perderam dinheiro; 18% perderam a família
Foto: Reprodução IA
Mais de 22 milhões de brasileiros apostam online todos os meses; 3 milhões apresentam sinais de comportamento compulsivo segundo Ministério da saúde
Sul Fluminense – Mais de 22 milhões de brasileiros apostam online todos os meses. Entre eles, estimativas do Ministério da Saúde apontam que pelo menos 3 milhões já apresentam sinais de comportamento compulsivo. Desses, uma parcela significativa vai além da perda financeira: enfrenta ansiedade, depressão, ruptura familiar e, em casos extremos, chega a abandonar a própria casa. É exatamente o que aconteceu em Resende.
Há cerca de seis meses, a rotina de uma família de Resende começou a mudar. Segundo o marido, a esposa passou a usar uma plataforma de apostas online conhecida como “Tigrinho”. O que começou como entretenimento transformou-se rapidamente numa sucessão de perdas financeiras, empréstimos e conflitos domésticos. Ela passou a pedir dinheiro emprestado para continuar apostando, chegou a usar recursos da própria mãe para tentar quitar dívidas — e dias depois deixou a casa onde morava com o marido e o filho. O sumiço mobilizou amigos e familiares, que divulgaram sua fotografia em grupos de WhatsApp. Ela havia saído por vontade própria. O marido acredita que a vergonha do endividamento e o envolvimento compulsivo com o jogo pesaram na decisão.
O caso está longe de ser isolado.
A máquina do vício
O Fortune Tiger — o “Tigrinho” — funciona como um caça-níquel digital. A cada rodada, o jogador aposta um valor esperando obter uma combinação premiada. As vitórias ocasionais criam a sensação de que recuperar o dinheiro perdido é apenas questão de insistência. É exatamente esse mecanismo — chamado de reforço intermitente — que os especialistas identificam como o principal gatilho da compulsão.
Para a psicóloga Solange Ramounoulou, membro dos Conselhos Regional e Federal de Psicologia, a dependência vai muito além da busca por dinheiro. “Essa dependência não é apenas do jogo de apostas. Ela está ligada ao desafio de acertar e receber uma recompensa. O ato de apostar dá à pessoa a sensação de que ela pode controlar o resultado e conquistar um prêmio. Quando isso envolve dinheiro, a compulsão se torna muito mais intensa”, explica.
Segundo a especialista, pessoas mais vulneráveis ao vício costumam conviver com ansiedade e frustração. “São pessoas que vivem esperando que alguma coisa finalmente dê certo. A aposta surge como uma promessa de que o futuro poderá resolver os problemas do presente. A esperança do ganho mantém o comportamento, mesmo quando as perdas já são evidentes.”
Diferentemente das apostas esportivas, em que o resultado depende de eventos reais, o Tigrinho é controlado por algoritmos e geradores aleatórios de resultados. Não há estratégia possível. Há apenas a ilusão de que a próxima rodada será diferente.
Prometendo ganhos rápidos e promovido diariamente por influenciadores nas redes sociais, o jogo se tornou um dos mais populares do Brasil — e um dos mais destrutivos. Pesquisa do Instituto Ipsos revelou que 57% dos brasileiros que apostam online relataram impacto negativo na vida financeira. Desses, 34% afirmaram ter desenvolvido sintomas de ansiedade ou depressão relacionados às apostas, e 18% relataram conflitos sérios no ambiente familiar.
Dívidas, isolamento e rompimento familiar
Os efeitos do vício raramente se limitam ao saldo negativo no banco. Especialistas relatam aumento expressivo de casos envolvendo ansiedade, depressão, isolamento social, conflitos conjugais, perda de emprego e rompimento de relações familiares. São frequentes situações em que jogadores escondem extratos bancários, vendem bens, usam cartões de crédito da família ou recorrem a empréstimos para continuar apostando. Em casos extremos, há registros de pessoas ameaçadas por agiotas após recorrer ao crédito informal para quitar dívidas acumuladas no jogo.
Solange Ramounoulou afirma que as mudanças de comportamento costumam aparecer antes mesmo das grandes perdas financeiras. “A pessoa passa a viver mais nervosa, mais reativa e começa a esconder informações. Ela cria justificativas para o dinheiro que desaparece e, quando as dívidas aumentam, procura empréstimos com familiares ou pessoas próximas, acreditando que conseguirá recuperar tudo depois. Nessa fase, normalmente nega o problema e tem muita dificuldade para aceitar ajuda.”
A psicóloga ressalta que a intervenção da família deve ocorrer o quanto antes. “É preciso conversar, estabelecer limites e buscar ajuda profissional. Em muitos casos, o tratamento envolve acompanhamento psicológico e psiquiátrico, porque a ansiedade é muito intensa. Quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as chances de recuperação.”
O Procon-SP registrou aumento de 340% nas reclamações relacionadas a plataformas de apostas online entre 2023 e 2025. O endividamento médio relatado pelos jogadores que buscaram atendimento especializado chegou a R$ 28 mil — valor equivalente a mais de seis meses de salário mínimo.
Um problema de saúde pública
A compulsão por jogos é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como transtorno comportamental — a ludopatia. O crescimento acelerado das apostas online levou o Ministério da Saúde a elaborar diretrizes específicas para atendimento de pessoas afetadas na rede pública, orientando profissionais do SUS a identificar sinais precoces da dependência e encaminhar pacientes para tratamento adequado.
O mecanismo cerebral envolvido é semelhante ao de outras dependências comportamentais: cada ganho produz liberação de dopamina — o neurotransmissor ligado ao prazer e à recompensa — incentivando novas apostas mesmo diante de sucessivas perdas.
A Lei Federal nº 14.790, sancionada em dezembro de 2023, regulamentou as apostas de quota fixa no Brasil, estabelecendo regras de autorização, fiscalização e proteção ao consumidor. Mesmo assim, parlamentares debatem novas restrições aos jogos algorítmicos como o Tigrinho, diante do crescimento dos relatos de endividamento e transtorno psicológico.
A forte presença das apostas nas redes sociais, em transmissões esportivas e nos uniformes de clubes de futebol também passou a ser alvo de questionamentos. Especialistas afirmam que campanhas publicitárias associando apostas ao sucesso financeiro atingem principalmente jovens e pessoas em situação de vulnerabilidade econômica.
Atrás de cada aposta perdida podem existir famílias desestruturadas, casamentos rompidos, dívidas impagáveis e pessoas que passam a viver em permanente sofrimento psicológico. A história da moradora de Resende é apenas uma entre milhares registradas em todo o país — e mostra que o preço do Tigrinho pode ser muito mais alto do que o valor depositado em uma plataforma digital.
Como perceber que o jogo virou vício
Aumentar cada vez mais o valor das apostas para tentar recuperar perdas; passar horas por dia em plataformas deixando de lado trabalho e família; esconder quanto dinheiro está sendo gasto; fazer empréstimos ou usar cartão de crédito para continuar jogando; vender bens ou usar dinheiro das contas da casa; sentir ansiedade ou irritação quando não consegue apostar; prometer que vai parar e voltar a jogar pouco tempo depois; acreditar que “na próxima aposta” recuperará tudo.
Acompanhamento psicológico, atendimento psiquiátrico quando necessário, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e Unidades Básicas de Saúde (UBS) são os caminhos indicados pelos especialistas. Familiares também devem buscar orientação — o apoio da rede familiar é determinante durante o tratamento.
Crédito da especialista
Solange Ramounoulou é psicóloga, membro do Conselho Regional de Psicologia e do Conselho Federal de Psicologia. É especialista em Psicopatologia, sócia fundadora do Espaço VIR, criadora da Abordagem Integradora e conferencista internacional. Também é licenciada em Filosofia e Literatura pela França.
Vinicius
Jogo do Tigrinho: 57% perderam dinheiro; 18% perderam a família





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