IA reduz tráfego de sites e pressiona jornalismo no Brasil

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Foto: Imagem feita por IA
Mudança ganhou força a partir de maio de 2024, com a expansão do AI Overviews, do Google, recurso que apresenta respostas produzidas por inteligência artificial diretamente nos resultados de pesquisa

País – O avanço da Inteligência Artificial (IA), especialmente por meio de resumos apresentados por ferramentas de busca na internet, vem provocando mudanças no comportamento dos usuários e afetando o tráfego de sites jornalísticos no Brasil. Com acesso às informações diretamente nos resultados gerados por IA, parte do público deixa de clicar nos links das reportagens, reduzindo a audiência dos veículos e, consequentemente, dificultando a obtenção de receitas publicitárias.

A mudança ganhou força a partir de maio de 2024, com a expansão do AI Overviews, do Google, recurso que apresenta respostas produzidas por inteligência artificial diretamente nos resultados de pesquisa.

Além do impacto financeiro, especialistas e entidades do setor alertam para possíveis consequências sobre a qualidade da informação. Os resumos automatizados podem apresentar apenas parte do conteúdo de uma reportagem, retirar informações do contexto ou reproduzir trechos sem a devida atribuição.

O cenário ocorre em um momento de preocupação com a disseminação de notícias falsas nas plataformas digitais, que também concentram grande parte das ferramentas de inteligência artificial utilizadas atualmente.

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Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Marco Regulatório da IA tramita desde março de 2025 na Câmara

Projeto prevê remuneração por conteúdo jornalístico

Em tramitação na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei 2338/2023, que estabelece o Marco Regulatório da Inteligência Artificial, prevê regras para o uso de conteúdos protegidos por direitos autorais por sistemas de IA.

O texto prevê a remuneração pelo uso de obras protegidas, incluindo conteúdos jornalísticos, medida que pode representar uma nova fonte de receita para empresas de comunicação diante das mudanças provocadas pela inteligência artificial.

Apesar de ter sido apontado como uma das prioridades da Câmara para o primeiro semestre, o projeto não avançou no período.

A Associação de Jornalismo Digital (Ajor), que reúne 152 veículos de comunicação online no país, identificou redução significativa de audiência em parte das empresas associadas.

Segundo levantamento da entidade, um em cada quatro portais pesquisados perdeu mais de 20% da audiência em 2025. A queda do tráfego proveniente de ferramentas de busca é apontada como uma preocupação para o setor.

A diretora de Relações Institucionais da Ajor, Carla Egydio, afirmou que a redução da audiência prejudica diretamente a capacidade dos veículos de atrair publicidade, já que parte das receitas é calculada com base nas métricas de acesso.

Para a associação, a crise do modelo de financiamento do jornalismo foi agravada pela migração da publicidade para plataformas digitais e passou a sofrer um novo impacto com a expansão dos resumos produzidos por inteligência artificial.

Impacto na qualidade da informação

Além da questão econômica, o avanço dos mecanismos de busca com IA levanta preocupações sobre a forma como as informações chegam ao público.

Os resumos podem apresentar apenas uma síntese de uma reportagem, sem necessariamente reproduzir todos os dados, informações e contextos presentes no conteúdo original. Segundo especialistas do setor, isso pode contribuir para a descontextualização de assuntos relevantes para o debate público.

Outra preocupação envolve a reprodução de trechos de reportagens sem autorização ou atribuição adequada, o que pode caracterizar violação de direitos autorais.

O problema já provocou impactos em empresas jornalísticas no exterior. Em maio de 2025, o Business Insider anunciou a demissão de 21% de seus funcionários, em um cenário que incluiu queda no tráfego proveniente de mecanismos de busca e mudanças no comportamento dos usuários.

Fenaj defende aprovação do marco regulatório

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) tem defendido a aprovação do PL 2338 na Câmara. O projeto tramita na Casa desde março de 2025, após ter sido aprovado pelo Senado.

A presidenta da Fenaj, Samira de Castro, afirmou que empresas de tecnologia têm atuado contra dispositivos relacionados aos direitos autorais.

Segundo ela, o projeto apresenta avanços ao estabelecer mecanismos de remuneração pelo uso de conteúdos produzidos por jornalistas, embora ainda existam pontos que precisam ser aperfeiçoados.

A entidade também considera necessária maior transparência sobre os conteúdos utilizados no treinamento dos modelos de inteligência artificial.

Projeto aguarda parecer na Câmara

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), havia colocado o Marco Regulatório da IA entre as prioridades do primeiro semestre. A proposta, porém, não avançou.

A assessoria do parlamentar informou que a votação depende da apresentação do parecer pelo relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). Segundo a Câmara, diante do calendário eleitoral, a análise do projeto deverá ocorrer após as eleições de outubro.

A comissão especial responsável por discutir o tema não se reúne desde novembro de 2025.

O relator tem defendido a necessidade de ampliar o debate sobre o projeto, principalmente em relação à forma como funcionará a remuneração pelo uso de conteúdos protegidos por direitos autorais.

Empresas de tecnologia são contra parte do texto

Entidades que representam empresas de tecnologia criticam o texto aprovado pelo Senado. O setor argumenta que as regras previstas para direitos autorais podem dificultar o desenvolvimento de novos modelos de inteligência artificial no país.

A Associação das Empresas de Tecnologia (Brasscom) e outras organizações afirmam que as exigências podem prejudicar investimentos em infraestrutura digital e tornar o Brasil menos competitivo no desenvolvimento da tecnologia.

As empresas defendem regras que, segundo o setor, permitam o desenvolvimento da inteligência artificial sem criar obstáculos considerados excessivos ao treinamento dos modelos.

Governo defende aprovação do projeto

O governo federal apoia a aprovação do PL 2338. O secretário de Direitos Autorais e Intelectuais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, afirmou que aumentaram as disputas judiciais relacionadas ao uso de conteúdos protegidos por direitos autorais no treinamento de sistemas de inteligência artificial.

Segundo o secretário, enquanto não houver uma legislação específica, o uso não autorizado de conteúdos protegidos para treinamento de sistemas de IA pode configurar violação da legislação brasileira de direitos autorais.

Cade investiga uso de conteúdo pelo Google

Enquanto o Congresso discute o marco regulatório, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) abriu, em abril deste ano, uma investigação sobre a atuação do Google e os impactos das ferramentas de inteligência artificial no mercado de mídia.

O órgão avalia se a empresa teria abusado de sua posição dominante ao utilizar conteúdos jornalísticos em ferramentas de IA sem remunerar os veículos responsáveis pela produção das informações.

Os movimentos mostram que, enquanto o Congresso debate novas regras para o setor, veículos de comunicação e empresas de tecnologia também procuram estabelecer acordos privados sobre o uso de conteúdos jornalísticos por sistemas de inteligência artificial. Com informações da Agência Brasil.

Carol Berg

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