El Niño pode ser um dos mais fortes desde 1950

Foto: Divulgação/INMET
Mapa e monitoramento mostram a evolução do El Niño no Oceano Pacífico

Sudeste – O El Niño que está se formando no Oceano Pacífico ganhou força rapidamente e pode se transformar em um dos episódios mais intensos já registrados desde 1950. A NOAA, agência meteorológica dos Estados Unidos, estima em 75% a probabilidade de que o fenômeno esteja entre os mais fortes da série histórica no trimestre outubro-novembro-dezembro, enquanto a chance de um episódio classificado como muito forte supera 90% na primavera e no verão de 2026/2027.

Para o Brasil, os efeitos não devem ser iguais em todas as áreas. No Sudeste, o cenário exige atenção principalmente para a combinação entre temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas. Minas Gerais e Espírito Santo aparecem entre as áreas com maior probabilidade de precipitação abaixo da média no trimestre setembro-outubro-novembro, enquanto São Paulo pode ter comportamento diferente conforme a área do estado.

Sudeste pode ter calor e chuva irregular

O El Niño altera a circulação da atmosfera ao modificar a distribuição de calor e umidade no Pacífico. Essas mudanças podem repercutir milhares de quilômetros de distância e influenciar os sistemas meteorológicos que atuam sobre o Brasil.

Para o Sudeste, a projeção atual aponta maior probabilidade de chuva abaixo da média em partes de Minas Gerais e Espírito Santo, além de áreas do Brasil Central. A situação não significa que a região ficará sem chuva, mas indica tendência de períodos mais secos ou de distribuição irregular dos acumulados.

As temperaturas também devem permanecer elevadas. Na previsão do INMET para setembro, grande parte do Sudeste apresenta tendência de temperaturas acima da média, com desvios de até 1,5°C em Minas Gerais, Espírito Santo e grande parte do Rio de Janeiro.

O comportamento, entretanto, pode variar bastante de uma semana para outra. A atuação de frentes frias, áreas de baixa pressão e outros sistemas atmosféricos continua capaz de provocar episódios de chuva intensa e quedas temporárias de temperatura mesmo durante um período marcado pelo El Niño.

Sul tem cenário diferente

Enquanto parte do Sudeste tende a enfrentar maior irregularidade das chuvas, o Sul do Brasil aparece no cenário oposto. O El Niño normalmente favorece o aumento da frequência e do volume de precipitações na região, especialmente durante a primavera.

As projeções atuais apontam chuva acima da média principalmente no Rio Grande do Sul, além de áreas de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Esse padrão aumenta a atenção para episódios de chuva volumosa, cheias e inundações.

O INMET já registrou, desde julho, sinais de influência do El Niño sobre as chuvas no Sul. O aquecimento do Pacífico pode fortalecer os jatos de baixos níveis, que transportam umidade da região tropical para o Sul do país.

Norte e Nordeste podem ter mais seca

No Norte e no Nordeste, a preocupação é principalmente com a redução das chuvas. As previsões para o trimestre setembro-outubro-novembro indicam maior probabilidade de precipitação abaixo da média nessas regiões.

A combinação entre calor, baixa umidade e períodos prolongados de estiagem também pode aumentar o risco de queimadas, especialmente nas áreas onde o início da estação chuvosa sofrer atraso. A situação merece atenção adicional na Amazônia Legal e em outras áreas do Norte e do Centro-Oeste.

No Nordeste, os efeitos podem aparecer principalmente na disponibilidade de chuva e nos períodos de estiagem. A intensidade dos impactos, porém, depende também de outros fatores climáticos e da interação entre diferentes sistemas atmosféricos.

Centro-Oeste também deve sentir os efeitos

No Centro-Oeste, o cenário combina temperaturas elevadas com possibilidade de períodos mais secos em determinadas áreas. Mato Grosso, Tocantins e norte de Goiás estão entre as áreas com maior probabilidade de chuva abaixo do normal no trimestre analisado pelo painel nacional.

Esse comportamento pode influenciar a agricultura, principalmente durante a implantação das lavouras. Segundo o INMET, em anos de El Niño, a redução das chuvas no Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste pode aumentar a ocorrência de veranicos, períodos de vários dias sem chuva durante a estação chuvosa.

Pacífico registra forte aquecimento

A velocidade de intensificação do fenômeno é um dos fatores que chamam a atenção dos meteorologistas. Segundo a atualização mais recente do INMET com base nos dados da NOAA, as anomalias da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste ultrapassaram 3°C em agosto.

Na região Niño 3.4, usada como uma das principais referências para acompanhar o El Niño, a anomalia chegou a +1,8°C. Na região Niño 3, alcançou +2,5°C, enquanto o Niño 1+2 chegou a +3,4°C.

Os números ajudam a explicar por que as projeções passaram a apontar para um episódio excepcionalmente intenso. A NOAA estima mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante a primavera de 2026 e o verão de 2026/2027 no Hemisfério Sul. Para outubro a dezembro, a estimativa de 75% indica a possibilidade de que o evento seja o mais intenso desde 1950.

Fenômeno mudou de cenário ao longo de 2026

A atual situação é resultado de uma rápida mudança no Pacífico ao longo deste ano. Em janeiro, ainda havia uma condição de La Niña. Nos meses seguintes, o fenômeno perdeu força e o oceano passou por um período de neutralidade.

Em junho, o El Niño foi oficialmente declarado pela NOAA. O índice Niño 3.4 estava em +0,7°C. Um mês depois, chegou a +1,2°C e, em agosto, alcançou +1,8°C. A sequência mostra a velocidade do aquecimento observado no Pacífico.

O que esperar nos próximos meses

A perspectiva de um El Niño muito forte não significa que todas as regiões brasileiras terão necessariamente eventos extremos. O fenômeno aumenta a probabilidade de determinados padrões de chuva e temperatura, mas cada episódio meteorológico depende também de frentes frias, massas de ar, áreas de baixa pressão, sistemas convectivos e outros fatores.

Por isso, uma previsão climática para três meses não permite determinar, com antecedência, quando ocorrerá uma tempestade ou qual cidade será atingida por chuva intensa. O acompanhamento precisa ser feito continuamente, com atualização das previsões de curto prazo e dos avisos meteorológicos.

Para o Sudeste, o cenário projetado reforça a necessidade de atenção à combinação de calor, períodos de chuva irregular e possibilidade de precipitações intensas em episódios específicos. No Sul, a preocupação maior é com volumes elevados de chuva. Já no Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste, a possibilidade de estiagem prolongada e aumento do risco de queimadas ganha destaque.

O El Niño de 2026, portanto, entra nos próximos meses como um dos principais fatores de influência sobre o clima brasileiro. A intensidade prevista ainda será acompanhada pelos centros meteorológicos, mas os sinais observados no Pacífico já indicam um fenômeno de grande magnitude.

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Carol Berg

El Niño pode ser um dos mais fortes desde 1950


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