Compositor de Angra vence sambas do Salgueiro e da Unidos da Tijuca

Foto: Divulgação
José Carlos do Cartório conquistou duas disputas de samba-enredo na mesma madrugada

Angra dos Reis – O nome de Angra dos Reis estará em dois sambas-enredo do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro em 2027. Aos 74 anos, o compositor angrense José Carlos Oliveira, conhecido como José Carlos do Cartório, venceu as disputas do Acadêmicos do Salgueiro e da Unidos da Tijuca para o próximo desfile na Marquês de Sapucaí.

As duas vitórias foram confirmadas na madrugada de 13 de setembro, em finais realizadas nas quadras das duas agremiações. O resultado coloca o compositor em uma situação pouco comum: participar da autoria de dois sambas escolhidos para escolas do Grupo Especial na mesma temporada.

Nas duas conquistas, José Carlos esteve acompanhado dos angrenses Ian Ruas e Caio Miranda, filhos do médico José Carlos Miranda, antigo parceiro de composição do compositor e que morreu em 2022.

A relação entre eles começou anos antes. José Carlos do Cartório passou a participar das disputas de samba-enredo no Rio de Janeiro em 2019, quando formava parceria com Miranda. Naquele mesmo ano, os dois venceram a disputa da Portela.

Desde então, José Carlos continuou participando dos concursos promovidos pelas principais escolas do Carnaval carioca. Ao longo desse período, apresentou composições em agremiações como Beija-Flor, Grande Rio e Imperatriz Leopoldinense.

Agora, sete anos depois da vitória na Portela, ele volta a comemorar um resultado expressivo ao lado da família do antigo parceiro.

“Nunca experimentei tamanha carga de adrenalina. Só consegui dormir no domingo às 7 da noite, após passar toda a madrugada de sábado acordado e sem beber nada. Uma loucura”, contou José Carlos.

Samba do Salgueiro conta nova história de Xica da Silva

No Salgueiro, a composição vencedora tem oito autores: José Carlos do Cartório, Ian Ruas, Caio Miranda, David Carvalho, Luiz Fernando, Luana Rosa, Fabiano Mattos e Carlão.

Segundo José Carlos, a disputa começou com 18 sambas e foi reduzida ao longo de cinco etapas até a definição da obra que será levada pela escola à Sapucaí.

O enredo do Salgueiro para 2027 será “Laroyê Xica da Silva: A História por Trás da História”, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira.

A escola pretende revisitar a trajetória de Xica da Silva a partir de uma abordagem que também questiona as diferentes imagens construídas sobre a personagem ao longo da história e da produção cultural brasileira.

O Salgueiro já havia levado Xica da Silva para a avenida em 1963. Para o próximo Carnaval, a agremiação retoma o tema sob uma nova perspectiva.

Na avaliação de José Carlos, o samba acompanha essa proposta de reconstrução da personagem.

“Xica foi uma mulher fora de seu tempo. Ela foi uma verdadeira mecenas dos grupos teatrais e da igreja, sendo muito católica. Este aspecto sexista que se prendeu a Xica foi uma licença poética dos diversos ramos da cultura, tais como música, cinema, teatro e literatura”, explicou.

Unidos da Tijuca aposta em obra literária

Na Unidos da Tijuca, a vitória veio com uma parceria mais enxuta. José Carlos do Cartório, Ian Ruas e Caio Miranda são os únicos compositores creditados no samba escolhido pela escola.

A composição foi selecionada entre 15 sambas inscritos e passou por quatro etapas até chegar à final.

Para 2027, a Unidos da Tijuca apresentará o enredo “A Cabeça do Santo”, baseado no livro homônimo da escritora cearense Socorro Acioli.

A obra literária conta a história de Samuel, personagem que chega à cidade de Caridade, no Ceará, e acaba encontrando abrigo dentro da cabeça de uma grande estátua inacabada de Santo Antônio.

A história mistura elementos de religiosidade, relações familiares e descobertas pessoais. Na composição, os autores optaram por apresentar a narrativa em primeira pessoa, acompanhando os sentimentos vividos pelo personagem.

“O enredo mistura a narração de um fato real, ou seja, a construção da imagem de Santo Antônio numa cidade do interior do Ceará, tendo o prefeito resolvido construir o corpo do santo na praça da cidade e a cabeça distante do local”, afirmou José Carlos.

Segundo o compositor, a letra também procurou explorar as relações afetivas e os conflitos enfrentados pelo protagonista.

“Exploramos no enredo os sentimentos pelos quais a personagem central do romance que embasou o tema nos passou: amor profundo por sua mãe, ódio pela ausência do pai, felicidade ao descobrir afetos e se descobrir uma pessoa de bem”, contou.

Parceria atravessa gerações

As duas vitórias têm um significado especial para José Carlos pela relação com os filhos de seu antigo parceiro.

José Carlos Miranda foi companheiro do compositor nas disputas de samba desde 2019. Naquele ano, os dois chegaram juntos à vitória na Portela. Miranda morreu em 2022, mas a parceria musical continuou por meio de Ian Ruas e Caio Miranda.

Ian, filho caçula do médico, e Caio, filho do meio, passaram a dividir composições com José Carlos. O resultado dessa continuidade veio agora em dose dupla.

Na mesma madrugada, os três participaram das vitórias no Salgueiro e na Unidos da Tijuca, garantindo espaço em dois dos desfiles que estarão no Grupo Especial em 2027.

Para José Carlos, a sequência de resultados foi marcada por uma mistura de emoção e cansaço após horas acompanhando as finais.

“Duas vitórias na mesma noite com sensação de êxtase total”, resumiu.

Angra representada em dois desfiles

A presença de José Carlos do Cartório e Ian Ruas também coloca Angra dos Reis entre os locais de origem de compositores que estarão na trilha sonora do Carnaval carioca de 2027.

O compositor de 74 anos começou a disputar sambas no Rio em 2019 e, desde então, construiu trajetória em diferentes agremiações. A vitória na Portela foi o primeiro grande resultado dessa fase, seguida por participações em outras escolas tradicionais.

Agora, Salgueiro e Unidos da Tijuca passam a integrar esse percurso.

No Salgueiro, José Carlos e Ian fazem parte de uma parceria que assina a composição sobre Xica da Silva. Na Unidos da Tijuca, os dois estarão ao lado de Caio Miranda no samba inspirado em “A Cabeça do Santo”.

As duas obras serão apresentadas na Marquês de Sapucaí durante o Carnaval de 2027, levando para a principal passarela do samba do país uma parceria formada também a partir da ligação entre compositores de Angra dos Reis.

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Carol Berg

Compositor de Angra vence sambas do Salgueiro e da Unidos da Tijuca


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