Cinco empresas seguem na disputa pela compra da CSN Cimentos

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Foto: Arquivo/Gabriel Borges
Unidade da CSN Cimentos está muito próxima de mudar de mãos

São Paulo – O processo de venda da CSN Cimentos segue avançando, mas o desfecho é mais complexo do que o previsto há poucas semanas. Cinco empresas permanecem na disputa pela segunda maior fabricante de cimento do Brasil: as brasileiras Votorantim e Polimix, as chinesas Huaxin Cement e Sinoma International, e a italiana Italcementi, controlada pelo grupo alemão Heidelberg Materials. A chinesa Anhui Conch Cement, que chegou a integrar a lista de interessados, deixou de ser vista como candidata provável para a fase final, e a J&F, holding dos irmãos Batista, já havia abandonado a corrida meses antes por não topar pagar mais do que cerca de R$ 10 bilhões pelo ativo.

A CSN espera receber as propostas vinculantes — ofertas finais, com compromisso de compra — na primeira quinzena de agosto, um pouco antes do prazo de 7 de agosto mencionado em etapas anteriores do processo, com a assinatura do contrato de venda prevista ainda para o terceiro trimestre deste ano.

Diante da relevância econômica da informação e de seu potencial impacto para investidores, trabalhadores e a região, o Diário do Vale optou por publicar a reportagem após concluir a apuração com fontes independentes e documentos pertinentes. A empresa foi procurada previamente, por intermédio de sua Assessoria de Comunicação, mas não respondeu até o encerramento da edição. Eventuais esclarecimentos serão incorporados em atualização posterior.

O impasse do preço persiste

A distância entre o que a CSN pede e o que os candidatos consideram razoável continua sendo o principal obstáculo. A siderúrgica mantém a pretensão de arrecadar entre R$ 13 bilhões e R$ 14 bilhões pela unidade, patamar que segue sendo visto como elevado pelos interessados, cujas estimativas mais recentes giram em torno de R$ 11 bilhões a R$ 13 bilhões — ainda assim, valor acima da avaliação inicial do ativo, de cerca de R$ 10 bilhões, e superior ao próprio valor de mercado da CSN na B3.

Esse descompasso já vem produzindo efeitos práticos: fontes ouvidas por agências de notícias indicam que o preço pedido pode reduzir o número de interessados dispostos a seguir até o fim do processo, e a saída de Anhui Conch e J&F é citada como sinal desse movimento.

Huaxin sob pressão de sua própria acionista

Um dos desdobramentos mais recentes do processo envolve a Huaxin Cement, uma das chinesas mais bem posicionadas na disputa. A Holcim, gigante suíça de materiais de construção que detém cerca de 42% da Huaxin, sinalizou resistência à continuidade da chinesa na etapa vinculante. A situação é peculiar porque foi justamente a Holcim quem vendeu à CSN, em 2021, os ativos brasileiros que hoje formam a CSN Cimentos — o que torna a operação uma espécie de reencontro indesejado para a suíça, relutante em ver uma empresa da qual é acionista relevante recomprar ativos que ela mesma alienou. A Huaxin estaria avaliando uma oferta próxima a R$ 12 bilhões pelo ativo, ainda que a posição de sua acionista possa dificultar o avanço da proposta.

Votorantim e Polimix: caminhos distintos até o Cade

A Votorantim, líder do mercado nacional de cimento, segue esbarrando no mesmo obstáculo que travou sua tentativa anterior de comprar a InterCement: por já concentrar grande fatia do setor, dificilmente conseguiria aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para uma aquisição integral sem se desfazer de ativos. Por isso, a expectativa é de que a empresa participe do negócio por meio de um consórcio.

Já a Polimix, dona da marca Mizu e maior produtora de concreto do país, desponta como uma concorrente com menos entraves concorrenciais e, segundo apuração de veículos especializados, teria condições de disputar o negócio sozinha, com financiamento bancário — contrariando a expectativa inicial de que precisaria de uma parceria. A empresa já havia tentado comprar os ativos brasileiros da Holcim em 2021, perdendo então para a própria CSN, o que lhe confere conhecimento prévio do negócio.

Um ativo lucrativo sendo vendido no auge

A CSN Cimentos tem capacidade de produção de 17 milhões de toneladas por ano, distribuída em sete plantas integradas, além de projetos de expansão em estágio avançado. A unidade vive, atualmente, o melhor momento de sua história: no primeiro trimestre de 2026, a divisão de cimentos registrou a maior margem operacional já obtida, cerca de 30% — atrás apenas de logística e mineração dentro do grupo CSN, ainda que a cimenteira represente apenas uma fatia menor da receita total da companhia.

A venda é peça central de um plano de desinvestimentos anunciado pela CSN em janeiro, com o qual a siderúrgica pretende levantar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões para reduzir seu endividamento. A dívida líquida da companhia encerrou o primeiro trimestre de 2026 em cerca de R$ 40,5 bilhões, com uma alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda) de 3,36 vezes — acima da meta histórica da empresa, de manter esse indicador abaixo de 3 vezes. A unidade de cimento também serve de garantia para um empréstimo-ponte contraído junto a um sindicato de bancos.

O que diz a CSN

Procurada, a CSN reafirma que aguarda as propostas vinculantes para agosto e mantém a expectativa de concluir a venda no terceiro trimestre. A companhia não comenta valores ou nomes de candidatos específicos, citando questões de confidencialidade do processo de due diligence, mas reforça que o grupo de interessados reúne empresas relevantes do Brasil, da Ásia e da Europa, em um processo que descreve como competitivo. O Morgan Stanley segue como assessor financeiro da operação.

Com o prazo se aproximando, o mercado deve saber em breve não apenas quantos e quais desses candidatos de fato apresentarão propostas firmes, mas também se o impasse sobre o preço será superado — ou se levará a CSN a reconsiderar suas pretensões para viabilizar o negócio.

Ana Carolina Garcia Berg de Marco

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