Muito além do diagnóstico: o peso invisível dos transtornos mentais

1 muito alem do diagnostico

País – Há quem ainda enxergue pessoas com transtornos mentais como “difíceis”, “instáveis”, “complicadas” ou até “malucas”. São rótulos repetidos com facilidade, mas que ignoram uma realidade muito mais dura: por trás deles existem pessoas que travam uma batalha silenciosa para conseguir levantar da cama, trabalhar, manter relacionamentos e seguir vivendo.

Ansiedade e transtorno afetivo bipolar (TAB) estão entre os transtornos mentais que mais impactam a qualidade de vida e a capacidade funcional das pessoas. Não se trata de falta de força de vontade, preguiça ou escolha. São doenças reconhecidas pela medicina, de origem multifatorial, que exigem acompanhamento especializado e, em muitos casos, tratamento por toda a vida.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade estão entre os problemas de saúde mental mais comuns no mundo e afetam as mulheres com frequência significativamente maior do que os homens.

No Brasil, a dimensão do adoecimento mental também aparece em levantamentos oficiais. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, mostram que 11,1% da população brasileira com 18 anos ou mais relatou já ter recebido diagnóstico médico de depressão em algum momento da vida. Entre as mulheres, a prevalência chega a 14,7%, praticamente o dobro da observada entre os homens (7,3%).

Um diagnóstico que nem sempre chega

No caso do transtorno afetivo bipolar, o diagnóstico costuma ser um dos maiores desafios. Isso acontece principalmente entre pacientes com TAB tipo 2, forma da doença caracterizada por episódios depressivos recorrentes alternados com períodos de hipomania — uma elevação do humor menos intensa do que a mania observada no tipo 1.

Durante a hipomania, muitas pessoas mantêm a rotina, trabalham normalmente e, em alguns casos, chegam a ser vistas como mais produtivas ou dispostas. Por isso, esses episódios costumam passar despercebidos. O sofrimento aparece com mais intensidade nas fases depressivas, fazendo com que muitos pacientes recebam, inicialmente, apenas o diagnóstico de depressão.

Essa confusão pode atrasar o tratamento adequado. Diferentemente da depressão isolada, o transtorno bipolar exige estabilização do humor, e o uso de antidepressivos sem um estabilizador do humor e sem acompanhamento especializado pode favorecer o surgimento de episódios de mania ou hipomania em pessoas predispostas.

Estudos internacionais estimam que o transtorno bipolar afete cerca de 1% da população, podendo alcançar aproximadamente 2% quando considerados diferentes diagnósticos do espectro bipolar. Especialistas alertam que a doença permanece subdiagnosticada, sobretudo entre pacientes que procuram atendimento durante episódios depressivos.

Quando o trabalho deixa de ser apenas trabalho

O ambiente profissional ocupa boa parte da vida adulta e pode representar tanto um espaço de realização quanto um fator de adoecimento.

A literatura científica demonstra que pessoas com transtornos mentais podem apresentar agravamento dos sintomas quando expostas continuamente ao estresse intenso, à sobrecarga, à insegurança no emprego, a conflitos constantes e a ambientes de trabalho hostis. Esses fatores não provocam, isoladamente, transtornos como ansiedade ou TAB, mas podem desencadear crises ou intensificar sintomas em pessoas que já convivem com essas doenças.

Os reflexos aparecem nas estatísticas oficiais. Dados da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,6% em relação ao ano anterior. Somente os transtornos ansiosos responderam por 166.489 benefícios, tornando-se a quarta principal causa de afastamento por incapacidade temporária no país.

O problema é que, muitas vezes, quem adoece acaba sendo visto como o problema. Em vez de acolhimento, encontra desconfiança. Em vez de compreensão, recebe rótulos. Em vez de apoio, enfrenta cobranças, isolamento e julgamentos que reforçam o estigma.

O peso do preconceito

Para muitas pessoas, conviver com a doença não é o único desafio. O preconceito costuma acrescentar uma nova camada de sofrimento.

O medo de perder oportunidades profissionais, de ser desacreditado ou tratado de forma diferente faz com que muitos escondam o diagnóstico até da própria família e dos colegas de trabalho. Esse silêncio dificulta o acesso ao tratamento e contribui para o isolamento.

O Ministério da Saúde reconhece que o estigma continua sendo um dos principais obstáculos para o diagnóstico precoce e para a continuidade do tratamento em saúde mental. O receio de sofrer discriminação leva muitas pessoas a adiar a busca por ajuda, favorecendo o agravamento de quadros que poderiam ser tratados de forma mais precoce. A Organização Mundial da Saúde faz avaliação semelhante ao apontar o preconceito como uma das principais barreiras para que pessoas com transtornos mentais recebam assistência adequada.

Não basta falar sobre saúde mental

Nos últimos anos, campanhas como o Setembro Amarelo ajudaram a ampliar o debate sobre prevenção ao suicídio e saúde mental. Mas conscientização não pode se limitar a um mês no calendário.

Promover saúde mental também significa combater ambientes de trabalho hostis, reduzir fatores de risco psicossociais, respeitar limites humanos e compreender que ninguém escolhe conviver com um transtorno mental.

Essa preocupação também passou a integrar as normas de saúde e segurança do trabalho. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que as empresas identifiquem, avaliem e gerenciem riscos psicossociais relacionados ao trabalho, incorporando esses fatores ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). A medida amplia a atenção para aspectos da organização do trabalho que podem contribuir para o adoecimento mental dos trabalhadores.

O desafio, porém, vai além do cumprimento das normas. Enquanto o sofrimento psíquico continuar sendo confundido com fraqueza de caráter, falta de esforço ou instabilidade moral, milhares de pessoas seguirão enfrentando não apenas a doença, mas também o preconceito que insiste em acompanhá-la.

 

 

Vivian Costa e Silva

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