BR-393: novo contrato retira duplicação entre VR e Barra do Piraí
Volta Redonda – O trecho mais perigoso e mais movimentado da BR-393, a Rodovia Lúcio Meira — também conhecida como Rodovia do Aço —, corre o risco de ficar 30 anos sem duplicação. O alerta vem do presidente da Agência de Desenvolvimento Regional do Sul Fluminense, a ADR, Péricles Aguiar, que analisou o comparativo entre o projeto de concessão de 2008 e o novo modelo proposto pelo governo federal para o leilão previsto para dezembro de 2026, batizado de Rota Vale do Café.
A conclusão é preocupante: enquanto o contrato de 2008 previa a duplicação de 27,4 quilômetros entre Volta Redonda e Barra do Piraí, o novo projeto retira completamente esse trecho da obrigação inicial da futura concessionária, transferindo os 15,02 quilômetros de duplicação previstos para a região de Três Rios. O segmento entre Volta Redonda e Barra do Piraí — historicamente o mais crítico em termos de acidentes, fluxo de veículos pesados e importância logística — fica de fora.
“A gente tinha 27 quilômetros de duplicação na primeira concessão. Na segunda, caiu para 15, só que o pior: os 27 eram no trecho entre Volta Redonda e Barra do Piraí, e agora os 15 são lá em Três Rios. Ou seja, nós vamos ficar 30 anos com esse trecho sem duplicação. É inadmissível”, alertou Aguiar.
Uma história de promessas não cumpridas
A BR-393 tem quase 200 quilômetros de extensão e liga Volta Redonda a Além Paraíba, na divisa com Minas Gerais, passando por cidades como Barra do Piraí, Vassouras, Paraíba do Sul, Três Rios e Sapucaia. Construída na década de 1950, a rodovia é rota estratégica para o escoamento industrial do Sul Fluminense, corredor turístico do Vale do Café e alternativa à congestionada Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
A primeira concessão foi iniciada em 2008, quando o grupo espanhol Acciona assumiu a operação pelo prazo de 25 anos. Desde o início, o trecho entre Volta Redonda e Barra do Piraí era apontado como prioridade para duplicação — obras que deveriam ocorrer entre 2008 e 2014, mas nunca saíram do papel. Em 2019, a Acciona devolveu a concessão à ANTT após apresentar pedido de devolução amigável. A K-Infra assumiu a operação em novembro de 2018, herdando os passivos e os compromissos não cumpridos da gestão anterior.
A segunda gestão também não entregou as obras prometidas. A duplicação entre Volta Redonda e Barra do Piraí seguiu como compromisso contratual não executado. Em junho de 2025, após acúmulo de descumprimentos contratuais — buracos, trincas no pavimento, problemas de drenagem e atrasos reiterados —, o governo federal decretou a caducidade do contrato e retomou a administração da rodovia pelo DNIT. Sem pedágio e sem concessionária, a BR-393 voltou a se deteriorar rapidamente. Motoristas relataram o reaparecimento de buracos em áreas antes recuperadas, vegetação avançando sobre os acostamentos e sinalização danificada ou encoberta.
O que o comparativo revela
O documento elaborado pela ADR Sul Fluminense com base no projeto da nova concessão expõe as diferenças entre os dois modelos de investimento. Em 2008, estavam previstas correções de traçado em 6,4 quilômetros, passarelas sobre pista dupla em oito pontos de Barra do Piraí e Volta Redonda, implantação de barreiras divisórias de pista em 3,5 quilômetros em Volta Redonda, quatro pórticos e 27,4 quilômetros de duplicação entre Barra do Piraí e Volta Redonda. Todos esses itens aparecem zerados no projeto de 2026.
Em contrapartida, o novo modelo concentra os investimentos em Três Rios: 15,02 quilômetros de duplicação, 2,9 quilômetros de vias marginais e trevos em desnível. A execução de terceiras faixas, que era de 15,9 quilômetros no modelo anterior, cai para 6,2 quilômetros no novo projeto.
A justificativa do governo para retirar a duplicação do trecho Volta Redonda-Barra do Piraí da fase inicial é que as obras nesse segmento exigiriam desapropriações consideradas extensas. A intervenção nesses trechos passaria por reavaliação futura, podendo entrar na concessão como investimento adicional. Para os municípios da região, essa linguagem significa, na prática, que a obra pode nunca acontecer dentro do prazo contratual de 30 anos.
Mobilização regional
A preocupação com o novo modelo não é nova. Em outubro de 2025, a Prefeitura de Volta Redonda, em conjunto com a Firjan, a ADR Sul Fluminense e a Fecomércio-RJ, reuniu prefeitos da região para discutir o novo modelo de concessão e defender a contratação emergencial de manutenção para a rodovia. Participaram os prefeitos de Volta Redonda, Antonio Francisco Neto, de Resende, Tande Vieira, de Barra do Piraí, Kátia Miki, e de Paraíba do Sul, Júlio Canelinha, entre outros.
“Além das administrações anteriores não terem cumprido o previsto em contrato em relação a investimentos, como a duplicação de pistas, a proposta para nova concessão ainda diminui esses compromissos”, disse Péricles Aguiar no encontro, reforçando o alerta que agora volta à tona com a proximidade do leilão.
O prefeito Neto ressaltou a necessidade de a nova concessão preparar a BR-393 para os próximos 30 anos. “A rodovia faz a ligação do Norte com o Sul do país, além de ser rota para escoamento de produção, circuito turístico e polo industrial e de educação.”
Em resposta à pressão regional, o então ministro dos Transportes, Renan Filho, se reuniu com o prefeito Neto e confirmou o início de obras de recuperação emergencial no trecho regional, além de um investimento de R$ 50 milhões para a Rodovia do Contorno de Volta Redonda. “Determinamos o início imediato das obras de recuperação da BR-393 no trecho do Sul Fluminense, com mobilização das equipes a partir da próxima semana”, afirmou o ministro.
A medida, no entanto, trata da manutenção emergencial — não da duplicação estrutural que a região aguarda há mais de 15 anos.
O leilão e o que ainda pode mudar
A configuração final das exigências de duplicação dependerá das contribuições recebidas nas audiências públicas sobre o projeto.
É nesse espaço que lideranças regionais, prefeitos, entidades empresariais e a sociedade civil terão a oportunidade de pressionar por mudanças no edital antes que o contrato seja assinado. O leilão da Rota Vale do Café está previsto para dezembro de 2026, com contrato de 30 anos.
Para a ADR Sul Fluminense, o momento é decisivo. Se o trecho entre Volta Redonda e Barra do Piraí não entrar como obrigação contratual agora, a região estará condenada a mais três décadas de pista simples no segmento mais crítico de uma das rodovias mais importantes do interior fluminense.
O Diário do Vale encaminhou questionamentos ao Ministério dos Transportes sobre a retirada da duplicação do trecho entre Volta Redonda e Barra do Piraí e os critérios adotados no novo modelo de concessão, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.
Ana Carolina Garcia Berg de Marco
BR-393: novo contrato retira duplicação entre VR e Barra do Piraí




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