Ferrovia que liga Varginha a Barra Mansa e Angra pode mudar de dono
Foto: Divulgação
Leilão está marcado para o último trimestre de 2026
Sul Fluminense – Uma das ferrovias mais estratégicas do Sul Fluminense está prestes a mudar de mãos. O Corredor Minas-Rio — a linha que conecta o interior de Minas Gerais a Barra Mansa e ao Porto de Angra dos Reis — avança para seu primeiro leilão em décadas, após a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) aprovar o projeto de concessão em reunião realizada no dia 7 de maio. O processo agora aguarda análise do Tribunal de Contas da União (TCU), com o leilão previsto para o último trimestre de 2026.
O timing é urgente. A concessão integral da malha, firmada há cerca de 30 anos, vence em setembro de 2026. Com o contrato se encerrando, parte dos trechos será devolvida à União — e o governo precisa definir rapidamente quem vai operar a ferrovia para evitar o vácuo na logística regional.
O que é o Corredor Minas-Rio
O projeto foi dividido em dois lotes. O primeiro, com 625,8 quilômetros, conecta Iguatama, no Centro-Oeste mineiro, a Barra Mansa, no Rio de Janeiro, incluindo o ramal entre Varginha e Lavras, no Sul de Minas. O segundo lote estende-se por 107 quilômetros entre Barra Mansa e Angra dos Reis, garantindo acesso à costa e ao complexo portuário.
A operação se concentra em uma malha de 740 quilômetros que conecta cidades de Minas como Arcos, Lavras e Varginha até os municípios de Barra Mansa e Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. O trecho integra a Ferrovia Centro-Atlântica, mas hoje opera de forma limitada e exige novos investimentos para expansão e modernização.
Na prática, é uma ferrovia que há anos não cumpre seu potencial. Trechos ociosos, infraestrutura degradada e operação restrita são o retrato atual de uma linha que poderia movimentar café do Sul de Minas, minérios do Centro-Oeste mineiro, cargas agrícolas e industriais da região — tudo direto para o Porto de Angra dos Reis.
O modelo inédito do leilão
O Corredor Minas-Rio será o primeiro projeto ferroviário a utilizar o modelo de chamamento público, em vez do formato tradicional de licitação. A diferença é relevante: no chamamento público, o processo é mais ágil e pode atrair investidores de menor porte.
O contrato estabelece um prazo de 99 anos para a gestão da infraestrutura, operando com uma outorga simbólica de R$ 1. Caso apareça mais de um interessado, o critério de desempate será quem oferecer o maior valor. O governo não prevê aporte de dinheiro público — quem vencer terá liberdade para apresentar seu próprio plano de investimentos.
O diretor-relator da ANTT, Alessandro Baumgartner, ressaltou que este modelo de chamamento público deve servir de referência para outros 10 mil quilômetros de trilhos em processo de devolução no país.
Por que a ferrovia importa para o Sul Fluminense
Para Barra Mansa, o Corredor Minas-Rio não é apenas uma linha de trem. É um eixo logístico que pode transformar a posição da cidade no mapa econômico regional. A ferrovia passa pelo município e conecta o interior mineiro ao litoral fluminense — um corredor que envolve cargas minerais, agrícolas e industriais, com reflexo direto na geração de empregos, movimentação portuária em Angra e competitividade das empresas instaladas na região.
O segundo lote, que liga Barra Mansa ao Porto de Angra dos Reis em 107 quilômetros, é estratégico para toda a Costa Verde. Com a integração dos modais, Varginha reforça sua posição como polo logístico, garantindo eficiência no fluxo de mercadorias entre o interior mineiro e o mercado internacional via porto marítimo. O mesmo raciocínio vale para Barra Mansa, que pode se tornar ponto de transbordo e triagem de cargas nesse corredor.
“Essa é uma importante notícia para Varginha que vai se fortalecer ainda mais nas exportações, pois vamos ligar o porto seco ao porto marítimo; ambas as modalidades de portos são complementares trazendo eficiência ao comércio exterior”, afirmou o prefeito de Varginha, Leonardo Ciacci, ao comentar a aprovação do projeto pela ANTT.
O contexto maior: o Brasil ferroviário que está nascendo
O Corredor Minas-Rio faz parte de um movimento mais amplo anunciado nesta quinta-feira pelo ministro dos Transportes, George Santoro, durante evento na Bolsa de Valores, em São Paulo. O plano prevê R$ 600 bilhões em investimentos no setor ferroviário, oito corredores estratégicos e financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social com prazo de até 40 anos.
“A ideia é explicar as ferrovias como uma plataforma de negócios, mudar a visão tradicional de obra de infraestrutura. Se a gente não trabalhar o custo logístico, a produtividade econômica do Brasil não cresce”, disse o ministro.
A estratégia do governo é usar esse primeiro projeto para consolidar um entendimento com o TCU e padronizar os procedimentos, permitindo maior escala e rapidez nas futuras concessões ferroviárias. O Corredor Minas-Rio, portanto, não é apenas uma ferrovia. É o teste que vai definir como o Brasil vai gerir a próxima geração de concessões ferroviárias.
O leilão está marcado para o último trimestre de 2026. Barra Mansa e Angra dos Reis estarão no centro dessa história.
Ana Carolina Garcia Berg de Marco
Ferrovia que liga Varginha a Barra Mansa e Angra pode mudar de dono





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