Tráfico de armas: 8 em cada 10 fuzis apreendidos no Rio vêm dos EUA
Foto: Reprodução – Agência Brasil
Estado do Rio – O promotor de Justiça de São Paulo Lincoln Gakyia foi direto ao ponto: “Nós chegamos ao fundo do poço. Temos hoje 30% do nosso território ocupados pelo crime organizado. É hora de todos os governos, independentemente de partidos, entenderem que cada um tem uma parcela de responsabilidade.” A declaração resume um debate que vai muito além das fronteiras — e que tem endereço conhecido: os Estados Unidos.
Dados da Polícia Federal e de pesquisas independentes estimam que 80% das armas estrangeiras que chegam ao Brasil têm origem nos EUA. Os outros 20% provêm de países como Alemanha, Bélgica, Áustria e Israel.
No Rio de Janeiro, o quadro é ainda mais revelador. A grande maioria das armas irregulares apreendidas no estado em 2024 são estrangeiras — apenas 22 dos 725 fuzis apreendidos foram fabricados no Brasil. Dessas armas estrangeiras, 80% vieram dos Estados Unidos, e os outros 20% de países como Alemanha, Bélgica, Suíça, Geórgia, Turquia e Romênia.
O negócio que financia o crime
O modelo mais lucrativo e difícil de rastrear opera por meio da importação de peças avulsas — as chamadas ghost guns. Um kit de componentes para montagem de um fuzil no padrão AR, comprado nos Estados Unidos por cerca de mil dólares, é montado por armeiros a serviço das facções e vendido no mercado ilegal brasileiro por até dez mil dólares — margem de lucro de 900%.
O estudo da PM fluminense aponta que muitos fuzis chegam ao Brasil em peças avulsas compradas nos EUA por cerca de R$ 6 mil. Ao serem montados por armeiros no país, são vendidos para facções criminosas por aproximadamente R$ 50 mil.
As rotas de entrada
As fronteiras com o Paraguai e a divisa da Amazônia com Peru, Colômbia e Venezuela são as principais portas de entrada de armamentos estrangeiros no Brasil. O Paraguai, embora não seja país de produção bélica, aparece há décadas como um dos principais fornecedores ao mercado criminoso brasileiro, com cidades como Ciudad del Este, Salto Del Guairá e Pedro Juan Caballero servindo como pontos de venda. Além da fronteira terrestre, parte do arsenal chega via Sedex, encomendas postais e até por via aérea e marítima.
A resposta do Estado
O Brasil iniciou operação conjunta com Washington para bloquear esse fluxo, ativando troca de inteligência em tempo real com a agência americana CBP, permitindo identificar cargas suspeitas antes mesmo de chegarem ao território nacional. Mas o especialista em segurança Leandro Piquet avalia que a resposta ainda é insuficiente: “A resposta profunda do Estado brasileiro precisa ser construída a partir do entendimento sobre as intenções e sobre diálogo. Não houve nenhum açodamento na resposta de instituições fundamentais do Estado brasileiro diante dessa situação.”
O estudo demonstra ainda a conexão direta entre a flexibilização do mercado legal de armas no Brasil e o aumento da oferta no mercado ilegal: entre o final de 2018 e 2022, o número de armas registradas para civis passou de 1,3 milhão para 2,9 milhões, e o desvio para o tráfico cresceu na mesma proporção.
Para o promotor Lincoln Gakyia, o caminho é um só: “É hora de o Brasil entender que o culpado disso tudo somos nós. Cada um precisa resolver.”
A Dutra como rota do armamento: como as armas chegam ao Rio de Janeiro
A Rodovia Presidente Dutra é muito mais do que o principal eixo viário entre São Paulo e Rio de Janeiro. Para o crime organizado, ela funciona como uma das principais artérias de abastecimento de armamento ilegal do país.
As armas que entram pelo Paraguai ou chegam desmontadas pelos Correios e pelo porto de Santos seguem por caminhões de carga, veículos de passeio e até em compartimentos ocultos de ônibus interestaduais. O carregamento percorre o interior de São Paulo e entra no Estado do Rio pela região do Vale do Paraíba, cruzando cidades como Itatiaia, Resende, Porto Real, Barra Mansa e Volta Redonda antes de seguir por Piraí e descer em direção à Baixada Fluminense — onde o Comando Vermelho e outras facções iniciam o processo de distribuição para as comunidades da capital e da região metropolitana.
O sul fluminense, nesse contexto, não é apenas passagem. É zona de triagem, armazenamento temporário e redistribuição. Fontes de segurança pública apontam que veículos com fundo falso, cargas de alimentos, materiais de construção e até mudanças residenciais já foram utilizados para transportar pistolas, fuzis e munições pela rodovia.
A fiscalização na Dutra enfrenta um desafio estrutural: o volume de veículos é imenso e a inteligência, fragmentada entre Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil estadual e Polícia Militar. A integração entre essas forças — defendida pelo promotor Lincoln Gakyia em seu apelo por um pacto nacional — é apontada como o principal gargalo no combate a essa rota.
Mayra Gomes
Tráfico de armas: 8 em cada 10 fuzis apreendidos no Rio vêm dos EUA


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