Venda da siderurgia da CSN elevaria riscos para o grupo e para Volta Redonda

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Foto: Divulgação

Volta Redonda – A sinalização feita no início de janeiro pelo presidente do Grupo CSN, Benjamin Steinbruch, de que a companhia pode colocar ativos à venda para reduzir o endividamento reacendeu no mercado a hipótese de alienação parcial ou total do negócio de siderurgia da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). A discussão, tratada até aqui sob a ótica financeira, traz uma série de riscos concretos tanto para a estrutura do grupo quanto para a economia de Volta Redonda, município historicamente ligado à operação do aço. O assunto voltou a tomar conta do noticiário após uma reportagem do jornal Valor Econômico publicada na última segunda-feira (26). No entanto, o Diário do Vale já havia publicado uma reportagem exclusiva, na edição n° 10.939 do dia 16 de janeiro, quando o grupo anunciou que iria colocar parte dos ativos à venda.

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Especialistas do setor industrial e financeiro ouvidos pelo Diário do Vale, sob condição de anonimato, apontam que a venda da siderurgia não é apenas uma decisão de portfólio, mas um movimento com impactos diretos sobre emprego, arrecadação, logística, cadeia produtiva e estabilidade econômica regional.

Com a especulada saída da siderurgia, a CSN ficaria mais concentrada em CSN Mineração e CSN Cimentos (à venda). Embora mais rentáveis, esses negócios são altamente sensíveis a ciclos econômicos e preços internacionais.

“A mineração, mesmo com ativos robustos e parceiros estratégicos como a Nippon Steel, é um negócio cíclico. Sem a siderurgia, o grupo perde um amortecedor operacional importante em momentos de queda do minério”, avalia um analista do setor.

A siderurgia é o principal fator de escala que justifica investimentos em ferrovias, portos, contratos de energia e estrutura operacional pesada. Sua venda pode comprometer a diluição de custos fixos e reduzir a eficiência global do grupo.

Especialistas alertam que a venda do aço pode não ser suficiente para resolver, de forma estrutural, a questão da dívida. Parte relevante do endividamento está associada à expansão em mineração e cimentos, o que limita o efeito imediato da alienação da siderurgia.

“Existe o risco de vender um ativo estratégico e ainda assim manter um nível elevado de alavancagem, com um grupo mais frágil do ponto de vista operacional”, afirma um economista ouvido pela reportagem.

Embora o mercado de ações tenda a reagir positivamente a anúncios de venda de ativos no curto prazo, a perda de integração industrial pode afetar a avaliação de longo prazo da companhia, elevando a percepção de risco e a dependência de fatores externos.

A siderurgia é a principal empregadora industrial de Volta Redonda e sustenta uma extensa cadeia de fornecedores, prestadores de serviço e comércio local. A venda ou eventual redução de operações pode resultar em cortes de postos de trabalho e retração econômica.

A operação do aço tem peso significativo na arrecadação de impostos, taxas e contribuições. Qualquer redução estrutural da siderurgia impacta diretamente o orçamento municipal e a capacidade de investimento da prefeitura.

Menor atividade industrial tende a reduzir renda, consumo e circulação de recursos na cidade, afetando setores como comércio, serviços, transporte e construção civil.

Especialistas alertam que a saída da siderurgia pode acelerar um processo de esvaziamento industrial em Volta Redonda, aumentando a dependência do setor público e reduzindo a atratividade da cidade para novos investimentos produtivos.

“A siderurgia não é apenas uma fábrica. Ela organiza o território, o mercado de trabalho e a identidade econômica da cidade. Retirá-la do centro da estratégia é um risco social e urbano relevante”, afirma um especialista em desenvolvimento regional.

A discussão ocorre em um momento de forte atenção do mercado à dívida do grupo CSN e ao desempenho de suas ações. A sinalização de venda de ativos busca responder à cobrança por desalavancagem, mas, segundo analistas, exige cautela na escolha do que será colocado à venda.

“Reduzir dívida é necessário, mas há diferença entre vender ativos periféricos e desmontar o núcleo industrial do grupo. No caso da CSN, a siderurgia é esse núcleo”, resume um consultor ouvido pelo Diário do Vale.

O Diário do Vale entrou em contato com a CSN e até o fechamento desta reportagem, a empresa não havia retornado as mensagens.

adrielly ribeiro

Venda da siderurgia da CSN elevaria riscos para o grupo e para Volta Redonda


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