Primeiro dia da Assembleia da ONU tem embates entre soberania, clima e migração

Por Silas Avila Jr
Nova York – O primeiro dia da 80ª sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, aberto nesta terça-feira (23), trouxe discursos que expuseram as fissuras do sistema internacional. O Secretário-Geral António Guterres soou o alarme sobre a crise global de governança; Donald Trump, em tom nacionalista, atacou políticas climáticas e migratórias; e Luiz Inácio Lula da Silva, no tradicional pronunciamento de abertura do Brasil, defendeu a soberania nacional diante das pressões externas.
O Secretário Geral da ONU António Guterres abriu os trabalhos advertindo que o planeta vive uma “era de perturbação massiva”, com desigualdade crescente, guerras sem solução e instituições multilaterais em declínio. “Os pilares da paz e do progresso estão cedendo”, disse, num apelo por reformas profundas na ONU, em especial no Conselho de Segurança, para refletir o mundo de 2025 e não o de 1945.
Fronteiras, clima e a “agenda globalista”
No púlpito da ONU, Donald Trump adotou um discurso de confronto. O presidente americano criticou duramente as políticas migratórias da Europa, que segundo ele estariam “arruinando países inteiros”, e classificou a mudança climática como “o maior golpe de todos os tempos”. Rejeitou compromissos internacionais em favor de uma política de “América soberana” e atacou o que chamou de “agenda globalista”. Ainda assim, garantiu que os Estados Unidos “apoiam a ONU em 100%”, embora tenha acusado a organização de não contribuir o suficiente para iniciativas de paz lideradas por Washington.
Na sequência, Lula subiu à tribuna no tradicional lugar reservado ao Brasil desde a fundação da ONU. O presidente fez um pronunciamento firme em defesa das instituições brasileiras, criticando sanções impostas por Washington e chamando de “inaceitáveis” os ataques ao Judiciário do país. “O Brasil demonstrou ao julgar uma tentativa de golpe que nossas instituições são sólidas e a democracia é inegociável”, afirmou, em referência ao processo contra Jair Bolsonaro.
O discurso foi recebido com aplausos, sobretudo quando Lula enfatizou que “soberania não se negocia” e que nenhum país pode impor medidas unilaterais contra outro.
O dia do Brasil na ONU
O “dia do Brasil” na Assembleia Geral é uma tradição que remonta às primeiras sessões da organização, quando o país se voluntariou a abrir os debates. Em 2025, esse protagonismo ganhou relevância adicional: o Brasil, na presidência do Mercosul e com papel central no BRICS, aparece como voz do Sul Global em contraponto direto às potências ocidentais.
os bastidores, chamou atenção o breve encontro entre Lula e Trump, marcado por um abraço e a promessa de uma reunião bilateral. O gesto sugere que, apesar das divergências públicas, ambos ainda mantêm canais de diálogo.
Os discursos de abertura expuseram de forma cristalina a disputa de narrativas no cenário internacional. De um lado, Guterres e Lula defenderam multilateralismo, soberania e instituições fortes; de outro, Trump reforçou sua visão de nacionalismo econômico e rejeição de políticas climáticas e migratórias globais.
Para o Brasil, o momento serviu tanto como afirmação de liderança internacional quanto como demonstração de resistência a pressões externas. O desafio será transformar essa retórica em influência real nos debates que seguem ao longo da semana, em um cenário no qual a ONU tenta provar que ainda pode ser palco de soluções coletivas para crises que não conhecem fronteiras.
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Vivian Costa e Silva
Primeiro dia da Assembleia da ONU tem embates entre soberania, clima e migração

