PF afirma que 95% das crianças têm celular e 70% não são monitoradas pelos pais
Rio de Janeiro – O uso da internet sem supervisão por crianças tem acendido um alerta entre autoridades e especialistas no Rio de Janeiro. Dados apresentados pela Polícia Federal revelam um cenário preocupante de exposição precoce e falta de acompanhamento familiar no ambiente digital. Segundo a instituição, cerca de 95% das crianças de até 12 anos já têm acesso a smartphones — próprios ou dos pais —, enquanto 70% dos responsáveis não monitoram o conteúdo acessado. A revelação foi feita durante debate sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes, especialmente no ambiente virtual, onde podem estar mais vulneráveis a crimes como aliciamento, exploração e exposição a conteúdos inadequados. Com base nos dados, a Comissão de Defesa da Criança, do Adolescente e da Pessoa Idosa da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) vai oficiar o Poder Executivo para garantir o cumprimento da Lei 7.550/17, que determina a elaboração periódica de estatísticas sobre a violência contra crianças e adolescentes no estado. A medida foi anunciada na quarta-feira (18) pelo presidente da comissão, deputado Munir Neto (PSD), durante audiência pública que discutiu o tema “Infância e Adolescência em Risco: o Panorama do Abuso e Exploração Sexual no Estado do Rio de Janeiro”. Segundo o parlamentar, mais do que criar novas normas, é essencial assegurar a efetividade das leis já existentes. “A Comissão tem atuado com firmeza, não apenas promovendo debates, mas também elaborando projetos de lei. No entanto, mais importante do que propor novas legislações é garantir que as que já existem sejam cumpridas”, afirmou. Munir Neto destacou ainda que a produção de dados confiáveis é fundamental para orientar políticas públicas mais eficazes. “Sem informação, não há como enfrentar o problema com a seriedade e a urgência que ele exige. Os casos aumentam e se tornam cada vez mais graves, como vimos recentemente em episódios em Copacabana e em Realengo”, disse. Os especialistas destacam que a falsa sensação de segurança dentro de casa contribui para ampliar os riscos, já que o ambiente digital rompe barreiras físicas e permite contato direto com desconhecidos. A ausência de supervisão também dificulta a identificação precoce de situações de violência. O tema reforça a necessidade de maior conscientização por parte das famílias, além do fortalecimento de políticas públicas voltadas à educação digital e à proteção de crianças e adolescentes. Autoridades recomendam que pais e responsáveis acompanhem de perto o uso de dispositivos, estabeleçam limites e utilizem ferramentas de controle parental como forma de reduzir os riscos no ambiente online.
DESAFIOS
Um dos principais desafios no enfrentamento à violência contra crianças e adolescentes no Rio de Janeiro é a subnotificação dos casos. A avaliação é do professor da PUC-Rio, Antônio Carlos de Oliveira, que aponta um cenário preocupante de invisibilidade das ocorrências. Segundo o pesquisador, que lidera o grupo do CNPq “Famílias, Violência e Políticas Públicas”, há uma grande discrepância entre os casos registrados e a realidade. “Há estimativas de que, para cada caso notificado, existam cerca de 20 que não chegam ao conhecimento das autoridades. Apesar dos avanços, como o Disque 100, ainda há muito a ser feito”, afirmou. A declaração foi feita durante debate sobre o cenário da violência infantojuvenil no estado, que reuniu especialistas e autoridades para discutir medidas de enfrentamento ao abuso e à exploração sexual. O dado reforça a necessidade de aprimorar mecanismos de denúncia, acolhimento e proteção às vítimas. Especialistas destacam que, embora ferramentas como o Disque 100 tenham ampliado o acesso às denúncias, fatores como medo, falta de informação e fragilidade na rede de proteção ainda contribuem para a subnotificação. O tema tem mobilizado o poder público e entidades da sociedade civil, que defendem o fortalecimento de políticas públicas e a efetiva aplicação das leis já existentes como caminhos para reduzir a violência e ampliar a proteção de crianças e adolescentes. A defensora pública e coordenadora da Coordenadoria de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cdedica), Clara Rafaela, reforçou a importância da iniciativa. “É fundamental que o Estado produza e divulgue dados anuais sobre a violência que atinge crianças e adolescentes. Isso é essencial para o planejamento e a atuação da Defensoria”, destacou. Para o professor da PUC-Rio e líder do Grupo de Pesquisa do CNPq “Famílias, Violência e Políticas Públicas”, Antônio Carlos de Oliveira, a subnotificação ainda é um grande desafio. “Há estimativas de que, para cada caso notificado, existam cerca de 20 que não chegam ao conhecimento das autoridades. Apesar dos avanços, como o Disque 100, ainda há muito a ser feito”, explicou. A presidente da Associação dos Conselheiros Tutelares do Estado do Rio de Janeiro (Acterj), Nailá Cristina, defendeu a integração entre os órgãos que atuam na proteção da infância. “Não há como falar em garantia de direitos sem considerar o papel dos conselheiros tutelares. É preciso união entre todas as instituições”, afirmou. O delegado da Polícia Federal Clayton Bezerra alertou para os riscos do uso da internet sem supervisão. “Cerca de 95% das crianças de até 12 anos já têm acesso a smartphones, próprios ou dos pais, e 70% dos responsáveis não monitoram o que os filhos acessam. Muitos acreditam que, por estarem em casa, estão seguros, mas isso é um equívoco”, ressaltou. Já a delegada Maria Luiza Machado, da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), destacou a relevância do debate. “É um tema extremamente importante e que deve ser tratado de forma apartidária. A sociedade precisa estar unida para enfrentar esse problema”, concluiu.
Vinicius
PF afirma que 95% das crianças têm celular e 70% não são monitoradas pelos pais


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