Espaço é mais nocivo ao cérebro do que pensávamos

O Espaço é um lugar hostil e vai tentar te matar o tempo todo, mas não é sensato que permaneçamos todos reunidos em um só lugar; a colonização de planetas próximos não é uma curiosidade, mas uma necessidade e salvaguarda a longo prazo.

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Veja um cérebro tomando decisões em tempo real

Cientistas estudam há tempos os efeitos de uma permanência sustentada de humanos em ambientes com microgravidade, ou em zero-G; astronautas que ficam na ISS por períodos longos, por exemplo, sofrem perda de densidade óssea e apresentam alguns problemas de equilíbrio, problemas revertidos quando voltam à Terra. Mas o que poderia acontecer se ficarmos fora por anos, ou indo além, com futuros colonos nascidos no Espaço?
Em Perdido em Marte, Mark Watney passou um ano e meio no planeta vermelho; na vida real, a experiência deixaria marcas profundas em seu cérebro (Crédito: Tomer Hanuka/The New Yorker)
Agora, um novo estudo realizado levantou uma nova preocupação, ao constatar que o cérebro de astronautas se moveu do lugar e chegou a mudar de forma, o que pode causar efeitos negativos prolongados.
Espaço mexe com seu cérebro
O artigo publicado na PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences) detalha exames realizados via ressonância magnética em 26 astronautas, antes e após missões no Espaço, que foram comparados aos de 24 indivíduos do grupo de controle, que passaram 60 dias em uma posição de repouso, com a cabeça em uma posição de 6 graus para baixo (não 24/7, claro).
O que já se sabia, é que os miolos de astronautas que em ambientes com pouca ou nenhuma gravidade, o cérebro tende a se deslocar alguns milímetros para cima na caixa craniana, mas os dados comparados na nova pesquisa, que reuniu profissionais de neurociência e fisiologia da Universidade da Flórida, da NASA e do Centro Aeroespacial da Alemanha, desenhou um cenário um pouco mais detalhado, e preocupante.
Em ambos cenários o cérebro se deslocou novamente para cima, mas o dos astronautas se moveu um pouco mais, com o córtex motor suplementar, parte responsável por controlar o movimento, subindo 2,5 mm naqueles que completaram missões longas, de cerca de um ano em órbita.
Como se não bastasse, o órgão faz um verdadeiro estica-e-puxa e viva a festa da Xuxa na cabeça, indo de um lado para outro, girando levemente, e com a parte superior e posterior se comprimindo contra a parede interna do crânio, enquanto outras áreas acabam se expandindo; o cérebro muda de forma e se reassenta dentro da cabeça, o que obviamente causa alguns efeitos desconcertantes.

Embora 2,5 mm pareçam pouca coisa, o cérebro é um órgão bastante sensível e qualquer desvio pode acarretar consequências severas. Astronautas que passaram mais tempo em missões no Espaço sofrem com problemas relacionados ao equilíbrio e coordenação, que perduram de acordo a quanto tempo o indivíduo permaneceu em um ambiente com gravidade baixa ou nula; o cérebro tende a voltar ao formato e posição originais, e os sintomas desaparecem.
No entanto, a pesquisa constatou que nos astronautas que ficaram por mais tempo na ISS, os miolos podem levar até 6 meses para se realocarem, e algumas das mudanças constatadas perduraram até além da conclusão do estudo, levantando a possibilidade que alguns dos danos podem não ser fáceis de reverter, ou mesmo serem permanentes, ainda que não causem sequelas mais graves.
Lembre-se, estamos falando de astronautas que ficam fora da Terra por alguns meses, um ano no máximo; ninguém nunca bateu o recorde do cosmonauta russo Valeri Polyakov, que permaneceu 437 dias a bordo da Estação Espacial Mir em uma única missão, que foi extensamente estudado sobre os efeitos de uma permanência de longo prazo no Espaço.
O estudo levanta preocupações relevantes quanto a futuras missões de longo prazo; uma tripulada rumo a Marte, por exemplo, consome 9 meses na viagem de ida e mais 9 para voltar, usando tecnologias disponíveis hoje, além do tempo de estadia; missões de larga escala, como planos para estabelecer colônias permanentes no planeta vermelho ou na Lua, ou em estações espaciais, teriam que levar em conta os efeitos da microgravidade no cérebro e a extensão dos danos, ainda que não sejam letais.
Ao mesmo tempo, a pesquisa também abre um espaço para a velha questão envolta em futuras colônias, de como humanos nascidos no espaço, convivendo desde cedo com gravidade baixa ou zero, seriam em comparação aos nascidos em ambientes como a Terra, naturais ou simulados, mas claro, nossas capacidades tecnológicas ainda precisam evoluir bastante para tal.
Em todo caso, são perguntas válidas que devem ser levadas em conta em futuros estudos, a fim de garantir o bem-estar de astronautas, e de quem sabe, de colonos espaciais em um futuro distante.
Referências bibliográficas
WANG, T., ODOR, R. J., DE DIOS, Y. E. et al. Brain displacement and nonlinear deformation following human spaceflight. PNAS, 12 de janeiro de 2026.
DOI: 10.1073/pnas.2505682122
Fonte: ExtremeTech
Espaço é mais nocivo ao cérebro do que pensávamos

Redação
https://www.resende.com.br/2026/03/20/espaco-e-mais-nocivo-ao-cerebro-do-que-pensavamos/

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