Com uso de IA, ‘golpe do falso advogado’ cresce no estado


O número de golpes cometidos por estelionatários que se passam por falsos advogados continua em crescimento no Rio. A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) registrou 630 denúncias sobre a fraude, somente neste ano. A quantidade de casos tem chamado a atenção das autoridades, que criou uma força-tarefa nos últimos meses para mapear a ação dos criminosos. A reportagem é do jornal O Dia

Para aplicar o golpe, os criminosos se valem de informações públicas disponíveis em processo judiciais das vítimas. Com esses dados, eles criam contas falsas em aplicativos de mensagens ou redes sociais e fingem que são advogados, forjando documentos para “comprovar” a identidade.

Após o contato, os golpistas convencem as vítimas a realizar transferências via Pix, alegando pagamentos e a agilização do processo. Transferida a quantia, os criminosos não retornam mais o contato com o cliente.

A presidente da OAB-RJ, Ana Tereza Basílio, demonstrou preocupação com o aumento das queixas e com a sofisticação dos golpes, que já utilizam Inteligência Artificial (IA) para enganar as vítimas.

“Nós estamos achando que, cada vez mais, o número de denúncias tem aumentado e a fraude está ficando mais sofisticada. Em Volta Redonda, por exemplo, o fraudador conseguiu, pela IA, requerer depósitos indevidos. Está cada vez mais sofisticado e está se espalhando pelo Brasil todo. Nós levamos o assunto ao Tribunal de Justiça do Rio e ao Ministério Público do Rio”, afirmou.

Vítimas dos golpistas detalham abordagem

Uma idosa no Rio de Janeiro foi vítima de um golpe em que criminosos se passaram por uma advogada da família em maio deste ano. Os golpistas entraram em contato com o marido da vítima, alegando que não conseguiram falar com a mulher dele. Como o mesmo havia sido testemunha em um processo, acreditou na abordagem. Em seguida, os falsos advogados falaram com a idosa pelo mesmo número e passaram detalhes sobre a suposta ação judicial, incluindo valores e movimentações.

A filha, que trabalha em home office, só suspeitou mais tarde, pois acreditava que a mãe havia falado com a verdadeira advogada por mensagem de voz, o que não aconteceu. Confiando na situação, ela realizou dois Pix, totalizando R$ 10.600, a pedido da mãe, que não tem costume de fazer transferências.

“Como a minha mae me disse que havia falado com a advogada, eu estava tranquila com a conversa entre eles, então quando ela me pediu que fizesse o Pix, pois não tem costume de fazer, eu fiz pela conta dela e voltei a trabalhar. Pouco tempo depois ela me pediu pra fazer outro, porque tinha outra documentação a ser paga, e eu fiz novamente o segundo valor”, relata a filha da idosa

Somente no fim do dia, ao ver uma publicação da advogada verdadeira alertando sobre golpes, a filha percebeu a fraude. Ela questionou a mãe novamente e descobriu que toda a comunicação havia sido feita por texto. Após isso, solicitou o Mecanismo Especial de Devolução (MED) no banco e registrou um boletim de ocorrência online, mas o valor já havia sido retirado da conta do golpista. O criminoso ainda tentou pedir mais dinheiro nos dias seguintes, usando outros nomes e fotos de possíveis novas vítimas.

Já as atrizes Suzy Rêgo, conhecida por interpretar Carmem na novela A Viagem (1994), e Aline Campos denunciaram em suas redes sociais que quase foram vítimas do golpe.

Suzy relatou, na última sexta-feira (11), que criminosos se passaram por sua equipe jurídica e tentaram obter seus dados pessoais com a justificativa de que ela teria vencido uma ação na Justiça. “No final da tarde de sexta, golpistas tentaram se passar pela equipe de advogados com quem eu trabalho há tempos”, afirmou. Segundo ela, os golpistas alegavam que ela receberia uma quantia expressiva de dinheiro e que seria necessário um procedimento para viabilizar o pagamento.

A atriz contou que começou a desconfiar ao perceber que o suposto advogado sequer aparecia na imagem da videochamada. “Eles queriam acessar o aplicativo do meu banco. Por alguns segundos, eu entrei, mas meus anjos de luz disseram: ‘Sai que é golpe’.”

Suzy também disse ter ligado imediatamente para seu advogado, que confirmou se tratar de uma tentativa de golpe. “Ele falou: ‘Sai disso! Eles fazem isso toda sexta-feira à tarde porque sabem que você fica sem defesa’”, completou.

Aline Campos também foi alvo de criminosos em uma abordagem semelhante, ocorrida em maio deste ano. Assim como Suzy, ela recebeu mensagens de pessoas que se passavam por seu escritório de advocacia em uma tarde de sexta-feira, afirmando que um processo havia sido vencido.

“Eles mandaram a petição, tudo certinho, e falavam comigo com educação, como se fossem realmente da equipe”, contou. Segundo Aline, os golpistas agendaram uma videochamada na qual um suposto promotor orientou que ela compartilhasse a tela do celular e abrisse o aplicativo do banco.

“Comecei a achar estranho, mas mesmo assim cliquei. Só que meu banco não abre se estou em uma videochamada e eu me salvei por isso”, disse. Após o episódio, ela entrou em contato com sua advogada e teve a confirmação de que se tratava de um golpe.

O advogado Daniel Franklim, de 27 anos, teve seus dados usados por um criminoso, que chegou a fazer uma chamada de vídeo com um cliente se passando como membro de seu escritório. “Um cliente chegou a fazer um Pix de R$ 5 mil para o fraudante. Esse cliente falou que o golpista entrou em contato se passando por mim, enviou o número de uma outra pessoa dizendo que era um advogado do meu escritório, fizeram vídeochamada, esse advogado se passando por ser do meu escritório conversou com meu cliente dizendo que tinha saído o mandado de pagamento e deu a chave Pix. Meu cliente fez. Só que, como eu falei imediatamente, ele conseguiu o estorno através do próprio sistema do banco central. Se não fosse possível, ia gerar um problema danado”, conta.

Qualquer pessoa consegue acessar dados processuais, pois eles são públicos. Para o advogado, a publicidade acaba tendo seu lado negativo, como o uso para fins maliciosos.

“Eu entrei em contato com todos os meus clientes e todos relataram que receberam mensagens com a cópia da inicial do processo, com os documentos deles. O fraudante tem acesso ao token, utilizado para acessar os processos eletrônicos. Se encontrar algum meio de entrar em contato com o cliente, ele manda mensagem informando que saiu um determinado valor – geralmente o valor da causa – e que para sacar precisaria de 10%, vamos supor assim. Ou até de um outro valor para expedir o mandado de pagamento”, destaca.

O advogado registrou o caso na delegacia da Polícia Federal de Niterói, na Região Metropolitana, além de ter comunicado o fato à seccional da cidade.

Combate ao crime

Em nota, a OAB-RJ informou que vem interagindo com o Ministério Público do Rio (MPRJ), com as subseções da própria seccional e com o Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ), cruzando dados para ajudar na identificação desses criminosos. Um grupo de trabalho foi criado e na Corregedoria da Ordem, há 52 delegados tratando esse assunto.

A Ordem recomenda que os advogados instruam seus clientes a se comunicarem exclusivamente pelos canais oficiais do escritório ou da própria defesa, como e-mail ou número de WhatsApp, já que parte dos casos ocorre quando os golpistas usam a foto do advogado e associam a um número falso.

A presidente da OAB-RJ também lista outras dicas para evitar cair no golpe. “A primeira dica aos advogados é que eles troquem a senha do token usado para peticionar os processos judiciais, e a troquem toda semana. O próprio TJRJ alertou que há hackers entrando por esse token, muitas vezes sem que o advogado sequer perceba. Outra recomendação para a sociedade: não faça nenhum pagamento sem confirmar com o advogado, pessoalmente ou verbalmente, garantindo que a pessoa esteja devidamente identificada”, orienta Ana Tereza.

A própria entidade dos advogados também faz outros alertas. “É imprescindível que o cliente saiba quais são os meios de contato legítimos do escritório ou do profissional que o representa. Clientes devem ser orientados a nunca realizar pagamentos ou transferências sem antes confirmar diretamente com o escritório ou o profissional, preferencialmente por telefone. Essa simples precaução evita que as pessoas caiam neste tipo de golpe”, explica a OAB-RJ.

Para enfrentar o problema, Conselho Federal da OAB lançou recentemente uma campanha contra o golpe do falso advogado e desenvolveu a plataforma ConfirmADV, que oferece ao cliente a possibilidade da verificação da identidade dos profissionais da advocacia em poucos segundos. O serviço é válido para todo Brasil.

Basta acessar o site, informar o número de inscrição do profissional na Ordem, o estado de registro e o e-mail informado pelo suposto advogado ou advogada. Após o preenchimento desses dados, uma solicitação será enviada para o e-mail do advogado, avisando que o cliente deseja confirmar sua identidade. Caso a confirmação seja feita, o cliente também será notificado.

Fiscalização

Questionado, o TJRJ destacou que atua permanentemente no combate a fraudes e que toma as medidas cabíveis necessárias quando identifica irregularidade ou atuação suspeita de partes ou advogados.

“Os sistemas de tramitação de processos judiciais eletrônicos estão aparelhados com ferramentas de registro e rastreio de acessos aos dados públicos e vem trabalhando em parceria com as instituições competentes, como a OAB/RJ e o Ministério Público, para identificar os autores desses tipos de crimes e assegurar sua responsabilização”, ressalta a nota.

De acordo com o TJRJ, a garantia constitucional da publicidade dos atos processuais está prevista na Constituição da República e segue as diretrizes administrativas do Conselho Nacional de Justiça, que estabelece regras para consulta de processos pela população em geral e pelos operadores do Direito.

Já a Polícia Civil destacou que todas as ocorrências registradas são investigadas, a fim de identificar e responsabilizar criminalmente os autores.

The post Com uso de IA, ‘golpe do falso advogado’ cresce no estado appeared first on Tribuna Sul Fluminense.

André Aquino

Com uso de IA, ‘golpe do falso advogado’ cresce no estado