Saiba como as bets deixaram dívidas e adoeceram brasileiros

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
As apostas online cresceram no país e passaram a ser associadas a problemas financeiros e de saúde

Brasília – As apostas online provocaram perdas bilionárias para as famílias brasileiras e passaram a ser associadas a problemas de endividamento e saúde mental. Somente em 2025, os brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões com as bets, segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz). O valor corresponde à diferença entre o total apostado e os prêmios devolvidos.

O cenário levou o governo federal a editar, em 25 de setembro, a Medida Provisória 1.394, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país. A medida também alcança apostas esportivas e jogos online.

Perdas bilionárias

De acordo com os dados do Comsefaz, as perdas das famílias representaram 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta. Entre outubro de 2024 e março de 2026, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações por Pix, segundo o levantamento citado pela Agência Brasil.

Um estudo da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP) também apontou efeitos sobre o consumo. A pesquisa estimou que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025.

Endividamento e dependência

Os impactos, porém, ultrapassam as perdas financeiras. Especialistas ouvidos pela Agência Brasil relatam casos de pessoas que comprometeram renda, patrimônio e relações familiares em razão da dependência.

Um dos relatos é o de um homem de 42 anos, identificado por nome fictício, que perdeu o carro, a casa e o emprego e acumulou dívidas com agiotas. Atualmente, ele vive sozinho no interior de Goiás e procurou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), onde passou a participar de grupos terapêuticos e consultas médicas.

A psiquiatra Katia Branco, do Grupo Pro-Amiti, do Hospital das Clínicas de São Paulo, afirma que pessoas em situação de vulnerabilidade estão entre as mais suscetíveis ao desenvolvimento de problemas relacionados ao jogo. Segundo ela, anúncios que apresentavam as apostas como uma possível forma de complementar a renda contribuíram para aumentar a exposição ao risco.

Apostas chegaram aos adolescentes

O avanço das bets também atingiu os mais jovens. Uma pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio afirmaram ter feito apostas online no último ano.

Entre estudantes de 11 anos, 9,5% disseram já ter apostado. Especialistas alertam que adolescentes estão mais suscetíveis ao comportamento impulsivo porque áreas do cérebro relacionadas ao controle dos impulsos e à avaliação de riscos ainda estão em desenvolvimento.

Saúde mental preocupa especialistas

Profissionais de saúde relatam entre os apostadores sinais como ansiedade, isolamento, desesperança, aumento do consumo de álcool e mudanças de comportamento.

Em situações mais graves, os prejuízos financeiros e a dependência podem estar relacionados a pensamentos de morte e tentativas de suicídio, segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil.

A rede pública de saúde também registrou aumento da procura por atendimento relacionado à dependência em apostas. Nos últimos cinco anos, houve crescimento de 140% na busca por atendimento no SUS associado ao problema. Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estimou em R$ 30,6 bilhões anuais o impacto financeiro dos danos à saúde relacionados às apostas.

Regulamentação durou poucos anos

As apostas de quota fixa foram autorizadas pela Lei 13.756, de 2018. A regulamentação, no entanto, só ocorreu em dezembro de 2023, quando foram estabelecidas regras para o funcionamento das plataformas.

Entre as exigências estavam medidas de proteção aos apostadores, incluindo alertas sobre os riscos dos jogos e mecanismos destinados a usuários com comportamento compulsivo. A reportagem da Agência Brasil ouviu especialistas que questionaram a efetividade dessas medidas.

Fim das operações

A MP 1.394 determina o fim das operações de apostas de quota fixa no país. Desde a publicação da medida, novos depósitos nas plataformas estão proibidos. Os apostadores têm até 5 de outubro, às 23h59, para retirar voluntariamente os valores disponíveis.

Os sites e aplicativos deverão sair do ar a partir de 6 de outubro. Entre os dias 7 e 8, as empresas deverão informar aos bancos os saldos remanescentes vinculados aos CPFs dos usuários. A devolução deverá ocorrer entre 9 e 14 de outubro. Em casos de impedimento, a Caixa Econômica Federal poderá intermediar o pagamento.

O Ministério da Saúde informou que também pretende ampliar as ações de acompanhamento de pessoas com comportamento problemático de jogo. Segundo o ministro Alexandre Padilha, a estratégia inclui busca ativa e oferta de atendimento em saúde mental.

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Carol Berg

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