Do Chuí ao Oiapoque: Diogo cruza o Brasil de caiaque e chega à Costa Verde

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Costa Verde -Quando Diogo Henrique Aguiar decidiu atravessar o litoral brasileiro de caiaque, havia um detalhe que tornava o desafio ainda maior: ele praticamente não tinha experiência em canoagem. Mineiro de Diamantina, criado em Contagem, o ex-motorista decidiu mudar completamente de vida para realizar um antigo sonho: viajar, conhecer pessoas e descobrir o Brasil de uma maneira diferente.

Mais de um ano depois de iniciar a jornada no extremo Sul do país, a aventura chegou à Costa Verde do Rio de Janeiro. Depois de permanecer cerca de uma semana em Paraty, Diogo se prepara para seguir pelo litoral em direção a Angra dos Reis e Ilha Grande, antes de avançar para a cidade do Rio de Janeiro.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Vale, o aventureiro contou como nasceu o projeto, relembrou os momentos em que pensou não ter recursos para continuar e revelou como uma expedição inicialmente concebida como um grande desafio pessoal acabou se transformando também em uma viagem de encontro com brasileiros que vivem realidades completamente diferentes ao longo da costa.

O sonho nasceu antes do caiaque

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Diogo nasceu em Diamantina, mas mudou-se ainda criança para Contagem, onde passou a maior parte da vida. Trabalhou como motorista e chegou a cursar Gestão da Qualidade. Também criou, ao lado de familiares e de um amigo, uma empresa de ecoturismo que promovia trilhas, acampamentos e visitas a cachoeiras. O negócio perdeu força durante a pandemia. Mas a vontade de viajar era muito anterior.

“Desde criança, meu pai me colocava no ônibus em Belo Horizonte e eu ia para o interior de Minas para passar minhas férias. Então eu já viajava sozinho desde criança e isso sempre ficou dentro de mim”, contou. Com o passar dos anos, aquele desejo virou projeto.

“A ideia é desde jovem, de viajar bastante, de conhecer o mundo. Com o crescimento dos viajantes no mundo e das redes sociais, o meu sonho também ficou sendo viver de viagem”, afirmou.

O plano original sequer envolvia um caiaque. Diogo imaginava atravessar regiões do Brasil pedindo carona, transformando o percurso em uma espécie de desafio acompanhado pelas redes sociais. Depois pretendia viajar para a França.

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A vida, porém, mudou o roteiro.

Em 2024, vendeu seus pertences, devolveu a casa alugada, deixou o carro com a mãe e embarcou para a França, onde permaneceu três meses. Foi durante essa experiência que percebeu que seu objetivo não era se estabelecer em outro país, mas continuar viajando.
Voltou ao Brasil e foi para Ubatuba, onde sua irmã morava e trabalhava com venda de sorvetes. Diogo também passou a trabalhar na praia enquanto tentava descobrir como colocaria seu antigo projeto em prática.

“Se não der, eu vou fazer dar”

A resposta apareceu na areia. Um amigo, Ricardo Bianelli, trabalhava com aluguel de caiaques. Diogo experimentou uma embarcação e gostou. Alguns dias depois, começou a imaginar até onde seria possível chegar remando.
“Eu andei de caiaque aqui, será que dá para ir longe de caiaque?”, recordou.

A dúvida rapidamente virou decisão. Diogo contou ao amigo que havia encontrado a maneira como faria sua grande viagem.
“Ele perguntou: ‘De quê?’. Eu falei: ‘De caiaque’. Ele falou: ‘E dá?’. Eu falei: ‘Não sei, vou pesquisar depois. Se não der, eu vou fazer dar’.”

Foi pesquisando que encontrou a história do brasileiro Adelson Carneiro, que já havia realizado uma longa travessia de caiaque pelo litoral. Diogo resolveu inverter o sentido da viagem: se Adelson havia seguido do Norte para o Sul, ele partiria do Sul rumo ao Norte.

Quando começou a contar o projeto, ouviu inúmeras vezes que aquilo era loucura.
“As pessoas falavam comigo: ‘Você é louco, você vai acabar morrendo’. Eu falava: ‘Não, eu não vou morrer’”, relembrou.

Dois dias de treino para enfrentar o litoral brasileiro

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Talvez um dos aspectos mais surpreendentes da história esteja na preparação.

“A preparação para tudo isso foi pouca, foi quase nada”, admite Diogo.

Antes de partir, ele fez apenas alguns testes. Em um deles, remou cerca de 14 quilômetros. Em outro, percorreu aproximadamente 22 quilômetros entre ida e volta. Também participou de uma pescaria em um dia de mar mais agitado para descobrir se sofreria com enjoo.

Não sofreu.

“Eu falei: estou pronto para ir. E aí juntei as coisas tudo e fui”, contou.
O caiaque foi enviado para a Barra do Chuí. Diogo chegou ao extremo Sul carregando, como ele próprio definiu, “algumas bagagens e um sonho”.

Mas o mar tratou de mostrar rapidamente que a viagem seria muito mais difícil do que os poucos treinamentos em Ubatuba.

O mar não deixou a viagem começar

Na primeira tentativa de partir, o tempo virou. O caiaque capotou e Diogo precisou retornar à areia. Ele decidiu esperar. No dia seguinte, uma névoa intensa cobriu o litoral. Com receio de perder a referência da praia caso uma corrente o levasse para mar aberto, novamente desistiu de sair. Logo começaram a chegar mensagens alertando para a aproximação de um ciclone.

Diogo ainda tentou entrar na água. “Eu vi que ele estava muito mais forte do que no dia anterior. Aí eu falei: ‘Não, não vou arriscar’.”

Vieram vento, chuva e condições severas. A expedição mal havia começado e já estava parada.
Foi também nesse momento que apareceu outro obstáculo que acompanharia Diogo durante boa parte da travessia: a falta de dinheiro.

R$ 7 na conta

Sem condições de continuar acampado naquele ponto, Diogo retornou para uma pousada. O dinheiro estava praticamente no fim. Ele conta que tinha R$ 7 na conta e precisaria de R$ 540 para permanecer hospedado até que o tempo permitisse a partida. Religioso, conta que pediu ajuda a Deus. Pouco depois, começaram a chegar transferências de pessoas que acompanhavam sua história.

“Eu tinha sete reais na conta. A semana daria R$ 540 […] recebi vários Pix e bateu justamente R$ 547 na conta”, contou. Era exatamente o necessário”, contou ao DIÁRIO DO VALE. Diogo conseguiu esperar e finalmente iniciar a travessia.
Mas ainda estava longe de possuir estrutura e conhecimento suficientes para o tamanho do desafio.

“Esse cara vai morrer”

Quando seu nome começou a circular entre grupos de canoístas do Rio Grande do Sul, a reação inicial foi de preocupação. “Um menino louco, aventureiro, sem equipamento, com equipamento errado, indo fazer uma expedição. E o que mais eles falavam: ‘esse cara vai morrer’”, recordou.

O temor tinha razões concretas. Diogo enfrentava o frio do Sul sem roupas apropriadas e utilizava um caiaque que não era indicado para uma expedição daquela dimensão.

Mas a preocupação dos remadores acabou criando uma das características que marcariam a viagem: uma rede de solidariedade formada por pessoas que Diogo nunca havia visto antes.

Um dos primeiros encontros foi justamente com Adelson Carneiro, o aventureiro cuja história havia inspirado o projeto. Ao chegar ao Hermenegildo, Diogo encontrou um homem que já sabia seu nome. Durante a conversa, descobriu que era o próprio Adelson. “Eu olhei para ele e era ele. Eu falei: ‘Caramba, mentira, é você?’. […] ‘Me dá um abraço aqui’”, relembrou.
Adelson recomendou que ele mudasse a rota e atravessasse parte do Rio Grande do Sul pelas lagoas, evitando trechos mais perigosos do oceano. Diogo aceitou.

Três dias sem contato com ninguém

Foi na Lagoa Mirim que o aventureiro começou a compreender a dimensão da escolha que havia feito. “Remei por três dias sem contato com ninguém. Internet não funcionava, só eu e Deus”, contou. Quando finalmente encontrou uma vila de pescadores, sua primeira preocupação foi conseguir internet para avisar à mãe que estava vivo. Até hoje, entre todos os lugares pelos quais passou, Diogo guarda uma relação especial com aquele trecho.

“A Lagoa Mirim é o lugar mais mágico da minha viagem até agora […] porque foi o início de tudo, onde eu superei medo, superei frio, vi o quão forte eu sou e aprendi um pouco do que é remar e um pouco do que é sobrevivência.”

Aprendeu durante a própria expedição

A viagem também se tornou uma escola. Canoístas experientes começaram a ajudá-lo. Diogo recebeu roupas e equipamentos, aprendeu técnicas para enfrentar ondas e teve contato com atletas e instrutores. “Aprendi a remar sozinho nos caiaques que utilizei, até ir conhecendo pessoas, ir melhorando a técnica”, explicou.

A mobilização chegou ao ponto de um grupo tentar conseguir uma embarcação adequada para ele. Com ajuda, descontos e esforço próprio, Diogo conseguiu finalmente o caiaque oceânico que utiliza atualmente.

Mas o equipamento não resolveu outro problema: financiar uma viagem tão longa.
Em dezembro de 2025, já em Santa Catarina, as dívidas fizeram Diogo interromper a expedição. Voltou para Ubatuba e novamente trabalhou vendendo sorvetes para juntar dinheiro.

Depois do Carnaval de 2026, retornou a Santa Catarina, colocou novamente o caiaque na água e continuou subindo o litoral brasileiro.

Mais tarde, quando os recursos voltaram a acabar, uma seguidora decidiu ajudá-lo. Primeiro enviou dinheiro para que pudesse continuar até Ubatuba. Depois, quando soube que Diogo teria de interromper novamente a expedição para trabalhar, pediu o valor da fatura do cartão, pagou a conta e enviou recursos para que ele continuasse remando.

A visibilidade aumentou e chegaram os primeiros patrocínios. Atualmente, segundo Diogo, os apoios financeiros ainda não bancam toda a expedição, mas diminuem a necessidade de novas interrupções.

A chegada à Costa Verde

Depois de superar o litoral do Sul do país e avançar pela costa de São Paulo, a travessia entrou agora em uma etapa especialmente simbólica: o litoral Sul do Estado do Rio de Janeiro.

Em Paraty, Diogo permaneceu cerca de uma semana. Mais do que recuperar o corpo para voltar ao mar, aproveitou a parada para conhecer moradores, se aproximar das comunidades caiçaras e observar uma forma de viver diretamente ligada ao mar e à natureza.

Entre os encontros relatados ao Diário do Vale, um chamou particularmente sua atenção: a convivência com um morador que, por opção, praticamente abandonou a relação convencional com o dinheiro. Ele vive do que consegue produzir e obter por meio da subsistência e do escambo.

Para alguém que saiu do Sul com a intenção de atravessar o país, experiências como essa passaram a ocupar um espaço tão importante quanto os quilômetros percorridos. É justamente aí que a aventura ganha outro significado.
O caiaque permite a Diogo chegar a praias, vilas e comunidades de uma maneira muito diferente de quem simplesmente cruza o litoral pelas rodovias. A velocidade é outra. A relação com as pessoas também.

Depois de Paraty, a próxima etapa será Angra dos Reis e Ilha Grande, onde ele pretende continuar conhecendo comunidades e navegando por um dos trechos mais recortados da costa fluminense. Em seguida, seguirá em direção ao Rio de Janeiro.

“Brasil na essência”

O projeto que nasceu do desejo de viver viajando ganhou uma dimensão maior à medida que Diogo avançou pelo país. Ele quer chegar ao Oiapoque. Mas hoje fala menos sobre simplesmente completar um mapa e mais sobre aquilo que encontra entre a partida e o destino.

“O Brasil tem tanto lugar lindo. A nossa cultura é muito rica, a culinária é muito rica, as pessoas são de coração aberto, muito acolhedoras. Cada região tem suas peculiaridades”, afirmou.

Para ele, a própria história também pode servir para mostrar que grandes projetos não precisam necessariamente começar com todas as condições ideais.

Diogo saiu com pouca experiência, precisou aprender técnicas de canoagem durante a viagem, ficou sem dinheiro, interrompeu a expedição para trabalhar, recebeu ajuda de desconhecidos e retomou o mar.

Agora, ao chegar à Costa Verde, já não é o mesmo aventureiro que ouviu repetidamente que morreria antes de completar o desafio.

E talvez a explicação mais precisa para o que procura esteja nas últimas palavras de sua entrevista ao Diário do Vale:
“Queria mostrar para as pessoas que dá para a gente, enquanto pessoa, fazer coisas grandiosas, viagens legais, conhecer outras pessoas. […] Viver o nosso Brasil. Brasil na essência.”

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Mayra Gomes

Do Chuí ao Oiapoque: Diogo cruza o Brasil de caiaque e chega à Costa Verde


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