Brasil perde 37% das agências bancárias em dez anos

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Dados levantados pelo Dieese a partir de informações do Banco Central mostram que o Brasil perdeu cerca de 37% de suas agências bancárias entre 2015 e 2025

Sul Fluminense – O avanço do Pix, dos aplicativos e do internet banking transformou profundamente a relação dos brasileiros com os bancos. A mudança trouxe rapidez e conveniência para milhões de clientes, mas também acelerou um movimento que agora está no centro da Campanha Nacional dos Bancários de 2026: o encolhimento da rede física de atendimento.

Dados levantados pelo Dieese a partir de informações do Banco Central mostram que o Brasil perdeu cerca de 37% de suas agências bancárias entre 2015 e 2025. A rede, que tinha aproximadamente 22,8 mil unidades, caiu para pouco mais de 14 mil. Nesse período, 638 municípios perderam suas agências. Atualmente, 2.649 cidades brasileiras — cerca de 48% dos municípios — não possuem uma agência bancária.

É justamente esse cenário que aparece na campanha exposta pelo Sindicato dos Bancários do Sul Fluminense. Um dos materiais chama atenção para os “2.649 municípios brasileiros [que] não têm agência bancária”, associando o fechamento das unidades a menos bancários, mais filas, maior demora no atendimento e maior exposição de clientes a golpes pela internet.

O número exige uma distinção importante. Estar sem agência bancária tradicional não significa necessariamente estar completamente sem acesso presencial ao sistema financeiro. Dados do Banco Central mostram a existência de outros canais, como postos de atendimento e correspondentes bancários. Em 2024, 520 municípios dependiam exclusivamente de correspondentes, sem agência nem posto de atendimento.

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Celular domina as operações

Do outro lado dessa transformação está uma mudança de comportamento de dimensões igualmente expressivas.

A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026 mostra que 83% das transações bancárias realizadas no país já passam pelos canais digitais. Somente o celular responde por 78% das operações. Em 2025, os brasileiros realizaram 240,8 bilhões de transações bancárias, das quais 187,5 bilhões pelo mobile banking. Nos últimos cinco anos, as operações pelo celular cresceram 169%.

Os números ajudam a explicar a estratégia das instituições financeiras. Pagamentos, transferências, investimentos, contratação de produtos e até operações antes dependentes de gerentes migraram para os aplicativos.

A própria estrutura tecnológica dos bancos avançou. Segundo a Febraban, 98% das funcionalidades bancárias já estão disponíveis em canais digitais, enquanto o orçamento do setor com tecnologia superou R$ 50 bilhões.

A transformação, portanto, não representa simplesmente uma redução da presença dos bancos. Há uma transferência do atendimento da estrutura física para a infraestrutura digital.

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Quem ainda precisa do banco físico?

É nesse ponto que surge o principal debate econômico e social.

Embora a maior parte das transações tenha migrado para o celular, milhões de brasileiros ainda dependem do atendimento presencial, principalmente idosos, moradores de pequenas cidades e áreas rurais, pessoas com menor familiaridade digital e clientes que precisam resolver operações mais complexas.

Atualmente, estima-se que 19,7 milhões de brasileiros vivam em municípios sem uma agência bancária, o equivalente a cerca de 9% da população. Dez anos atrás, essa proporção era de 3,4%.

Além disso, algumas operações continuam mantendo participação relevante dos canais presenciais. Mesmo diante da expansão digital, cerca de 27% dos pagamentos de contas e 14% das operações relacionadas a investimentos ainda ocorrem presencialmente, segundo dados citados em análise publicada neste ano.

Nas cidades menores, o fechamento de uma agência pode produzir efeitos que ultrapassam o setor financeiro. Clientes precisam viajar para municípios vizinhos, aposentados encontram dificuldades para movimentar benefícios e parte da circulação de dinheiro pode ser transferida para centros urbanos próximos.

Bancários também diminuíram

A redução da estrutura física veio acompanhada de uma transformação no mercado de trabalho.

Dados apresentados pelo movimento sindical apontam que o setor passou de 504.345 bancários em 2015 para 424.021 em 2024, uma redução superior a 80 mil postos de trabalho. Entre 2015 e 2025, foram fechadas, em média, 45 agências por mês no país.

Os sindicatos argumentam que o movimento provoca um segundo efeito: as unidades que permanecem abertas acabam absorvendo parte da demanda das agências fechadas, aumentando a pressão sobre os trabalhadores e podendo ampliar filas e tempo de atendimento.

A discussão ganhou força na Campanha Nacional dos Bancários 2026. Além da defesa do emprego e das agências físicas, a pauta inclui aumento real dos salários, reajustes no vale-alimentação (VA), vale-refeição (VR) e Participação nos Lucros e Resultados (PLR), manutenção dos direitos da Convenção Coletiva de Trabalho, defesa dos bancos públicos, combate às metas consideradas abusivas e participação dos trabalhadores nos ganhos proporcionados pela tecnologia.

Nesta quinta-feira (13), inclusive, representantes dos bancários e dos bancos realizam uma nova rodada de negociação da campanha salarial nacional.

Bancos defendem transformação digital

A visão do setor bancário coloca outra perspectiva sobre o processo. Para a Febraban, a digitalização responde principalmente a uma mudança no comportamento do próprio consumidor e proporciona mais conveniência, rapidez e eficiência.

Dados divulgados pela entidade mostram que as solicitações, reclamações e contatos direcionados aos canais de atendimento bancário caíram 33,3% em quatro anos e 12% somente no último ano analisado. A Febraban relaciona parte dessa redução ao avanço do autoatendimento e dos serviços digitais.

Carol Berg

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