Depois da violência, mulheres ainda enfrentam a dúvida de quem ouve seus relatos

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Foto: Reprodução
Familiares e amigos estão entre as primeiras pessoas a quem muitas vítimas recorrem depois de uma violência

POR DIÁRIO DELAS – “Quando aconteceu comigo, ainda não existia a Lei Maria da Penha. Eu tinha bebido e um homem colocou algo na minha bebida. Contei para pessoas próximas o que tinha acontecido. Uma ’amiga’ disse aos outros que eu era fácil, provavelmente tinha me arrependido e decidi culpar o cara. Depois, ela ainda se relacionou com ele.
É muito duro ouvir isso de outra mulher”.

O depoimento é de Carla*, de 50 anos. “Eu tinha 25 anos. Jamais procurei a Polícia porque me fizeram acreditar que a culpa era minha. Demorei anos para entender que ele era o verdadeiro culpado”, completou em entrevista ao DIÁRIO DELAS, sob condição de anonimato.

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O caso de Carla, embora tenha acontecido no início dos anos 2000, não é único. Ela não conseguiu reagir à violência porque havia sido dopada. Não sabe exatamente o que aconteceu enquanto estava sob efeito da substância. No dia seguinte, percebeu que alguma coisa havia acontecido pela dor que sentia.

O relato também chama atenção para o que acontece antes de uma mulher procurar a polícia. Familiares e amigos estão entre as primeiras pessoas a quem muitas vítimas recorrem depois de uma violência.

Na quinta edição da pesquisa Visível e Invisível – a Vitimização de Mulheres no Brasil, publicada em 2025 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Datafolha, 19,2% das mulheres que sofreram a agressão mais grave nos 12 meses anteriores disseram ter procurado ajuda da família e 15,2% recorreram a amigos. A procura por uma Delegacia da Mulher foi citada por 14,2%. Já 47,4% disseram não ter feito nada.

A mesma pesquisa, realizada em fevereiro de 2025, mostrou que 91,8% das mulheres que sofreram violência disseram que havia alguém presente no momento da agressão. Em 47,3% dos casos, eram amigos ou conhecidos; em 27%, filhos; em 12,4%, outros parentes; e em 7,7%, pessoas desconhecidas. A pesquisa não mede se essas pessoas acreditaram ou não nas vítimas, mas mostra o tamanho da participação da rede de convivência nas situações de violência.

No caso de Carla, a reação de alguém próximo teve consequência concreta: ela não procurou a polícia e levou anos para entender que não era responsável pelo que havia acontecido.

Em crimes sexuais, existe ainda uma dificuldade específica. Muitas vezes, a violência acontece sem testemunhas capazes de relatar o que ocorreu. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) reconhece a especial relevância da palavra da vítima nesses casos, desde que o relato esteja em consonância com os demais elementos de prova. O entendimento foi novamente destacado pelo tribunal em junho de 2026.

A própria Lei Maria da Penha estabelece que mulheres em situação de violência sejam ouvidas de maneira a preservar sua integridade física, psíquica e emocional. A legislação também prevê que sejam evitadas sucessivas perguntas sobre o mesmo fato e questionamentos sobre a vida privada da vítima.

Vinte anos de uma lei que mudou

Sancionada em 7 de agosto de 2006, a Lei 11.340 criou mecanismos para prevenir e combater a violência doméstica e familiar contra a mulher e estabeleceu medidas de assistência e proteção. Desde então, o texto passou por diversas alterações.

Em 2026, novas mudanças ampliaram a proteção. A legislação passou a tratar a monitoração eletrônica do agressor como medida protetiva autônoma, reconheceu a violência vicária e ampliou as situações que podem levar ao afastamento do suspeito.

A lei estabelece mecanismos para depois que a violência chega ao conhecimento do Estado. Antes disso, existe uma rede de pessoas que pode ser a primeira a ouvir o relato da vítima. Foi justamente nessa rede que Carla, em vez de apoio, encontrou a desconfiança.

Carol Berg

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