Empresas do Sul Fluminense estudam migrar produção para o Paraguai

Volta Redonda – A combinação entre as incertezas da reforma tributária, os juros elevados, o aumento das importações e a concorrência considerada desleal de produtos estrangeiros já começa a influenciar decisões estratégicas da indústria do aço. Segundo a Associação dos Processadores de Aço (AProAço), empresas instaladas no Sul Fluminense estudam transferir parte de suas operações para o Paraguai, em busca de um ambiente de negócios mais competitivo.
O alerta foi feito pelo presidente da entidade, Haroldo Filho, que classifica o momento vivido pela indústria brasileira como um dos mais delicados dos últimos anos. Segundo ele, embora a prorrogação da tarifa de 25% sobre alguns produtos de aço represente um avanço, ela não elimina as incertezas que cercam o futuro do setor.
“Se nada for feito, o cenário é muito preocupante. Algumas empresas processadoras do Sul Fluminense já estão estudando o mercado paraguaio para entender a viabilidade de transferir parte da produção. Essa movimentação já começou”, afirmou.
Reforma tributária aumenta insegurança
Segundo Haroldo Filho, a principal preocupação está na regulamentação da reforma tributária e na perda de competitividade da indústria brasileira.
Na avaliação da AProAço, ainda existem dúvidas sobre o funcionamento dos mecanismos de compensação previstos para substituir os atuais incentivos fiscais, o que dificulta o planejamento de investimentos de longo prazo.
“O empresário precisa de previsibilidade. Hoje ninguém sabe exatamente como ficará o ambiente tributário nos próximos anos. Essa insegurança faz com que muitas empresas passem a olhar outros mercados”, disse.
Paraguai entra no radar
De acordo com o dirigente, o Paraguai tem despertado o interesse de empresas brasileiras por oferecer custos operacionais menores e um ambiente tributário considerado mais estável.
Haroldo afirma que grupos chineses já utilizam essa estratégia, instalando unidades industriais em países vizinhos para, posteriormente, abastecer o mercado brasileiro.
“A China já está fazendo isso. Empresas chinesas estão se associando a indústrias instaladas no Paraguai para produzir de lá e exportar para o Brasil. Algumas empresas brasileiras começaram a estudar esse mesmo caminho para permanecer competitivas.”
Concorrência internacional pressiona setor
Além da reforma tributária, outro fator preocupa a indústria: o crescimento das importações de produtos siderúrgicos.
Segundo Haroldo Filho, fabricantes chineses têm utilizado países como Paraguai, Peru, Chile, Indonésia, Índia e Tailândia como plataformas de exportação para contornar medidas antidumping impostas ao aço produzido na China.
“A indústria brasileira enfrenta concorrentes que recebem subsídios em seus países de origem e ainda conseguem utilizar rotas alternativas para chegar ao mercado brasileiro. Isso desequilibra completamente a competição.”
Impacto pode atingir toda a cadeia
Segundo a AProAço, uma eventual migração de empresas não afetaria apenas os processadores de aço.
O movimento também reduziria a demanda por matéria-prima produzida por siderúrgicas instaladas na região, como a CSN, em Volta Redonda, e a ArcelorMittal, em Resende, além de atingir fornecedores, transportadoras e prestadores de serviços.
“O processador deixa de comprar aço produzido aqui. A siderúrgica vende menos, a produção diminui, os fornecedores são afetados e toda a economia regional perde. É um efeito em cascata”, explicou Haroldo.
Risco de desindustrialização
Para o presidente da AProAço, a soma desses fatores pode acelerar um processo de desindustrialização no Estado do Rio de Janeiro caso não sejam adotadas medidas para fortalecer a competitividade da indústria nacional.
“Estamos falando de uma cadeia que movimenta bilhões de reais e sustenta milhares de empregos. Se o Brasil não oferecer condições para que essas empresas continuem produzindo aqui, elas buscarão alternativas. O risco é perdermos fábricas, arrecadação, investimentos e empregos para outros países.”
Segundo Haroldo Filho, a entidade continuará defendendo junto ao Governo Federal medidas de defesa comercial, segurança jurídica na regulamentação da reforma tributária e políticas capazes de garantir condições de competição para a indústria brasileira.
“A indústria não quer privilégio. Quer apenas competir em igualdade de condições. Se isso não acontecer, veremos cada vez mais empresas deixando de investir no Brasil e procurando mercados mais competitivos”, concluiu.
Vivian Costa e Silva
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