VIOLÊNCIA DIGITAL: Ataques contra mulheres explodem nas redes
Foto – Arquivo Canva
O que antes era visto como um problema restrito às redes sociais passou a integrar a rotina das delegacias e das investigações sobre violência contra a mulher
Estado do Rio – Uma mensagem insistente. Um perfil falso. A divulgação de uma imagem íntima. Um vídeo criado por inteligência artificial. O que antes era visto como um problema restrito às redes sociais passou a integrar a rotina das delegacias e das investigações sobre violência contra a mulher.
No Sul Fluminense, um dos episódios mais recentes ocorreu em Volta Redonda. Um adolescente passou a ser investigado pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) por utilizar inteligência artificial para manipular fotografias de colegas do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), criando imagens íntimas falsas. O caso colocou em evidência uma modalidade de violência digital conhecida como “deepnude”, em que fotografias comuns são alteradas por inteligência artificial para simular nudez ou conteúdo sexual sem qualquer autorização da vítima.
Em outro caso registrado na região, uma mulher procurou a polícia depois de sofrer perseguição e ameaças do ex-companheiro, que não aceitava o fim do relacionamento. A violência, que começou por mensagens e aplicativos, acabou se estendendo para outros meios de contato, mostrando como a tecnologia tem ampliado as formas de intimidação.
Os dois episódios ilustram uma realidade que cresce em todo o Estado do Rio de Janeiro.
Segundo o Dossiê Mulher 2026, divulgado nesta semana pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), os registros de violência psicológica e moral praticada pela internet cresceram mais de 1.300% na última década. Em 2015, foram contabilizadas 239 vítimas. Em 2025, esse número chegou a 5.970 mulheres, média de 16 casos por dia.
Pela primeira vez, o estudo dedica um capítulo específico ao ambiente digital e analisa a disseminação de discursos misóginos em comunidades conhecidas como “redpill”, apontando que essas narrativas encontram nas redes sociais um espaço de rápida circulação e podem contribuir para a naturalização da violência contra as mulheres.
O levantamento também mostra que a violência não termina quando a vítima consegue proteção judicial. Em 2025, quase um em cada dez descumprimentos de medidas protetivas ocorreu pela internet, por meio de redes sociais, aplicativos de mensagens e até transferências via PIX utilizadas para manter contato ou perseguir vítimas.
O delegado da Polícia Civil em Resende, Michel Floroschk afirma que a violência digital passou a fazer parte da rotina das investigações e exige atenção tanto das autoridades quanto das vítimas. Segundo ele, muitas mulheres ainda não percebem que determinadas condutas já configuram crime.
O delegado orienta que vítimas preservem todas as provas antes de apagar mensagens ou bloquear o agressor. Prints de tela, links, números de telefone, mensagens de áudio, comprovantes de transferências e registros de perfis podem ser fundamentais para as investigações.
O Dossiê Mulher revela ainda que, ao longo de 2025, 159.041 meninas e mulheres sofreram algum tipo de violência no Estado do Rio de Janeiro — média de aproximadamente 18 vítimas por hora. A violência psicológica permaneceu como a forma mais frequente de agressão pelo quinto ano consecutivo.
Os casos mais graves continuam acontecendo, principalmente, dentro de casa. No ano passado, 105 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado. Em mais de 80% das ocorrências, o crime aconteceu na residência da vítima. Os companheiros ou ex-companheiros responderam por mais da metade dos assassinatos, e mais de 70% das mulheres mortas já haviam sofrido violência doméstica anteriormente, mas não chegaram a procurar as autoridades.
Os dados são divulgados às vésperas dos 20 anos da Lei Maria da Penha, que serão completados em 7 de agosto. Considerada um marco no enfrentamento da violência doméstica no Brasil, a legislação ampliou os mecanismos de proteção às vítimas. Duas décadas depois, especialistas apontam que um dos principais desafios é combater formas de violência que migraram para o ambiente digital e passaram a atingir mulheres por meio da tecnologia.
ENTENDA OS TERMOS
Misoginia – É o preconceito, desprezo ou ódio contra as mulheres. Pode se manifestar por meio de discriminação, humilhações, ameaças ou diferentes formas de violência.
Redpill – Expressão inspirada no filme Matrix e adotada por comunidades masculinas na internet. Parte desses grupos difunde discursos de inferiorização das mulheres e de rejeição às políticas de igualdade de gênero. O Dossiê Mulher analisa a circulação dessas narrativas nas redes sociais.
Deepfake – Tecnologia baseada em inteligência artificial capaz de criar vídeos, imagens ou áudios falsos extremamente realistas. Também possui aplicações legítimas, como no cinema e na publicidade.
Deepnude – Uso criminoso da inteligência artificial para produzir imagens íntimas falsas a partir de fotografias comuns, sem autorização da vítima.
Stalking – Crime de perseguição reiterada, presencial ou virtual, por meio de mensagens, redes sociais, perfis falsos, ligações ou outras formas de contato que provoquem medo ou restrinjam a liberdade da vítima.
COMO AGIR
- Preserve mensagens, prints e links antes de apagar o conteúdo
- Registre boletim de ocorrência, inclusive pela Delegacia Online, quando cabível
- Procure a Deam ou a delegacia mais próxima
- Solicite às plataformas a remoção do conteúdo
- Em situações de violência contra a mulher, também é possível buscar orientação pelo Ligue 180.
Ana Carolina Garcia Berg de Marco
VIOLÊNCIA DIGITAL: Ataques contra mulheres explodem nas redes



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