Morfina vira vício nos prontos-socorros e hospitais do Brasil
Foto: Divulgação
Sul Fluminense – Eles chegam sozinhos ou em grupo, às vezes duas, três vezes por dia. Conhecem o sistema, sabem o que dizer e como se comportar. Relatam dores insuportáveis, pedem morfina injetável e somem após a aplicação. No dia seguinte, repetem. Esse é o ciclo silencioso que médicos e enfermeiros de prontos-socorros de todo o Brasil enfrentam com frequência crescente e que, em casos extremos, termina em morte.
Em Barra Mansa, um jovem morreu recentemente em casa. Ele era viciado em morfina e frequentemente frequentava uma unidade de unidade alegando dores insuportáveis. A suspeita é de que ele tenha adquirido a dose no mercado negro e tenha injetado em casa. O caso reacende o debate sobre o uso indevido de opióides e sobre os riscos reais que essa prática impõe tanto aos dependentes quanto ao sistema público de saúde.
O que é a morfina e por que ela vicia
A morfina é um opioide derivado do ópio, a mesma família de substâncias da heroína, da codeína e do fentanil. Age diretamente nos receptores do sistema nervoso central, bloqueando a percepção de dor e produzindo uma sensação intensa de euforia, relaxamento e bem-estar. A administração de opioide fora de um contexto hospitalar supervisionado é perigosíssima porque o opioide induz à depressão respiratória. A pessoa pode sofrer efeitos da hipoventilação e ter parada respiratória. A parada cardíaca vem na sequência.
A morfina possui alto potencial para causar dependência física e psíquica quando usada continuamente. O uso prolongado leva à tolerância, quando o organismo necessita de doses cada vez maiores para obter o mesmo efeito.
É exatamente essa escalada que transforma uma aplicação hospitalar legítima em vício.
O Conselho Federal de Medicina (CFM) alerta que a morfina e outros opioides exigem rigor na prescrição para evitar a dependência e a depressão respiratória fatal. Em pareceres éticos, o órgão orienta que a automedicação e o uso prolongado sem diagnóstico claro configuram infração ética, cabendo ao médico recusar a substância caso identifique dependência ou risco iminente.
Os números que revelam a epidemia
O uso de opioides no Brasil cresceu quase dez vezes em dez anos e hoje atinge 8% da população, segundo levantamento do Conselho Federal de Farmácia. Entre os medicamentos monitorados estão morfina, tramadol, codeína e dolantina, originalmente destinados ao controle de dor em contextos médicos. A circulação ilegal dessas substâncias tem ampliado o acesso sem prescrição, elevando os riscos de dependência e overdose.
Em 2019, uma pesquisa sobre drogas da Fiocruz mostrou que 4,4 milhões de brasileiros já fizeram uso ilegal de algum opiáceo, 2,9% da população. O número é três vezes superior ao uso de crack e muito acima do uso de cocaína.
A estratégia do dependente nos hospitais
É comum a estratégia de pacientes que vão até o pronto-socorro e exageram na intensidade da dor para conseguir opioides mais fortes. O dependente diz que está com dor insuportável. Como a dor é subjetiva e de difícil mensuração clínica, o médico frequentemente se vê diante de um dilema ético: negar o atendimento a alguém que pode genuinamente estar sofrendo, ou ceder a uma demanda fabricada por um dependente.
O dependente também recorre ao chamado “doctor shopping”, ir a diversos médicos e mentir que foi assaltado ou que perdeu a receita, por exemplo, para conseguir uma nova prescrição, ou vai ao pronto-socorro dizendo estar com dores fortes e que precisa da medicação injetável. Quanto mais usa o remédio, maior será a dose pedida pelo organismo.
O depoimento de um garçom paulistano de 49 anos, identificado como Marcelo, ilustra como o vício se instala. Após passar por uma cirurgia oncológica em 2021, ele iniciou o uso de metadona , praticamente idêntica à morfina em seus efeitos. Nos sete meses de internação, desenvolveu tolerância ao medicamento e passou a precisar de doses mais frequentes para sentir o mesmo alívio. “Quando chegava a hora de tomar o remédio, eu ia lá no posto de enfermagem pressionar. Teve um tempo que tomava de seis em seis horas. Depois, era de quatro em quatro horas.”
Quando o acesso é fácil demais
Uma enfermeira de Brasília identificada como Angelina começou a aplicar morfina em si mesma após sentir dores intensas de uma conjuntivite bacteriana. O fácil acesso ao medicamento no hospital onde trabalhava desencadeou o vício. Ela passou a buscar substâncias cada vez mais fortes, chegando ao fentanil, 50 vezes mais viciante que a heroína. Após tratar o vício e ter uma recaída, faleceu de overdose aos 42 anos.
O caso ilustra um risco que vai além dos prontos-socorros: profissionais de saúde com acesso facilitado a opioides também estão entre os grupos de maior vulnerabilidade.
Mayra Gomes
Morfina vira vício nos prontos-socorros e hospitais do Brasil


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