Como um motel virou case de comunidade, recorrência e crescimento

Quando adquiriu um motel praticamente abandonado, com infiltrações, mofo e uma estrutura envelhecida, Pedro Ramalho sabia que enfrentaria um desafio maior do que uma simples reforma. Sem orçamento para campanhas publicitárias e distante dos padrões tradicionais de divulgação da motelaria, ele apostou em um ativo pouco explorado pelo setor: a construção pública da própria transformação do negócio.
O que começou como uma série de vídeos mostrando obras, problemas operacionais e decisões do dia a dia acabou se tornando um caso de branding e comunidade que hoje chama atenção pela capacidade de converter audiência em receita.
A estratégia surgiu mais por necessidade do que por planejamento. Sem recursos para investir em mídia paga, Ramalho decidiu documentar nas redes sociais cada etapa da reconstrução do empreendimento. O conteúdo, inicialmente focado na reforma, passou a acompanhar também os bastidores da operação, os desafios de gestão e a evolução do projeto.
Pedro Ramalho (Foto: Divulgação)
O resultado foi a formação de uma audiência altamente engajada, batizada de “Motelovers”, que deixou de acompanhar apenas uma obra para participar ativamente da construção da marca.
Esse envolvimento teve reflexos diretos no desempenho do negócio. Quando assumiu a operação, o motel registrava entre 100 e 200 locações por mês. Após a inauguração das primeiras suítes reformadas, o volume ultrapassou 400 locações mensais. Atualmente, com apenas 12 suítes temáticas em funcionamento, o empreendimento recebe cerca de 600 locações por mês.
Mais do que crescimento de demanda, o modelo criou um fenômeno raro em mercados de hospitalidade: uma comunidade de clientes recorrentes que acompanha o desenvolvimento do produto em tempo real.
Segundo Ramalho, aproximadamente 60% do faturamento mensal é gerado por hóspedes que já possuem vínculo com a marca. Muitos deles frequentam o empreendimento diversas vezes ao mês, acompanham lançamentos, participam de tours pelas suítes temáticas e contribuem com sugestões para novos projetos.
“Os clientes deixaram de ser apenas consumidores para se tornarem participantes da construção da experiência”, resume o empresário.
Na prática, o que aconteceu foi uma inversão da lógica tradicional do marketing. Em vez de utilizar as redes sociais apenas como canal de divulgação, o The Eye Motel passou a incorporá-las à própria experiência de marca.
A operação gera conteúdo. O conteúdo influencia decisões da operação. E os clientes acompanham todo o ciclo, desde a concepção de uma ideia até sua execução.
Especialistas em branding costumam definir esse movimento como pertencimento de marca, quando o consumidor desenvolve uma relação emocional com o negócio e passa a atuar espontaneamente como promotor da empresa.
No caso do The Eye Motel, essa dinâmica foi construída sem campanhas institucionais complexas ou grandes investimentos em comunicação.
Os aportes realizados desde a aquisição foram direcionados principalmente à transformação da experiência do hóspede. O empreendimento recebeu suítes inspiradas em destinos como Paris, Las Vegas, Maldivas, Riviera Francesa, Rio de Janeiro, São Paulo e Alaska, além de melhorias estruturais, modernização de processos internos e construção de uma nova lavanderia.
Um dos elementos mais emblemáticos da estratégia foi a criação de uma fachada cenográfica, com iluminação teatral, vitrines temáticas e elementos visuais pouco comuns ao segmento. A proposta foi transformar a chegada ao motel em parte da experiência oferecida ao cliente.
Apesar de não divulgar os valores investidos, Ramalho afirma que o montante superou significativamente as projeções iniciais. Ainda assim, o desempenho da operação sustenta uma visão otimista sobre o retorno do investimento.
O crescimento consistente da ocupação já motivou o planejamento de uma nova fase de expansão, que prevê a construção de mais 20 suítes no terreno disponível.
O caso também revela uma mudança mais ampla no comportamento do consumidor. Para o empresário, parte da motelaria ainda enxerga seu produto como a locação de quartos, enquanto a nova geração de clientes busca experiências, narrativas e conexão emocional com as marcas.
Essa percepção ajuda a explicar por que um empreendimento físico localizado no interior paulista conseguiu alcançar relevância nacional por meio da internet.
Em um mercado cada vez mais competitivo, onde a diferenciação baseada apenas em estrutura se torna insuficiente, a construção de comunidades pode representar uma das principais vantagens competitivas dos próximos anos.
A aposta de Pedro Ramalho é justamente essa: transformar clientes em participantes ativos da marca e fazer com que a experiência comece muito antes do check-in.
Se os planos se confirmarem, o The Eye Motel poderá servir de exemplo para um movimento que já vem ganhando força em diferentes setores da economia: empresas que deixam de vender apenas produtos ou serviços para construir ecossistemas de pertencimento capazes de gerar crescimento orgânico, fidelização e expansão sustentável.
emiliano macedo
Como um motel virou case de comunidade, recorrência e crescimento




Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.