Depressão: o transtorno que mais atinge idosos ainda é tabu no Brasil

1 old woman confronting alzheimer disease

Foto: Divulgação
Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a doença atinge cerca de 13% da população entre 60 e 64 anos no Brasil

Sul Fluminense – Ela acorda cedo, faz o café, liga a televisão e passa o dia sem falar com ninguém. Os filhos moram longe, as amigas de décadas foram morrendo uma a uma, o marido se foi há três anos. A rotina existe, mas o sentido foi esvaziando aos poucos. O que ela sente tem nome — e é mais perigoso do que parece.

A depressão não escolhe faixa etária. Mas os dados mostram que são os idosos quem mais sofrem com ela. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a doença atinge cerca de 13% da população entre 60 e 64 anos no Brasil — o grupo mais afetado. E o gatilho mais silencioso para esse adoecimento tem um nome simples: solidão.

Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas aponta que idosos que relataram sentir solidão têm quatro vezes mais chances de desenvolver depressão. O estudo investigou a relação entre os dois fenômenos e revelou que mais de 16% das pessoas ouvidas disseram sempre sentir solidão, e 31,7% relataram ter essa sensação às vezes. O problema é maior entre mulheres com baixa escolaridade, acima de 80 anos e com percepção ruim da própria saúde.

O Brasil registrou mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais no último Censo Demográfico do IBGE. O estado do Rio de Janeiro possui a segunda maior taxa de envelhecimento do país. São mais de 3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, o que representa cerca de 19% dos moradores.

O gatilho mais silencioso para esse adoecimento tem um nome simples: solidão.

Por que o idoso deprime de forma diferente

A depressão na terceira idade não se parece com a depressão dos jovens — e é exatamente por isso que passa despercebida por tanto tempo. Perda de apetite, irregularidades no sono, desânimo para realizar atividades antes vistas como prazerosas e mudanças emocionais com sinais claros de tristeza são sintomas que devem ser levados em conta.

Os idosos também podem desenvolver alterações cognitivas que dificultam o diagnóstico, como perda de memória, falta de concentração e dificuldade de raciocínio.

O médico que cuida do colesterol pode não perguntar sobre o estado emocional. A família que visita aos domingos pode interpretar o silêncio como cansaço. O vizinho que nota a mudança pode não saber o que fazer. Enquanto isso, o quadro avança.

“Em uma sociedade que privilegia a produtividade, os idosos são invisibilizados. Para o senso comum, idosos não têm mais sonhos, anseios, individualidade. Por isso, não falamos sobre a saúde mental dessa faixa etária”, avaliou a psicóloga Míriam Conrado.

A pesquisadora Anita Liberalesso Neri, da Unicamp, destaca que pessoas com baixa escolaridade são mais pobres, têm menos recursos econômicos, baixo capital social e poucas redes de apoio, fatores que aumentam a sensação de desamparo e vulnerabilidade.

Se desejar, também posso transformar essa reportagem em uma versão digital no padrão do Diário do Vale, com intertítulos, box de serviço e orientações sobre onde buscar ajuda no Sul Fluminense.

OS SINAIS QUE A FAMÍLIA PRECISA RECONHECER

Há diferença entre tristeza passageira e depressão. A tristeza passa. A depressão se instala. Os especialistas listam os sinais de alerta que familiares, vizinhos e cuidadores devem observar:

Isolamento progressivo — o idoso que antes saía, conversava, participava de missas, grupos, almoços de família e passa a recusar tudo sem explicação clara. Quando o motivo é físico, ele diz. Quando é emocional, ele silencia.

Perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas — o jardim que era cuidado com carinho começa a secar. A novela favorita fica ligada sem ser assistida. O prato preferido deixa de ter sabor.

Mudanças no sono e no apetite — dormir demais ou de menos, comer pouco ou parar de comer. Esses sinais físicos são frequentemente a primeira linguagem da depressão na terceira idade.

Fala frequente sobre morte ou inutilidade — frases como “já cumpri meu papel”, “ninguém precisa de mim” ou “seria melhor se eu fosse logo” não devem ser interpretadas como exagero. São pedidos de socorro.

Descuido com a higiene e a aparência — o idoso que sempre foi arrumado e começa a negligenciar o próprio corpo está sinalizando que algo mudou internamente.

Irritabilidade fora do comum — nem toda depressão se manifesta em choro. Muitas vezes ela aparece como raiva, impaciência e hostilidade inexplicável.

O QUE FAZER AO PERCEBER OS SINAIS

O primeiro passo é não ignorar. Não existe “frescura de velho” nem “é assim mesmo na idade dele”. Depressão é doença. Tem tratamento. E quanto antes for identificada, melhor o prognóstico.

A busca por ajuda começa na Unidade Básica de Saúde mais próxima. O médico de família ou o clínico geral pode fazer a avaliação inicial, prescrever tratamento ou encaminhar para o especialista.

A psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, tem eficácia comprovada em idosos e pode ser realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Nos municípios do Sul Fluminense, o Centro de Atenção Psicossocial (Caps) é o serviço especializado em saúde mental. O atendimento é gratuito e conta com equipe multidisciplinar formada por psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais. O Centro de Referência de Assistência Social (Cras) também pode ser acionado como porta de entrada para a rede de proteção social ao idoso.

Para situações de crise ou pensamentos suicidas, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende pelo telefone 188, 24 horas por dia, todos os dias, de forma gratuita e sigilosa.

O QUE VAI ALÉM DO REMÉDIO

O tratamento da depressão na terceira idade não se resume à medicação. A ciência é clara: vínculos sociais são remédio.

Grupos de convivência, atividades físicas regulares, voluntariado, participação em grupos religiosos e comunitários — tudo isso tem impacto mensurável na saúde mental dos idosos.

Famílias que mantêm contato regular, que incluem o idoso nas decisões, que visitam sem pressa e sem celular na mão, fazem mais pelo estado emocional do pai ou da mãe do que qualquer prescrição isolada.

“A prevenção começa na orientação. Mas a cura começa na presença”, resumiu um agente comunitário de saúde de Barra Mansa ouvido pela reportagem. “A gente chega na casa, encontra o idoso sozinho há dias, com geladeira vazia e olhos sem brilho. Isso não é velhice. Isso é abandono.”

O Brasil envelhece. Em 2030, segundo projeções do IBGE, um em cada cinco brasileiros terá mais de 60 anos. O que fazemos com esse envelhecimento — se tratamos a velhice como problema ou como fase a ser vivida com dignidade — é uma escolha que estamos fazendo agora, em cada família, em cada comunidade, em cada cidade do Sul Fluminense.

ONDE BUSCAR AJUDA NO SUL FLUMINENSE

Centro de Atenção Psicossocial (Caps) — presente nos principais municípios da região. Atendimento gratuito pelo SUS.

Centro de Referência de Assistência Social (Cras) — porta de entrada para a rede de proteção social. Presente em todos os municípios.

Unidade Básica de Saúde (UBS) — primeiro atendimento, encaminhamento e acompanhamento.

Centro de Valorização da Vida (CVV) — telefone 188, atendimento gratuito, 24 horas e sigiloso.

Disque 100 — para denúncias de negligência, abandono ou maus-tratos contra idosos.

Ana Carolina Garcia Berg de Marco

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