Acidentes com caminhões matam três vezes mais que os com carros
Foto: Reprodução
Sul Fluminense – As principais rodovias que cortam o país, como a Via Dutra e a Régis Bittencourt, são fundamentais para a economia brasileira. Pela Dutra, por exemplo, circula cerca de metade do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Mas o intenso fluxo de caminhões e carretas também expõe um problema que preocupa especialistas e autoridades: os acidentes envolvendo veículos pesados, que apresentam índices de letalidade muito superiores aos registrados em ocorrências com automóveis.
Em menos de dois meses, episódios registrados na região reforçaram o alerta. No fim de abril, uma carreta carregada com gás liquefeito perdeu o controle na Via Dutra, em Barra Mansa, atingiu a mureta divisória e explodiu. O acidente provocou mortes, entre elas a de um sargento do Exército, além de destruir veículos atingidos pelas chamas.
Pouco antes, entre os municípios paulistas de Eldorado e Jacupiranga, um caminhoneiro que teria consumido álcool e cocaína atingiu um ponto de ônibus, causando a morte de uma jovem. Já nesta semana, um motorista foi flagrado em aparente crise dentro da cabine de um caminhão no pátio de um posto de combustíveis às margens da Régis Bittencourt, em Pariquera-Açu. Testemunhas relataram suspeita de uso de entorpecentes. Apesar da situação, ele deixou o local e seguiu viagem.
Os números nacionais ajudam a dimensionar o problema. Em 2024, caminhões e ônibus estiveram envolvidos em 53% das mortes registradas nas rodovias federais brasileiras, embora representem apenas cerca de 4% da frota nacional. Foram 3.291 vítimas fatais em acidentes com veículos pesados, um aumento de 26% em relação ao ano anterior.
Ao todo, as rodovias federais contabilizaram 73.121 acidentes no período, com média de 16 mortes por dia e prejuízo econômico superior a R$ 16 bilhões. A BR-116, que inclui a Régis Bittencourt, foi a segunda rodovia federal com maior número de acidentes do país, registrando 11.478 ocorrências.
Especialistas em medicina do tráfego apontam que o fator humano está presente na maioria dos acidentes. Segundo estudos da área, cerca de 90% das ocorrências têm relação com o comportamento dos condutores, enquanto aproximadamente 30% estão associadas à desatenção, frequentemente provocada pela privação de sono, estresse e longas jornadas de trabalho.
Para enfrentar o cansaço e cumprir prazos apertados, alguns motoristas recorrem ao uso de substâncias estimulantes. O chamado “rebite”, composto à base de anfetaminas, e a cocaína figuram entre as drogas mais utilizadas nesse contexto.
Os dados das apreensões reforçam a preocupação. Em 2024, a Polícia Rodoviária Federal retirou de circulação mais de 859 mil comprimidos de anfetaminas, o maior volume já registrado no país. No mesmo período, foram apreendidas 41,4 toneladas de cocaína. A fiscalização da Lei do Descanso também foi ampliada, com mais de 21 mil operações realizadas e quase 79 mil autuações aplicadas.
Apesar disso, especialistas destacam que a grande maioria dos caminhoneiros atua de forma responsável e cumpre as normas de segurança. O setor é essencial para o abastecimento do país e para o funcionamento da economia. A preocupação está concentrada em uma parcela reduzida de profissionais que, pressionados por jornadas excessivas e prazos rigorosos, acabam assumindo riscos que colocam em perigo a própria vida e a de outros usuários das rodovias.
Entre as medidas defendidas por especialistas estão a ampliação dos pontos de descanso para motoristas, o reforço da fiscalização eletrônica do tempo de direção, maior controle das transportadoras sobre a jornada de trabalho e programas específicos de saúde ocupacional voltados à categoria.
Enquanto essas iniciativas avançam, o risco permanece nas estradas. Nas rodovias que cortam o Sul Fluminense e o Vale do Ribeira, por onde circulam diariamente cargas de combustíveis, produtos químicos, alimentos e outros insumos, a combinação entre fadiga, drogas e veículos de grande porte continua sendo uma das maiores ameaças à segurança viária.
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Legenda: Carreta carregada com gás liquefeito explodiu na Via Dutra, em Barra Mansa, após perder o controle e atingir a mureta divisória.
luciano junior
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