Povo Puri foi apagado dos documentos para legitimar roubo de terras, em Resende
Foto: Claudio Serricchio
Procuradora foi direta ao rebater a narrativa de que os Puri teriam desaparecido
Resende – O Ministério Público Federal revelou nesta quarta-feira (6), durante audiência pública na Câmara Municipal de Resende, que o povo indígena Puri foi deliberadamente apagado dos documentos oficiais ao longo da história brasileira com o objetivo de legitimar a usurpação de suas terras coletivas e submetê-los ao trabalho escravo. A denúncia foi feita pela procuradora da República Izabella Marinho Brant durante debate sobre o Projeto de Lei nº 76/2025, que propõe medidas de reconhecimento e valorização do povo Puri no município.
Com base em pesquisa acadêmica, a procuradora explicou o mecanismo utilizado para apagar a presença indígena da região. “Eles foram reclassificados nos documentos oficiais da época como ‘caboclos’, ‘pardos’ ou ‘matutos’ com o único fim de legitimar a usurpação de suas terras coletivas e submetê-los ao trabalho escravo”, afirmou. Para Izabella Brant, o que a história registrou como extinção do povo Puri foi, na verdade, um processo proposital de invisibilização — uma estratégia que permitiu ao Estado e a particulares se apropriar de territórios indígenas sem resistência formal documentada.
A procuradora foi direta ao rebater a narrativa de que os Puri teriam desaparecido. “Por muito tempo, a presença indígena na região foi tratada apenas como algo do passado — quando, na verdade, existem pessoas, famílias, memórias e trajetórias que permanecem vivas hoje”, disse. Ela destacou que o povo Puri, como tantos outros povos indígenas no Brasil, foi submetido a um longo processo de violência, deslocamento, dispersão e apagamento. “Em muitos casos, a sobrevivência exigiu o silêncio, a adaptação e a invisibilidade”, completou.
O contexto do apagamento histórico dá peso político ao projeto de lei em discussão na Câmara de Resende. A proposta original previa uma semana de valorização da cultura Puri, mas representantes indígenas apresentaram durante a audiência emenda que amplia o período para um mês inteiro — a ser celebrado em março, data associada ao início do ciclo anual do povo. As alterações foram acolhidas e seguem para votação. O Instituto Pachamama e o coletivo Inhã Uchô, autores das emendas, defendem ainda que o poder público priorize materiais produzidos pelos próprios Puri e apoie iniciativas conduzidas pelos representantes indígenas da região.
Para a procuradora, o reconhecimento formal não é um favor do Estado — é uma obrigação. “Estamos falando de um direito fundamental, que envolve a possibilidade de indivíduos e coletividades se reconhecerem como pertencentes a um povo, com base em sua história, sua memória, suas práticas culturais e seus vínculos com a comunidade”, frisou. Izabella Brant mediou o diálogo entre representantes Puri, a prefeitura de Resende e outros atores institucionais desde o fim de 2023, quando o MPF abriu procedimento após demandas apresentadas pelos próprios indígenas da região.
Ao encerrar sua fala, a procuradora citou o líder indígena Ailton Krenak para sintetizar o sentido do projeto. “Talvez seja exatamente isso que ele quis dizer quando afirmou que ‘o futuro é ancestral’. Não há construção do futuro sem reconexão com a memória.”
Foto: Arquivo/Histórico Municipal de Resende
Eram nômades, vivendo da caça, pesca e uma agricultura primária
Último descendente dos Puris, Victorino Santará faleceu em 1864
Os primeiros habitantes das proximidades de Resende, antes da chegada do homem branco, eram de baixa estatura, mas fortes e troncudos. Segundo Taunay Puri significava, em português, gente tímida e mansa. Seus cabelos eram lisos, as orelhas pequenas, o nariz largo, os olhos puxados. Eram nômades, vivendo da caça, pesca e uma agricultura primária. Tinham como costume limpar o terreno para o plantio através de queimadas, o que prejudicava a fertilidade do solo e os obrigavam a migrar de tempos em tempos, em busca de áreas virgens.
A mandioca era muito utilizada pelos índios que descascavam e ralavam sua raiz com instrumentos feitos de espinhos e dentes de animais. De acordo com o folclore nacional, a lenda da mandioca era comum a várias tribos. Segundo a lenda, Mani tinha sido a índia mais bonita que já existiu, branca como o lírio. Os índios a respeitavam como um ser sobrenatural, acreditando ser um presente de Tupã. Um dia Mani ficou doente e morreu, sendo enterrada no jardim. De seu túmulo nasceu um arbusto e, a seguir, apareceu a raiz da mandioca que, segundo os índios, parecia o corpo de Mani. passaram a comer a raiz acreditando que isto lhes daria mais força para a luta, e passaram a chamar este alimento de manioca, que significa pão da terra ou carne de Mani.
Os Puris viviam em constantes guerras com os Botocudos, que os expulsaram da Serra da Mantiqueira para o Vale do Paraíba, tendo se estabelecido num lugar denominado Minhocal, cerca de 30 Km de Campo Alegre. Como começassem a incomodar os primeiros moradores chegados com a bandeira de Simão da Cunha Gago, foi enviado o Sargento-Mor Joaquim Xavier Curado para resolver o problema. Houve cruentas lutas em que foram dizimados vários índios. Só um grupo, chefiado pelo cacique Mariquita, decidiu ficar no Minhocal, onde o Sargento-Mor ordenou que lhe fossem doadas terras. Criada a aldeia dos Puris em São Luiz Beltrão, depois São Vicente Férrer (atual Fumaça), esta prosperou entre 1778 e 1820, enquanto o padre Francisco Xavier de Toledo, grande protetor dos índios, dedicou-se à sua catequese. Com a sua morte os Puris ficaram desprotegidos e foram sendo aprisionados para trabalharem como escravos nas fazendas. As crianças eram batizadas com a observação: apanhadas no mato. Os Puris foram alvo de impiedoso e intencional extermínio, com o propósito de sua redução. Para tanto os conquistadores chegaram a disseminar entre eles, a varíola, com efeitos terríveis. Existiam aldeados em 1857, 133 índios entre mestiços e puros. O último descendente dos Puris, Victorino Santará faleceu em 1864. Referência Bibliográfica: Livro: Crônica dos Duzentos Anos – RESENDE 1801 –2001. ARDHIS Academia Resendense de História.
Ana Carolina Garcia Berg de Marco
https://diariodovale.com.br/destaque/povo-puri-foi-apagado-dos-documentos-para-legitimar-roubo-de-terras-em-resende/





Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.