Cristais do tempo, Newton, isopor, e a vida imita as HQs
Ciência é uma área com desenvolvimentos tão complexos que parecem ser tramas saídas de gibis, como as ondas gravitacionais e o modelo inflacionário, confirmado pelo Telescópio James Webb, comprovando que a expansão do Universo está acelerando. No entanto, nenhum conceito soa mais maluco, mesmo dentro da Física Quântica, do que o dos cristais do tempo.
Sobre as tais Ondas Gravitacionais e o Cachorro Invisível de Einstein
James Webb confirma expansão acelerada do Universo
O conceito básico, os átomos de um cristal do tempo mudam de fase continuamente e em um padrão específico; as ligações são estáveis, mas elas estão dispostas no Tempo (que lembrando, é também uma dimensão) ao invés de no Espaço, como ocorre com um cristal comum.
Na excelente minissérie Vingadores Eternamente, Immortus comprimiu uma cidade inteira para convertê-la num cristal com poderes temporais; nossos cientistas não precisaram ir tão longe (Crédito: Reprodução/Marvel Comics/Disney)
Cristais do tempo visíveis e flutuantes
Basicamente cristais do tempo são como pêndulos, oscilam constantemente entre dois estados em intervalos regulares de tempo no estado de energia de ponto zero, o nível mais baixo possível de temperatura (no vácuo, por exemplo) necessário para manter o sistema funcionando. E por já estar no estado fundamental, a oscilação não consome energia.
O conceito foi proposto em 2012 por Frank Wilczek, vencedor do Nobel de Físíca de 2004, como a ideia de um “cristal impossível”, que quebraria a simetria da Física. Por anos, várias pesquisas identificaram ocorrências minimamente alinhadas, mas eram todos microscópicos com pouca para nula utilidade prática.
Somente em 2025, um time de cientistas da Universidade de Colorado, nos Estados Unidos, apresentou um modelo de cristal do tempo visível a olho nu, usando uma cubeta cheia de bastonetes de cristal líquido, o mesmo material usado em painéis LCD de TVs, telas de celulares e monitores, que transita entre estados sólido e líquido.
Quando expostos à luz, os bastonetes começam a se mover de forma rítmica e bem definida, que os pesquisadores chamaram de “listras de tigre psicodélicas”. Diferente de outros resultados, que duravam segundos ou minutos, este experimento podia ser mantido por horas, além de ter aplicações reais, podendo servir como um “carimbo temporal” para evitar fraudes em documentos; os cientistas chegaram a sugerir que camadas empilhadas dos cristais poderiam ser usados no futuro como datacenters.
O que nos leva ao artigo mais recente, publicado na Physical Review Letters por um time de pesquisadores da Universidade de Nova Iorque, onde usaram levitação acústica e… bolinhas de isopor.
A ideia de usar poliestireno expandido foi da pós-graduanda Mia Morrell, coautora principal do estudo, por acreditar que o material interagiria melhor com outras contas ao ser levitado por um colchão acústico. Uma bolinha sozinha não demonstra nenhuma atividade significativa, mas as coisas mudam ao adicionar mais no levitador.
A partir daqui, as coisas ficam ainda mais malucas. Segundo o Dr. David G. Grier, professor de Física, coautor e orientador do estudo, cada bolinha dispersa sua própria cota de ondas sonoras, contribuindo para um sistema de “interações irregulares” em que cada conta coleta e libera energia em uma frequência própria, sem que elas sejam orientadas a fazê-lo por nenhum tipo de força externa.
Uma bolinha só não faz nada, mas adicione mais e as coisas se complicam (Crédito: NYU Center for Soft Matter Research)
Basicamente, bolinhas de tamanhos diferentes deslocam ondas diferentes, o que viola a Terceira Lei de Newton, ou Princípio de Ação de Reação.
Ela estabelece que para toda força exercida por um corpo A sobre um corpo B, deve existir uma força de reação de B para A, de mesma intensidade e direção, mas no sentido oposto, e por atuarem em corpos distintos, elas não se anulam. É o que motoqueiros deveriam saber ao tentar chutar retrovisores de carros com os dois em movimento, de modo a não serem jogados para trás.
Voltando às bolinhas flutuantes, Morrell as comparou com duas balsas de tamanhos diferentes se aproximando de um cais, em que cada um gera ondas que interagem uma com a outra; no experimento, partículas maiores liberam mais som que as menores, assim as primeiras influenciam mais as segundas do que o contrário. Isso cria um sistema não-recíproco ou desequilibrado, o que NÃO deveria acontecer.
Morrell comparou as interações entre as partículas com duas balsas de tamanhos diferentes se aproximando de um cais, em que cada uma gera ondas de tamanhos diferentes e influenciam uma a outra de formas distintas.
Imagem em stop-motion mostrando pares de microesferas, formando um cristal do tempo ao longo de aproximadamente ⅓ segundo. As cores representam as interações das microesferas em diferentes estágios durante o período (Crédito: NYU Center for Soft Matter Research)
Primeiro, o experimento é importante ao demostrar que cristais do tempo podem ser criados com materiais simples, e não dependem de laboratórios de última geração. Dessa forma, pesquisas envolvendo computação quântica, novos materiais e ciência de dados, onde eles poderiam ser aplicados, se tornarão muito mais comuns.
O prof. Grier acredita que seu modelo pode vir a se tornar a “bomba H” da área, descambando para pesquisas completamente não relacionadas, mas que poderiam se beneficiar dos conceitos, desde a área médica a estudos econômicos, usando preceitos que mesmo o mais doido roteirista de quadrinhos acharia que forçaram a barra.
Referências bibliográficas
MORRELL, M. C., ELLIOTT, L., GRIER, D. G. Nonreciprocal Wave-Mediated Interactions Power a Classical Time Crystal. Physical Review Letters, 6 de fevereiro de 2026.
DOI: 10.1103/zjzk-t81n
Fonte: Gizmodo
Cristais do tempo, Newton, isopor, e a vida imita as HQs
Redação
https://www.resende.com.br/2026/03/20/cristais-do-tempo-newton-isopor-e-a-vida-imita-as-hqs/
Publicar comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.