Anã branca desafia lógica ao lançar ondas de choque

Uma anã branca a 730 anos-luz da Terra (ou logo ali na esquina, na escala cósmica) está tirando o sono dos astrônomos: imagens capturadas pelo Very Large Telescope (VLT) identificaram uma bem definida onda de choque que, com base em tudo o que sabemos, não deveria estar lá. Mas está.

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Sendo tecnicamente um corpo estelar “morto”, uma anã branca não deveria ser o centro de tal situação, no que os cientistas quebram a cabeça para entender de onde a energia está vindo.
Isso não deveria acontecer, mas de novo, o Universo não dá a mínima para o que cientistas pensam (Crédito: ESO/K. Iłkiewicz and S. Scaringi et al. Background: PanSTARRS)
Anã branca esquentada
RXJ0528+2838, como toda anã branca, é a “sobra” de uma estrela que não tinha massa suficiente para se converter em um buraco negro, ou em uma estrela de nêutrons após seu ciclo de vida; ela vai se expandir e se tornar uma gigante vermelha, e após suas camadas externas se dissiparem e formarem nebulosas planetárias (“berços de planetas”, por assim dizer), o que fica para trás é um núcleo pequeno e denso, sem nenhuma atividade de fusão nuclear.
Estima-se que 97% das estrelas da Via Láctea se converterão em anãs brancas, incluindo o Sol (muito antes disso ele vai engolir tudo até talvez Marte e o cinturão de asteroides, deixando apenas Júpiter e os demais planetas externos ilesos; de todo modo, a Terra VAI rodar), em um processo que levará muito tempo, bem mais do que a idade estimada do universo, de 13,8 bilhões de anos.
Assim como suas irmãs, RXJ0528+2838 é, sob todos os aspectos, uma estrela morta. Seu destino é queimar a energia que lhe restou até se converter em uma teórica anã negra, mas ela, que orbita o centro da galáxia, está aparentemente interagindo com gases que permeiam outras estrelas, gerando no processo um choque em arco (bow shock em inglês), algo que é normalmente criado por estrelas por material ejetado.
Anãs brancas também são capazes de criar tal efeito, mas com passos extras. Ela é acompanhada de outra estrela, e sistemas binários do tipo levam a formação de um disco de acreção ao redor do astro moribundo, que a alimenta e leva à expulsão de materiais, que criam o choque em arco ao interagirem com o ambiente cósmico…
Exceto que ao redor de RXJ0528+2838, não há disco algum.

No artigo (cuidado, PDF) publicado na Nature Astronomy, cientistas europeus de diversos institutos analisam as possibilidades para a anã branca esquisita, com base nos dados coletados pelo VLT, o supertelescópio instalado no Chile do Observatório Europeu do Sul (ESO), aquele projeto do qual o Brasil foi chutado por falta de pagamento.
Segundo o Dr. Simone Scaringi, professor associado do departamento de Física da Universidade de Durham, na Inglaterra, os astrônomos encontraram “algo nunca observado antes, e totalmente inesperado”, enquanto o Dr. Krystian Iłkiewicz, pós-doutorando do Centro Astronômico Nicolau Copérnico da Academia Polonesa de Ciências em Varsóvia, Polônia, complementa que a onda de choque “não deveria estar lá”.
A análise dos dados do VLT confirmaram que o choque em arco, ilustrado em RGB vibrante, realmente se originou do sistema binário, e que a forma e extensão sugerem que a anã branca está expelindo material por pelo menos mil anos, o que complica ainda mais as coisas; ainda assim, os cientistas têm algumas teorias sobre de onde essa energia está vindo, já que RXJ0528+2838 não é uma opção viável.
Uma das hipóteses seria o campo magnético da anã branca, confirmado pelos dados coletados pelo Explorador Espectroscópico Multi-Unitário (MUSE na sigla em inglês) equipado no VLT, que seria forte o bastante para interferir nos materiais capturados da estrela parceira, de modo que eles interagem com o ambiente e formam a onda de choque sem ter que formar um disco de acreção. O problema, o campo detectado sustentaria tal fenômeno por algumas centenas de anos, e não durante mais de um milênio.
O Dr. Iłkiewicz diz que a descoberta “desafia o entendimento clássico sobre como a matéria move e interage” em sistemas binários extremos como o de RXJ0528+283, a anã branca esquisita, em que mais uma vez é preciso lembrar da frase de J.B.S. Haldane, cunhada no ensaio Mundos Possíveis, de 1927:
“O Universo não é só mais esquisito do que imaginamos, mas mais esquisito do que podemos imaginar”.
Referências bibliográficas
IŁKIEWIC, K., SCARINGI, S., DE MARTINO, D. et al. A persistent bow shock in a diskless magnetised accreting white dwarf. Nature Astronomy (2026), 19 páginas, 12 de janeiro de 2026.
DOI: 10.1038/s41550-025-02748-8
Fonte: European Southern Observatory
Anã branca desafia lógica ao lançar ondas de choque

Redação
https://www.resende.com.br/2026/03/20/ana-branca-desafia-logica-ao-lancar-ondas-de-choque/

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