Especial: Quando a paixão virtual vira risco para os idosos
Idosa se declara pedindo influenciador em casamento. (Foto: Reprodução TikTok)

Idosa divulga o próprio endereço nas redes sociais, na esperança de encontrar-se pessoalmente com o influenciador. (Foto: Reprodução TikTok)
Volta Redonda – Ele tem entre 25 e 30 anos, diz chamar-se José Fernandes e tem mais de 680 mil seguidores. Na quarta-feira (11), teve que publicar um vídeo explicando que é um personagem, que não está à procura de ninguém, não quer ninguém e “nunca disse nome de seguidor nenhum” em seus vídeos. O motivo surpreende: a maior parte das seguidoras do moço são idosas que, por motivos variados, creem estar em um relacionamento romântico com ele.
Com o olhar fixo na câmera e voz suave, José Fernandes canta trechos de músicas românticas. Do outro lado da tela, em diferentes partes do país, senhoras de 70, 80 anos se sentem escolhidas, amadas, vistas. Elas acreditam que ele está falando com elas — e algumas acreditam que estão namorando o galã do TikTok.
O caso chamou a atenção de diversos internautas – sobretudo filhos e netos que, para lá de preocupados, passaram a publicar na própria plataforma os relatos do que estavam vivendo com suas mães, avós e até bisavós ‘apaixonadas’ por José Fernandes. Mas, o que fazer se uma vovó ou um vovô passar a viver em função de uma paixão impossível com um personagem de TikTok? A professora de Psicologia do UniFOA, Sônia Moreira, e o psiquiatra Felipe Feitosa, dão algumas orientações.
“É natural que pessoas idosas, ao descobrirem as redes sociais, possam adotar comportamentos considerados românticos exagerados, como enviar muitas mensagens carinhosas, publicar declarações de amor ou buscar novas relações online com entusiasmo. Muitas vezes, essa postura reflete uma fase de redescoberta, alegria ao explorar novas ferramentas, busca de companhia após viuvez ou solidão, ou simplesmente vontade de interagir mais”, explica a professora de Psicologia do UniFOA, Sônia Moreira.

IA do próprio TikTok gera alerta de cuidado para com o bem-estar emocional das idosas. (Foto: Reprodução TikTok)
Pode ser Alzheimer?
Segundo ela, nesses casos, a pessoa geralmente mantém senso crítico, reconhece os limites sociais se alguém a chama atenção e adapta seu comportamento, além de saber com quem está falando e o contexto das conversas. Por outro lado, quando esses comportamentos vêm acompanhados de outros sinais, é importante ficar atento, pois podem indicar o início de quadros de demência, incluindo Alzheimer.
“Entre os sinais iniciais de demência em redes sociais estão a perda do senso de julgamento, postagens repetidas ou inadequadas sem perceber, exposição de informações pessoais de forma indiscriminada, dificuldade em reconhecer pessoas conhecidas online, envolvimento frequente em situações de risco (como golpes ou fake news) e ausência de críticas mesmo após alertas”, diz Sônia, que completa: “Sim, comportamentos vistos inicialmente como carência ou fantasia romântica podem, em alguns casos, ser sintomas de um quadro clínico mais sério, especialmente quando aparecem de forma abrupta, intensa ou acompanhados de outros sinais de alteração de comportamento ou cognição”.
A psicóloga explica ainda que o envolvimento com figuras virtuais pode aumentar a sensação de isolamento quando a idosa percebe que a relação não é verdadeira ou não recebe respostas reais. Assim, o retorno à realidade pode ser muito frustrante e tornar a solidão ainda mais dolorosa.
“Acreditar em relacionamentos virtuais de forma intensa pode, de fato, agravar quadros de solidão, depressão e confusão mental em idosas. As consequências vão além do impacto emocional, podendo comprometer a qualidade de vida, autonomia e até a segurança física e financeira”, diz Sônia.
“O caminho mais eficaz e ético é abordar a situação com acolhimento, escuta genuína, informação clara e construção conjunta de novas reflexões. Ajudar a pessoa a se sentir amparada e respeitada é o melhor antídoto para o sofrimento emocional, e a única forma de ela abrir espaço para um possível reexame do vínculo virtual. O ideal é evitar rupturas bruscas, acusações, humilhações ou exposição. O ideal é trocar pelo diálogo afetuoso, paciência e apoio contínuo”, avalia a profissional.
“Penso que a partir do momento em que os malefícios existem e o patológico é deflagrado, trazendo situações indesejáveis e mesmo, perigosas, deve-se ficar atento. A fantasia afetiva pode, sim, funcionar como um mecanismo de defesa saudável contra a solidão, especialmente na vida adulta e na velhice”, continua.
“Se as fantasias apenas complementam a vida emocional da pessoa, servindo como distração positiva ou fonte de bem-estar e a pessoa distingue claramente o que é imaginação e o que é vida real, não prejudicando o seu cotidiano e ainda, quando a fantasia não interfere nas relações reais, obrigações, autocuidado nem ocasiona riscos financeiros ou sociais e não provoca sofrimento relevante, pode ser saudável”, completa.
Para Sônia, é fundamental que filhos e netos sejam orientados neste contexto, que requer muito tato, paciência e compreensão, pois o envolvimento afetivo, mesmo que virtual ou ilusório, pode ser extremamente importante para a idosa, tornando-a resistente a qualquer intervenção. “Insistir, confrontar ou menosprezar diretamente esse vínculo, na maioria dos casos, só aumenta a resistência, cria conflitos e pode até levar a rupturas que dificultam ainda mais o acolhimento e a proteção”, conclui.
Abuso emocional e financeiro
Já o psiquiatra Felipe Feitosa, de Volta Redonda, avalia que nem todo comportamento romântico ou afetuoso é sinal de doença. No entanto, quando a intensidade das emoções parece desproporcional, descolada da realidade e associada a mudanças comportamentais recentes — como desinibição, impulsividade ou dificuldade de reconhecer riscos — é importante investigar causas neurológicas.
“Na demência, especialmente na Doença de Alzheimer e na demência frontotemporal, podem surgir alterações no julgamento, na crítica e na percepção da realidade. O que à primeira vista parece uma “carência” ou uma fantasia amorosa pode ser, na verdade, um alerta para um quadro clínico mais sério”, explica o médico, destacando que observar o histórico da pessoa, mudanças abruptas no comportamento e o grau de desconexão com o real ajuda a diferenciar fantasia saudável de sinal patológico.
De acordo com ele, esses vínculos pelas redes sociais podem, inicialmente, trazer conforto e preenchimento emocional. Mas quando tomam proporções fantasiosas, criam um terreno vulnerável para frustração, manipulação e abuso emocional ou financeiro. “O risco é ainda maior em pessoas que vivem isolamento social ou apresentam quadros de depressão e declínio cognitivo. A fantasia pode se tornar um delírio afetivo, gerando confusão mental, sensação de traição e agravamento do sofrimento psíquico quando confrontadas com a realidade”, afirma.
Ele vai além. E diz que o impacto pode ser severo: da quebra de laços familiares ao aprofundamento da solidão e até crises de ansiedade e desorganização do pensamento. “A abordagem deve ser feita com empatia e respeito. Jamais se deve ridicularizar ou invalidar os sentimentos dessas mulheres. O ideal é construir um vínculo de confiança, ouvir suas emoções e, a partir daí, apresentar dados, provas e argumentos com delicadeza”, pontua.
Acolhimento
O psiquiatra Felipe Feitosa salienta que, muitas vezes, o caminho mais eficaz é envolver profissionais — como psicólogos ou psiquiatras — para ajudar na mediação e no cuidado emocional. O foco, diz, não deve ser “desmentir” o romance, mas acolher a dor e ajudar a pessoa a elaborar o vazio que esse vínculo tenta preencher.
“Fantasiar é humano — e, em muitos casos, um recurso psíquico saudável. O problema está na perda de critérios de realidade. Quando a fantasia passa a interferir na vida social, financeira, nos laços familiares ou no senso de segurança, ela deixa de ser adaptativa. Quando uma pessoa idosa se isola de amigos, nega evidências claras ou se recusa a cuidados médicos por causa do “romance”, é sinal de que a fantasia virou um sintoma e requer intervenção”, afirma o psiquiatra Felipe Feitosa, enfatizando que, nesses casos, a fantasia deixa de ser uma proteção e passa a ser a expressão de uma dor que precisa ser acolhida e tratada.
“O primeiro passo é não partir para o confronto direto, que tende a gerar defesa e afastamento. É mais eficaz se aproximar com empatia, buscando compreender o que esse vínculo representa emocionalmente. Orientar os familiares a escutar sem julgamento, demonstrar afeto e preocupação genuína — e não apenas “corrigir” — ajuda a abrir espaço para o diálogo. Em casos mais complexos, vale buscar orientação de um profissional de saúde mental, que pode intervir de forma mais técnica e acolhedora”, diz Feitosa, acrescentando que se houver risco de golpes financeiros ou sofrimento grave, a família pode buscar apoio jurídico e médico com respaldo ético. “Mas sempre com cuidado para não romper os laços, que serão essenciais para qualquer ajuda futura”, finaliza.
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Agatha Amorim