Guterres abre Assembleia da ONU com alerta de “era de disruptura imprudente”
Foto: Joan Sutter/Depositphotos
Por Silas Avila Jr
Nova York — O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, abriu nesta terça-feira, 23, a 80ª sessão da Assembleia Geral da ONU com um discurso marcado por severos alertas sobre a conjuntura internacional. Diante de chefes de Estado e representantes de mais de 190 países, Guterres afirmou que o mundo vive uma “era de disruptura imprudente e sofrimento humano implacável”, em que a impunidade, a desigualdade e a indiferença estão corroendo os pilares da paz e do progresso global.
O tom foi de urgência e de cobrança. O secretário-geral destacou que, em diversas regiões, da África ao Oriente Médio, a lógica da força se impõe sobre o Estado de Direito. Ele citou a tragédia humanitária no Sudão e a situação em Gaza como exemplos de crises em que civis são esmagados por conflitos prolongados, sem que a comunidade internacional consiga impor soluções eficazes. “Não há espaço para neutralidade diante de tais tragédias”, disse, lembrando que a indiferença de governos e sociedades apenas amplia o sofrimento.
Guterres criticou duramente a crescente desigualdade, tanto entre países quanto dentro deles, afirmando que o fosso social e econômico mina a confiança nas instituições e alimenta instabilidade. Para ele, a impunidade de líderes e grupos que desrespeitam normas internacionais reforça um ciclo de caos e violência, enquanto a complacência mundial diante da dor humana cria um cenário de descrédito para o próprio multilateralismo.
Ao completar 80 anos de existência, a ONU foi evocada por Guterres como um lembrete de escolhas feitas no passado. Segundo ele, os fundadores da organização enfrentaram dilemas existenciais ao fim da Segunda Guerra Mundial, e decidiram apostar na diplomacia e na cooperação internacional. Hoje, afirmou, a humanidade está novamente diante de um ponto de inflexão: “Precisamos escolher entre a paz ou a guerra; o Estado de Direito ou a lei da força; a cooperação ou o conflito.”
O secretário-geral insistiu que o multilateralismo não é uma opção retórica, mas a única saída realista para problemas que se entrelaçam e transbordam fronteiras, da crise climática à instabilidade econômica, passando pela proliferação de conflitos armados. O apelo de Guterres buscou, mais uma vez, recolocar a ONU no centro da agenda diplomática global, num momento em que crescem os questionamentos sobre sua capacidade de ação.
A abertura da Assembleia Geral é tradicionalmente o espaço em que o secretário-geral estabelece o tom do debate para a semana diplomática em Nova York. Com sua fala, Guterres procurou não apenas advertir sobre os riscos de um mundo cada vez mais fragmentado, mas também reforçar a necessidade de compromissos concretos. Seu discurso foi menos uma celebração dos 80 anos da ONU e mais um chamado à responsabilidade diante de uma ordem internacional em fratura.
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Agatha Amorim
Guterres abre Assembleia da ONU com alerta de “era de disruptura imprudente”



